Fofoca homérica: Ilíada, canto I (Parte 3)
Hoje, em pleno sábado ensolarado, vamos fechar o nosso canto I. Que maravilha! Como vocês puderam acompanhar, mesmo que esse seja só o primeiro capítulo, esses poucos versos nos garantem inúmeras possibilidades de interpretações, análises e entendimentos da sociedade grega e desses personagens maravilhosos apresentados para nós por meio de Homero.
Caso você ainda não tenha visto os capítulos anteriores, comece pela parte 1 😊
Agora, sim, vamos para a nossa fofoca.
Vocês se lembram que, no texto de ontem, Aquiles pediu para Tétis, sua mãe-deusa, abraçar os joelhos de Zeus e clamar para que o deus mais poderoso do Olimpo lhe garantisse a sua glória? Pois bem, vejamos agora o que se sucedeu.
Tétis disse para o filho que prontamente faria como ele pediu. Mas que Zeus estava fora para comparecer a um festim que duraria 12 dias, e, portanto, Aquiles deveria aguardar o seu retorno para o Olimpo. A mãe o aconselhou: “fica tu agora junto às naus velozes na tua ira contra os Aqueus, e completamente se abstém da refrega”1.
Aquiles obedeceu e, por 12 dias, se manteve quieto no seu canto, montado em sua ira. No 12º dia, sua mãe se encaminhou para o Olimpo para falar com o todo-poderoso Zeus. A deusa rogou para que o deus honrasse seu filho, que estava destinado a uma vida curta, e acusou Agamenon de arrogância. Por fim, pediu: “concede a primazia aos Troianos, até que os Aqueus honrem meu filho e lhe paguem com honraria devida”2.
Zeus se manteve imóvel.
Tétis, a essa altura, diante dos pés de Zeus e com uma mão em seu queixo3, solicita: Zeus, se for atender meu desejo, apenas dê um aceno com a sua cabeça, e eu saberei que ele se cumprirá. E assim fez Zeus. Sacudiu sua cabeça para frente e, com esse movimento, o Olimpo estremeceu.
Vejam com seus próprios olhos a cena.
E por que motivos Zeus estava relutante diante desse pedido de Tétis, mesmo sabendo que ele tinha uma dívida com ela? Analisemos o que ele mesmo expõe à nereida:
É triste o trabalho em que me lanças para entrar em
conflito
com Hera, quando ela me provocar com palavras injuriosas.
Entre os deuses imortais está ela continuamente a censurar-me,
porque afirma querer eu beneficiar os Troianos na refrega.4
Ou seja, Zeus estava, no fundo, querendo evitar de arranjar coisa pra sua cabeça. Em suma, o cabra conhece a esposa que tem e não queria desagradá-la.
E por que motivos Hera estava a acusar Zeus de ajudar os troianos na guerra? Por conta de um episódio que é anterior à guerra, mas muito importante para a sua compreensão.
Diz o mito que a deusa da discórdia (Éris) não foi convidada para a festa de casamento de Peleu com Tétis (pai e mãe de Aquiles). Por isso, ela decidiu lançar na festa uma maçã de ouro com a inscrição “para a mais bela”.
Anos depois, Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, foi convidado a escolher a quem se destinava aquela maçã: Hera, Atena ou Afrodite?
Cada uma das deusas prometeu para Páris algumas bonanças em troca de seu voto. Hera prometeu que ele seria um homem muito poderoso, rei de muitos territórios. Atena prometeu sabedoria e vitória nas guerras. E Afrodite prometeu o amor da mulher mais bela, Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta.
Foi Afrodite quem o jovem Páris escolheu. E, assim, começou a guerra.
Desde então, Hera e Atena defenderam os gregos com unhas e dentes, uma vez que Afrodite estava do outro lado. E, por isso, Hera acusava Zeus de apoiar os troianos. Afinal, em uma família tradicional, quem é o nosso maior inimigo, se não o nosso próprio marido?
Diante desse cenário, vocês bem podem imaginar que o encontro de Zeus com Tétis não passou despercebido pelos olhos de águia de Hera. Ela logo sentiu que tinha um clima no ar. Foi logo jogando as suas palavras ao vento. Hera é a nossa famosa “língua de chicote”, gente. Com receio de perder nos argumentos e na força, ela quase sempre chega no lugar desmoralizando geral! Dirige as seguintes palavras para Zeus, o trovejante.
Quem dos deuses, Pensador de Enganos, contigo se aconselhou?
