Fofoca homérica: Ilíada, canto I (Parte 1)
Ontem eu falei aqui no Microblog que uns resuminhos dos “capítulos”1 da Ilíada, que foram inseridos na tradução do Carlos Alberto Nunes, parecem com uma novela. E, algumas horas depois, fui abençoada pela insônia, que é um dos efeitos dos remédios que estou tomando para a bronquiolite, ao contrário da bobeirite, que ainda não foi provada cientificamente. Pois então ontem estava eu, quase à 1 hora da manhã, relendo o canto I da Ilíada. E pensei: gente, que fofoca da boa!!
Já disse aqui no blog que a minha parte menos preferida da fofoca é a opinião do fofoqueiro. Que devemos saber apreciar a fofoca em sua “desedificação”, aproveitá-la para nos desestruturar e, assim, talvez, nos tornar outros.
Hoje, sinto informar, vou cometer um crime: vou trazer uma fofoca pela metade. Mas fiquem calmos, que a outra metade seguirá em breve!! É só por conta do trabalho que dá contar uma fofoca das boas. Quanto à opinião: deixo para vocês decidirem o que pensar ao fim do meu relato dessa fofoca homérica, que já dura lá os seus mais de 2000 anos. Uau! Vejam como essa é das boas mesmo!!
No início da Ilíada, os gregos se encontram acampados nas praias que circundam Tróia durante 10 anos. Inicialmente, eles pensavam que essa guerra seria coisa rápida. Sacrificaram a filha de Agamenon, Ifigênia, e foram “abençoados” pelos deuses para partirem rumo a Tróia. Não contavam com seus muros impenetráveis. Curiosidade arqueológica: a montanha que abriga o sítio arqueológico em que se localiza Tróia se chama Hisarlik, “lugar da fortaleza”, em turco.
Voltando para a história: chegando lá, os gregos montaram acampamento e passaram a viver durante 10 anos nesse “clima gostoso” sob o governo de Agamenon, rei de Micenas, a mais poderosa cidade grega, rica em muito ouro. Por esse motivo e outros mais, Agamenon se tornara, temporariamente, o “rei de todos os gregos”. Mas não governava sozinho. Porque o que nós conhecemos como Grécia era formada, inicialmente, de muitos povos diferentes, cada um com seu rei, seus príncipes e seus nobres. Todos eles aceitaram o comando de Agamenon durante o período da guerra, mas se reuniam em assembleia para discutir os assuntos.
Pois bem, estavam ali os gregos, assentados em seus acampamentos diante do mar, quando surge o troiano Crises, sacerdote de Apolo, desejoso de conversar com Agamenon. Crises oferecia um resgate ao rei grego pela sua filha, Criseida, que havia sido feita refém dos gregos. Trazia consigo um cetro e as fitas do próprio deus Apolo. Crises também dizia que, caso Agamenon aceitasse sua oferenda, os deuses os abençoariam na guerra, e os gregos sairiam dela vitoriosos.
Todos os chefes gregos rapidamente indicaram para Agamenon aceitar a oferta. O Atrida (Agamenon, filho de Atreu) era de outra vontade. Mandou Crises ir ver se ele estava lá na esquina, uma vez que jamais aceitaria devolver parte de seu prêmio de guerra. Fiquem vocês com as palavras do rei:
Não libertarei a tua filha. Antes disso, a terá atingido a
velhice
em minha casa, em Argos, longe da sua pátria,
enquanto se afadiga ao tear e dorme na minha cama.
Vai-te agora. Não me encolerizes: partirás mais salvo.2
E foi isso que o sacerdote de Apolo fez. Partiu de volta, rumo à Tróia e, no meio do caminho, diante do mar, rogou para que Apolo o defendesse de tamanha injúria. Nos dias seguintes, Apolo, o deus das flechas e das pragas, fez estrago no acampamento grego. Espalhou a peste, e os gregos, que já estavam naquela penúria por 10 anos, passaram a perder inúmeros soldados da noite para o dia.
Diante de tamanha maldição, Aquiles, rei de Ftia e o melhor dos guerreiros, decide convocar uma assembleia para discutir o que estava acontecendo.
Na assembleia, Aquiles sugere que seja convocado um vidente, sacerdote ou intérprete de sonhos (pois também os sonhos vêm de Zeus) que fosse capaz de indicar por que razão se encolerizava Apolo. Diante desse questionamento, se pronuncia Calcas, o melhor dos adivinhos, o mesmo que os havia guiado rumo às praias troianas em suas naus.
Calcas diz bem assim: eu sei o motivo dessa desgraça toda, mas não posso contar se você, Aquiles, que é o melhor dos guerreiros, não jurar me defender, porque posso despertar a cólera de alguém muito grandioso. Aquiles, então, se prontifica a defendê-lo até de um ataque de Agamenon, que é o rei mais poderoso. Assim, Calcas resolve abrir o bico e diz que Apolo está enfurecido porque Agamenon não quis devolver Criseida, a filha de Crises, para o sacerdote de Apolo.
Como esperado, Agamenon se enfurece. Diz que Calcas só sabe prever a desgraça contra os gregos, que nunca prevê nada em seu favor. Apesar de rogar pragas contra Calcas, diz que devolverá Criseida se os gregos lhe recompensarem por isso, ou seja, espera que, ao abrir mão de “seu prêmio”, seja recompensado com outro.
