Sessão vomitório
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias,
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram,Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida... 1
Talvez esse texto seja um pouco triste. Mas hoje eu preciso dele. Se você quiser ler um texto feliz na sua manhã de domingo, recomendo que volte um dia e leia o texto de ontem: Meus pincéis para aquarela. Não é sempre que a gente precisa ler sobre a tristeza alheia. Acontece que a minha psicóloga saiu de férias na sexta passada e só volta no final do mês, então vou ter que me virar com o que eu tenho. Por ora, a ferramenta mais forte que eu encontrei foi a escrita. Talvez mais tarde eu saia para dar uma volta sozinha, pintar alguma coisa, ler em algum lugar tranquilo. Mas agora só preciso botar fora tudo o que se seguirá. De antemão: me desculpem a sessão vomitório.
Ontem eu estava na fila do açougue lendo Fernando Pessoa. Sem nenhum motivo específico, retirei aquele livro da estante e fui para o mercado. Eu amo Fernando Pessoa de um jeito que vocês não têm ideia... para mim, um dos maiores de todos os tempos. Mas me lembro de por muito tempo não ter gostado. De sentir aquela melancolia com asco, de não entender os seus motivos, de achá-lo uma pessoa confusa. Ah! Como é a vida! Me faltavam anos? Me faltavam dores? Me faltava consciência? Não sei... fato é que, em um dia fatídico na minha vida – daqueles em que a gente lembra até onde estava, os móveis ao redor, o cheiro do lugar – entendi Fernando Pessoa. E quanto mais lia seus poemas, mais entendia a mim também.
Ontem, depois de ler Fernando Pessoa na fila do açougue, fiz muitas coisas agradáveis. Até planejei o texto de hoje que seria sobre (vejam só) a felicidade. Em breve retomarei todas essas coisas felizes e outras mais. Mas, agora, o sentimento é outro. Por quê?
Depois de fazer inúmeras coisas agradáveis, fui fechar o meu dia com chave de ouro. Futebol: últimos jogos das quartas de final. Agora, preciso interromper: tem aqui um detalhe importante que vocês ainda não sabem. Aqui onde eu moro todo mundo fala por indiretas, tudo é meio enviesado, e cada um entende o que bem quer do que o outro diz. Com todas as coisas. De modo que, se eu falar que eu gosto de Messi, alguém pode entender que eu odeio o Neymar, que eu torço contra o Neymar, que o Neymar é o melhor jogador do mundo e que eu sou imbecil por não perceber isso. Se eu falar que o Vini Jr. jogou bem essa copa, eu só posso estar querendo dizer que eu gosto mesmo é de “lacração”. Se eu elogiar a garra do futebol argentino, eu, na verdade, quero dize que a Argentina está correta na disputa pelas Ilhas Malvinas. Pois é, meus amigos, não é fácil dizer nada por aqui. E nem mesmo o horário do jogo, que finalizou à 1 hora da manhã, foi capaz de parar esse pessoal. Aqui se vive de polêmica em polêmica, e não se pode ficar sossegado. Todos os argumentos são muito bem fundamentados por meio de vídeos das redes sociais e de opiniões de “pessoas relevantes”, muito bem sucedidas. O problema sou eu, que fui inventar de querer estudar demais...
Já disse aqui para vocês que para escrever a gente mente. Na verdade, esse é um jeito ingrato de dizer as coisas. Para escrever a gente inventa, fantasia outra coisa. De uma forma mais elegante, como diria Virginia Woolf, para escrever a gente precisa “sair da vida”.
No dia da eliminação do Brasil da Copa, escrevi um texto que era, além de outras coisas, também sobre meu pai. Sobre os filhos herdarem o futebol dos pais. E isso tudo está muito correto e adequado. Mas eu também deixei uma outra possibilidade no ar: “Fora do futebol, cada pai, quando ele existe, é de um jeito, e nem tudo é sempre sonho.”