Sempre te é caro manteres-te afastado de mim,
judiciando coisas pensadas em segredo!5
Mas vejam aqui que Zeus não é um homem qualquer, afinal, ele é o deus mais-poderoso. Por isso, não perde tempo se desculpando com a mulher, prometendo que vai mudar, comprando rosas, pelúcias, chocolates e bombons para pedir perdão. Ele manda essa aqui, na lata:
Hera, não penses vir a conhecer todas as minhas
palavras: difíceis elas te seriam, minha esposa embora sejas.6
Então Hera, mulher também poderosa, deusa do casamento e guardiã das esposas, diz que receia que tenha vindo passar por aqui uma tal de Tétis. Além disso, receia que ela tenha pedido por proteção para Aquiles e que (o pior de tudo!!) Zeus tenha aceitado. O filho de Cronos, embasbacado, reage: “Deusa surpreendente! Sempre coisas imaginas; nunca te escapo!”7
Brevíssimo comentário.
Se lembram que estamos aqui analisando também um pouco do papel das mulheres na sociedade grega e nessa fofoca homérica, sim? Aqui, Hera demonstra que, apesar de as mulheres não serem iguais aos homens em estatuto social e político, elas se fazem valer por meio de outro tipo de poder, o qual os homens sabem que nunca será deles. As mulheres se igualam por meio do mistério.
E, agora, imagino que vocês já tenham percebido que esse núcleo da novela, o núcleo do Olimpo, é também aquele núcleo de humor, aquela parte meio cômica. Porque, apesar de falar de coisa séria, tudo é muito exagerado: os sentimentos, as escolhas, os dramas, as harmonias e desarmonias. O Olimpo é, portanto, o núcleo que vocês podem apelidar de Casos de família ou de qualquer reality show de sua preferência. Pois o que vocês verão aqui é a história de muitos lares, que se reflete também na apresentação desse tipo de programa: há uma mistura de cenas hilárias com certas violências que ocorrem na vida privada.
Zeus, diante do assombro que Hera lhe causa por ter adivinhado todos os seus passos, se enfurece. Perde a linha. Afirma que mesmo que a mulher saiba de tudo, não poderá impedi-lo de fazer aquilo que ele bem entender. E ameaça:
Senta-te em silêncio e ouve as minhas palavras,
com receio de que em nada te ajudem os deuses no Olimpo
quando de ti me aproximar, para te pôr minhas mãos
irresistíveis. 8
É isso mesmo que vocês entenderam. Zeus ameaça meter a mão em Hera. E ela, por sua vez, se amedronta e se senta em silêncio.
Hefesto, filho de Zeus e de Hera, interrompe, então, essa cena horrorosa. Imagina ser convidado para almoçar na casa de seus pais e começar uma coisa dessa diante da mesa do almoço de domingo? Parece familiar? Então, ele meio que diz o que um filho poderia dizer numa situação como essa: e aí, me chamaram para almoçar ou para assistir à briga? Vamos todos nos acalmar antes que dê merda!
Mas, por mais que esta pareça uma família qualquer, ela é composta de deuses. E Hefesto é filho não de qualquer pai, mas do pai mais poderoso de todos. Então, recorda para a mãe que, durante outra briga deles dois na qual ele se meteu, foi expulso do Olimpo por Zeus, depois de ser arrastado pelos pés e jogado de um penhasco, no qual caiu durante um dia inteiro. Ele, mesmo sendo um deus, também é fraco diante de seu pai. E pede, de forma paradoxal, para a mãe: por favor, te cala para que não tenha mais violência.
Minutos depois, todos estavam almoçando no Olimpo em um banquete com o doce néctar, o alimento preferido dos deuses. Apolo tocava a sua lira, as Musas faziam o coro. O dia passou placidamente, quase como se nada tivesse acontecido.
Ao fim da noite, Zeus e Hera, marido e mulher, dormiram no mesmo leito. Ou quase... porque Zeus não pegou no sono. Ficou matutando um jeito de ajudar a deusa Tétis e seu protegido Aquiles. Mas isso já é história para o canto II!
E aí, minha gente? Gostaram? Falei para vocês que era fofoca das boas! É daquelas coisas que nos movem!! Ficaram com raiva de algum personagem? Sentiram ranço, compaixão, amor por outros? Ficaram eufóricos imaginando o que Zeus vai aprontar no canto II? Se inspiraram para escrever um artigo científico, uma novela, uma fanfic? Se encantaram com a relação mãe-filho de Tétis-Aquiles e Hera-Hefesto? Viajaram imaginando como era o amor entre homens na Grécia Antiga, com Aquiles e Pátroclo? Acharam graça de Odisseu bêbado confraternizando com o inimigo? Ficaram curiosos para ver o que acontecerá com personagens como Agamenon e Zeus, os todo-poderosos? Vai ficar tudo por isso mesmo? E o Páris? Tão novinho e já enfiado em uma presepada dessas! E as mulheres? “Rebaixadas” naquela sociedade, mas sempre magníficas, poderosíssimas... Me contem!
Um lindo final de semana para todos nós!
Com amor,
Uma garota de 30 anos
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