Festa de gala

Gala, do francês antigo: alegria, prazer. Kylian Mbappé joga o tempo inteiro sorrindo. Se diverte com o que faz, sente prazer consigo mesmo de uma forma quase obscena, transformando cada testemunha em acidental voyeur.
A seleção francesa joga tão bem que a gente nem sente o esforço, parece que tudo está organizado para funcionar. E quando pensamos que não funciona, como no primeiro tempo do jogo contra Senegal, percebemos o quanto estamos sendo enganados por aquelas meras impressões transmitidas pela televisão. Na realidade, a França tem um ritmo cadenciado que funciona como um rolo compressor. Se você ainda não foi esmagado, é só porque ele está a alguns metros de distância. Calma, o momento chegará.
Sob o comando do “ditador” Mbappé, a França, palco da maior revolução da história moderna, mantém um jogo de igualdade – são tantos craques que fica difícil colocar alguém em um pedestal. E Mbappé, ciente da companhia, parece ter preguiça, poupar monumental esforço; perde um ou dois gols no primeiro tempo, talvez porque tem uma segurança extraordinária nas possibilidades futuras. Elas certamente chegarão.
O camisa 10 exala aquela tranquilidade que beira a displicência. Eu não vi Ademir da Guia jogar, mas eu li Décio Pignatari escrever sobre Ademir da Guia: “Ademir é um craque por desfastio e joga o seu futebol sutil como quem, soberano e sobranceiro, está matando tempo balneariamente no gramado, à luz dos refletores e sob as vistas perplexas de trinta mil espectadores”1. Associo essas palavras com Mbappé. Parece que tudo depende do seu apetite. Quando ele quer, em questão de poucos segundos, sozinho, decide tudo. Sabe do tamanho da sua estrela.
Estrela também é oportunismo, e craque não é feito somente de marra e vontade, mas também de sorte. Porque sorte, sorte mesmo, é a combinação da oportunidade com a capacidade de realização. Haaland marcou duas vezes na sua estreia na Copa do Mundo com a Noruega, em uma goleada de 4x1 – placar que garante a primeira colocação do grupo, deixando para trás a própria seleção francesa, do faminto Mbappé. A comemoração: uma postura meditativa. Diz ele, em entrevista2, que meditar ajuda muito, que se encontrar em paz faz bem. Afinal, até mesmo o viking precisa alinhar os chakras com o universo, convocar forças maiores para dobrar o destino em direção ao seu bem.
Quem também intercede em campo para abençoar os craques da seleção argentina são os deuses do futebol, os anjos sagrados e toda a mística maradoniana, que não dispensa um altíssimo grau de religiosidade. Não tem jeito, futebol mexe com tudo. E, quando se trata de Messi, o sagrado caminha da idolatria messiânica ao lance que dá certo só por um milagre. Mas as preces não rogam somente pelo ídolo estelar: até Dibu Martinez, o insano goleiro argentino, joga os 90 minutos mais acréscimos protegido por uma aura celestial da torcida mais vibrante que já foi vista na edição desse ano da Copa do Mundo. Para o jogador adversário, parece que não basta a bola entrar, porque ainda é preciso ultrapassar uma turba ensandecida atrás do gol.
E porque Messi já é considerado se não um deus, ao menos uma figura associada ao divino, do lado de Maradona, ele não é julgado pelo tribunal dos homens. Aos 30 minutos do primeiro tempo fez uma falta que expulsaria qualquer jogador “mortal” de campo. Messi, sobrenatural, não recebeu nem cartão amarelo. O futebol também é assim. A justiça é aquilo que se faz, independentemente de “ser justo” ou não. O VAR é só uma camada a mais que dá ares de solidez e de verdade para a arbitrariedade do juiz. No máximo, discutiremos o lance polêmico durante a semana seguinte e nada mais. O que conta é o que fica em campo. Messi não foi expulso, e marcou os 3 gols da Argentina ao som de uma massa de adoração.
Se na França há uma “ditadura da igualdade”, elevada à máxima potência pela excelência técnica, na Argentina só há espaço para a loucura. A idolatria que a hinchada, os jogadores, o técnico e o país têm por Lionel Messi, somada às características sublimes e até monstruosas desse jogador, fazem com que a seleção argentina jogue leve. Não há, como na França, rolo compressor – a maestria azul-celeste reside na dança em torno do gol adversário. Como no tango, rodam, rodam, rodam, e depois se curvam, não em direção ao corpo da companheira de dança, mas em direção às traves. A bola entra com amor. É paixão em estado puro.
Gala, do italiano: elegância, pompa. Iranianos e iraquianos praticam a arte da bola sob uma pressão que vai além do campo. São acossados o tempo inteiro pela chamada justiça estadunidense. Senegal olha a França de igual para igual, mostrando que não vai mudar o seu modo de jogar para se adaptar ao rival. Postura da mais alta classe. A estreante seleção de Cabo Verde barrou a grandiosa campeã europeia, em um empate que deixou o mundo inteiro com um gostinho de vitória3. Nem a alta cúpula da Espanha, incluindo o príncipe Lamine Yamal, conseguiu marcar contra Vozinha, o goleiro que conquistou os corações do planeta. Derramei lágrimas pesadas nesse confronto, só pela emoção de ver que o futebol é o campo de todas as possibilidades. Mas não sei se essas lágrimas valem muito, porque eu sou meio chorosa mesmo...
Esse é o Futebol com F maiúsculo. Deixa a gente à flor da pele com os craques da bola e os craques da vida. O mundo só tem a crescer quando essas duas qualidades se encontram na mesma pessoa. Na “monarquia do meu gosto”, a nobreza vem do gesto.
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Décio Pignatari. Ademirável da guia. Terceiro tempo. Cotia: Ateliê Editorial, 2014.↩
Ge. Ele fez de novo! Entenda por que Haaland, da Noruega, comemora seus gols meditando. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/16/ele-fez-de-novo-entenda-por-que-haaland-comemora-seus-gols-meditando.ghtml↩
O oposto do Brasil, que nos deixou com um empate com gosto de derrota. Para ver comentários sobre esse jogo, leia Ressaca de Brasil.↩