Hoje, apresento outra coisa sobre o meu pai para vocês. Ele é alcoólatra. E, por muito tempo, ninguém disse isso por aqui. O alcoolismo se instala como uma coisa normal, já repararam? É porque é “muito legal” beber. Esse fato é cotidiano na minha vida: meu pai bebe todos os dias. Se não bebe, já começa a sentir a abstinência, já fica com alterações de humor, irritadiço. E, quando bebe, se torna agressivo, estúpido, irredutível. Talvez nesse texto da eliminação do Brasil eu tenha apresentado meu pai como um torcedor de futebol que é meu companheiro. É que, para escrever, a gente precisa “sair da vida”. E talvez ele tenha sido em um passado ou ainda seja quando ele se lembra de quem ele é. Mas isso acontece em pequenos lapsos. Em pouco tempo, tudo retorna ao normal. Eu não sei se ele é uma coisa ou outra; ou as duas ao mesmo tempo ou nenhuma delas.
Não é fácil ter alguém alcoólatra na sua vida, e eu diria que todas as pessoas que convivem com ele não encaram isso de frente. Mas eu vivo assim, com essa sensação de que as coisas dos outros estão sempre me invadindo. Todos deixam com que tudo aconteça, de forma irresponsável, derradeira. E, nessa de deixar que tudo aconteça, já salvei meu pai da morte uma vez. Literalmente. Ele não se lembra desse dia. Eu nunca me esqueci do cheiro de sangue que exalou do meu corpo depois de ficar ensopada com aquele líquido espesso e escuro que jorrava de dentro dele.
É um saco. De vez em quando a imagem desse sangue invade até o nosso papo sobre futebol. E o que antes era amor em comum se torna desentendimento, palavras ditas com raiva, violência nos gestos. Tudo “porque” eu disse que eu gostava do Messi, às 23 horas de um sábado chuvoso...

Estou na terapia há pouco tempo, cerca de seis ou sete meses. Quando comecei a contar para a minha psicóloga sobre todas essas coisas, ela me disse que eu lembrava a ela a personagem Matilda, interpretada por Mara Elizabeth Wilson, no filme de 1996. Me pediu para assistir. Eu já tinha lido o livro de Roald Dahl e me impressionado com aquela violência brutal. Fiquei chocada quando me dei conta de que aquele livro era para crianças. Para mim, o filme é também um pouco perturbador. Mas realmente consigo me ver naquela garotinha, que quer viver, mas está rodeada de uma loucura que já não é bem loucura, porque talvez seja mera violência2. Até diria que nos parecemos bastante fisicamente. Só tenho algumas características nipônicas que ela não possui. Mas, de resto, fomos e somos muito parecidas, de estilo, de gosto, de dores. A diferença é que Matilda encontra um poder mágico e alguém que a retira de tudo aquilo. Torço para que eu encontre pelo menos o meu poder.
Mas, agora escrevendo esse texto, reconsidero: será que já encontrei? Porque ontem mesmo senti um descompasso entre o que eu vivia inicialmente (aquela felicidade que não coube no texto de hoje) e a poesia de Fernando Pessoa. Por que eu quis retirar especificamente aquele livro da estante, em um momento tão pacífico? Seria o meu poder mágico, me enviando um presságio por meio dos livros? O problema é que se esse for o meu poder, eu mesma ainda não entendi o que eu devo fazer com ele. Porque ontem mesmo achei que seria feliz3... Ontem não deu, hoje é meio do caminho. Amanhã, vai dar.
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Álvaro de Campos (pseudônimo de Fernando Pessoa). Lisbon Revisited (1926). O eu profundo e outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.↩
Omiti a minha mãe no trecho acima, mas ela está todinha lá dentro também. Apenas reduzi por conta do estilo, do “sair da vida” que a escrita exige. Mas ela também está lá, vivendo de maneira perfeitamente normal em meio a tudo isso. Também está a minha prima, que esteve aqui conosco na noite de ontem. Para eles isso tudo é normal.↩
Pelo menos por 24 horas, pelo menos no dia em que o Messi ganhou o jogo.↩