A vida de uma garota de 30 anos

Felicidade é coisa grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.1


O que eu ia dizer ontem, antes de precisar da sessão vomitório, é que felicidade é coisa pouca. Porém, antes mesmo de passar por aqueles acontecimentos, pensei em trocar para “coisa simples”. Porque “coisa pouca” não transmite aquilo que eu queria dizer. Depois de viver todo aquele transtorno na madrugada de sábado para domingo, matutei muitas coisas da minha vida e também o título do texto. Na verdade, felicidade é coisa grande, mas conseguimos acessá-la pelas “coisas simples”. Já disse aqui em outra oportunidade o quanto nós nos esquecemos de acrescentar as pequenas alegrias no nosso cotidiano. E, muitas vezes, mesmo nos finais de semana, nos deixamos consumir por tarefas, problemas, desânimos – o que, no final das contas, nos deixa com a sensação de que nem tivemos final de semana.

Como ontem estávamos à la Álvaro de Campos, porque, acreditem, de vez em quando ele é necessário, hoje, vamos com Ricardo Reis. “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui”. Ou seja, põe pra fora, deixa ser verdadeiramente tudo aquilo que você é, sem medo de ser feliz, sem exagero de falsa felicidade. Só assim seremos grandes. Por isso que felicidade não é mesmo “coisa pouca”, como eu pensei primeiramente. É coisa grande, formada de coisa simples, de quando a gente pode ser quem a gente é.

No sábado de manhã quis me sentir no final de semana de verdade. Por mais que eu fosse trabalhar no fim da tarde (pois é, pois é...) quis me sentir “no final de semana” pelo menos por algumas horas. Coloquei uma camiseta do Looney Tunes (Pernalonga, para ser mais exata) e saí para aproveitar o sol, o dia, a vida. Comi feijoada em um restaurante aqui perto, que consegue equilibrar um tempero excelente e pouca gordura. O fato de meu estômago estar voltando ao normal aos poucos me garante essa felicidade. Feijoada é uma das minhas comidas preferidas do mundo. Passar semanas sem comer esse prato é algo que me deixa realmente triste.

Depois do almoço, passei no mercado para comprar carnes e frutas, e também ler Fernando Pessoa na fila do açougue, como vocês já sabem. No caminho, vi uma banca de jornal e pensei: por que não me permitir uma felicidade de criança? Comprei três pacotes de figurinha do álbum da Copa. Abri os dois primeiros e não veio nenhuma tão especial. O terceiro: sorte grande, grandessíssima, gigantesca! Vejam com os próprios olhos.


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Gente, juro para vocês que quase chorei de felicidade. Queria sair berrando aos quatro cantos do mundo de tamanha alegria. Me senti assim abençoada pelo deus da sorte ou qualquer coisa do tipo. Como pode no mesmo pacote vir o craque máximo da França, o líder da equipe marroquina e o escudo brilhante da seleção de Cabo Verde? Confesso que até estou tentada a comprar mais alguns pacotes, mas com um pouco de medo de ficar viciada nessa sensação prazerosa e gastar muito dinheiro com isso, até porque nem o álbum eu tenho. Já me peguei desejando ter alguma criança próxima na minha vida para eu ter a desculpa de estar gastando dinheiro para ajudá-la a completar o álbum. É mole? Mas tenho que confessar para vocês que até o cheiro das figurinhas é igualzinho ao de quando eu mesma montava os álbuns nas copas de 2006 e 2010. Felicidade é coisa boba.

Depois de abrir os pacotes e me sentir no céu, saí para fazer uma aula de yoga a céu aberto. Acho eu não fazia uma coisa assim há anos. A yoga funciona para mim como um alongamento no meio do dia, entre tarefas domésticas e do trabalho, o que não é de todo errado, mas não é também de todo certo. De vez em quando é bom fazer uma aula inteira com bastante presença, sentindo o corpo com calma, em um lugar espaçoso, onde você pode se espreguiçar em todas as direções. No sábado, eu tive a vantagem de ainda poder contar com o sol, que banhava a minha pele mansamente em um calorzinho de 15 horas da tarde. Gente, que delícia! Saí de lá andando nas nuvens, flutuando mesmo. Felicidade é coisa leve.

Depois de garantir que meu corpo inteiro estivesse alongado e relaxado, me sentei no tapetinho de yoga para desenhar uma árvore que estava ali do lado e esboçar um rascunho desse texto aqui, com todos os itens que eu queria abordar. Há pouco tempo eu achei que eu nunca seria capaz de desenhar uma árvore assim, do nada. Minhas primeiras tentativas são medrosas, porque eu não tinha ainda nem a mão e nem o olhar necessários para tal tarefa. O tempo passa e a gente aprende. Fiz esse desenho de observação em menos de 10 minutos. Me lembrei das árvores de Meu amigo Totoro e pensei: é claro que ainda estou longe de atingir aquele nível de beleza na arte, mas com certeza estou a caminho. Se eu pegar meus desenhos antigos, verei o quanto eu já andei rumo ao meu destino. Felicidade é coisa longa.


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E, mesmo depois de figurinhas, sol, comida boa e desenhos, pode ser que a vida te atropele, você volte para casa e se sinta triste, jogado na cama por duas horas, rolando dentro dos seus sentimentos e pensamentos. Mas eu te digo: ainda dá pra ser feliz.

Quando me peguei assim, deixei a coisa vir. Depois de duas horas e pouco olhando para o teto, decidi que já era tempo. Abri um texto do th (Quem é o vilão de Encanto (2021)?) que eu estava há alguns dias guardando para ler em um momento oportuno e me diverti muito. Dei boas risadas e amei a escolha das imagens. Esse menino é bom em nos fazer sorrir.

No desespero, havia mandado várias mensagens para pessoas aleatórias e um tanto distantes no WhatsApp. A minha colega da época da faculdade, que está dando aquele curso de Astrologia que eu estou fazendo, me respondeu. Aconselhou um escalda pés, com camomila e sal grosso. Me levantei, fiz uma pizza de frigideira enquanto a água fervia. Preparei o escalda pés. Me sentei no banheiro com a bacia, a pizza, toalhas e uma revista, a 451, e me perdi no tempo. De noite, não estava a fim de ficar na internet ou de ler as coisas que eu já estava lendo. Queria coisa nova. Fiz uma aula do curso sobre o signo de gêmeos e, depois de me inserir em toda aquela duplicidade geminiana, na sua inteligência, na sua sagacidade, me lembrei de um livro que comprei recentemente sobre irmãos gêmeos. E foi assim que comecei a ler O grande caderno, da Ágota Kristóf, e uau, simplesmente uau! Não tenho palavras. Não posso contar porque a melhor coisa a se fazer com esse livro é ir sem saber de nada – acreditem, o melhor é ir sem saber de nada mesmo. Essa mulher te surpreende em lugares absurdos. Eu estava restaurada.


Felicidade é feijoada, é poder comer e caminhar, é uma banca de jornal no meio do caminho, é ganhar na sorte. É entrar no buraco e se imaginar sozinho, e, de repente, descobrir que tem sim alguma coisa que pode te tirar de lá. É se maravilhar com as palavras. É coisa boba, é coisa leve. É coisa simples. É coisa forte. É coisa grande, grandessíssima, gigantesca.



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  1. Ricardo reis. (pseudônimo de Fernando Pessoa). Para ser grande. O eu profundo e outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.