Aquiles objeta, e diz que todos os prêmios já foram distribuídos entre o povo e que, a essa altura, não tem como recuperar tamanho valor para cedê-lo para Agamenon. Agamenon rebate, dizendo que Aquiles está se fazendo de sonso, uma vez que ele não precisa retirar o tesouro do povo, porque poderia muito bem subtrair os prêmios de outros reis, como Ajáx, Odisseu, e até mesmo do próprio Aquiles.
Aqui se inicia, então, a famosa “cólera de Aquiles”.
O guerreiro se enfurece, afirmando que não foi para Tróia para ir atrás dos troianos, já que sempre conviveram muito bem, até mesmo em sua terra, em Ftia, que era próxima àquelas praias. Diz que ele e todos os demais estavam ali para obedecer à vontade de Agamenon, irmão de Menelau, que teve Helena, sua esposa, raptada por Páris, príncipe troiano.
Então, Aquiles diz que prefere ir embora para casa a se submeter a tamanho ultraje, uma vez que “a maior porção da guerra impetuosa têm as minhas mãos de aguentar; mas quando chega o momento da distribuição, és tu que fica com o prêmio melhor”3.
Aqui está o ponto de origem do conflito entre os dois reis, porque Agamenon, diante de tal comportamento do guerreiro, decide pegar para si Briseida, que calhou de ser o prêmio de Aquiles. Rapidamente, Aquiles decide agir. Tomado pela ira, deseja desembainhar a sua espada e matar Agamenon diante de todos. Nesse momento, Atena, a deusa da guerra, surge diante de Aquiles e o segura pelos cabelos. Ela faz as vezes de “deixa disso!”. Promete que Aquiles poderia ferir Agamenon com as palavras e que, no futuro, três vezes mais gloriosas oferendas seriam trazidas para Aquiles, por conta da insolência de Agamenon. Só o guerreiro, no entanto, conseguia ver a deusa nesse momento.
Ele acatou as suas palavras, mas, vejam vocês que coisa louca, não por respeito nem nada do tipo. Apenas porque, nas palavras dele mesmo, “àquele que aos deuses obedece, ouvidos lhes dão eles também”4. Ou seja, Aquiles é um guerreiro brutal, mas também não é tão burro assim! Ele quer manter o canal aberto para seus futuros pedidos.
Então, conforme permitido, Aquiles agride Agamenon com as palavras. Eis o que ele diz:
Pesado de vinho! Olhos de cão! Coração de gamo!5
E diz mais! Afirma que Agamenon não tem coragem para a ir para a guerra junto com seu povo, mas tem coragem para retirar os prêmios daqueles que lutaram por ele. E profetiza: você pagará o seu preço quando os seus soldados pedirem para que eu volte a lutar ao lado deles, quando Heitor, o maior guerreiro dos troianos, tiver assassinado inúmeros gregos.
Diante de tal impasse, ergue-se o velho Nestor, orador da cidade grega de Pilos.
Ele começa seu discurso dizendo que os troianos irão se fortalecer diante da ruína que essa divisão irá trazer para os gregos. Depois, de uma maneira até engraçada, diz que todos os que estão ali com ele são “pouca bosta”, porque ele mesmo já lutou ao lado de duas gerações de guerreiros mortos, que eram em muito superiores aos que estavam ali diante de seus olhos. Se até Teseu escutava meus conselhos, por que raios vocês dois, que não são nada diante dele, não vão ouvir?
Nestor aconselha o seguinte: Agamenon não toma a Briseida de Aquiles, pois foi a ele que os gregos a entregaram. Aquiles, por sua vez, deixa de caçar pelo em ovo e para de forçar um confronto com o rei. Elogia os dois pelas características que lhes são caras: Aquiles é o mais forte, pois é filho de uma deusa. Agamenon é o rei detentor do cetro, por vontade de Zeus. Finaliza com uma súplica direcionada a Agamenon:
Atrida, refreia agora a tua ira; eu próprio te suplico
que abandones a cólera contra Aquiles, que para todos
os Aqueus6 é um forte baluarte na guerra destruidora.
Breve parêntese.
Vocês podem ter achado um tanto estranho o tratamento que aqui é dado para Criseida e Briseida, mulheres feitas de prisioneiras de guerra que são transformadas em meros objetos. É porque, nesse contexto, era assim mesmo que elas eram vistas. Para os gregos, importa mais a batalha entre as honras dos heróis do que o valor dessas mulheres, que eram, na realidade, vistas como “parte do butim”, tais como peças de ouro, vasos etc. Atena aparece como um contraponto feminino, pois é uma deusa forte, capaz de se fazer ouvir até pelo maior dos guerreiros.
E aí, minha gente? Qual vai ser? Os dois reis vão, enfim, escutar as balanceadas palavras de Nestor? Cenas para os próximos capítulos.
Mas a coisa já começa quente desde as primeiras páginas, não é? Afinal, quem está certo e quem está errado nessa história? É Agamenon um poço de vaidade sem fim? É Aquiles um garoto7 birrento que vive de chantagens? Agamenon está certo ao comandar as tropas dessa forma, mantendo firme a sua autoridade? Aquiles tem razão ao pintar Agamenon de covarde, uma vez que “trabalhar, que é bom, nada!”? Aos seus olhos, os troianos se tornaram mais simpáticos do que os gregos, depois de constatar o quanto há de desavença entre eles? Ou, para você, é nessa confusão que a gente se entende? Me diga!
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Nos textos homéricos, cada “capítulo” é chamado de “canto”. Então, toda vez que você ver alguma coisa tipo assim: “canto IX, v. 85”, quer dizer que a pessoa está fazendo referência ao verso 85 (linha 85) do “capítulo” 9. É comum, em todas as edições, os versos virem demarcados nas abas laterais, então não se preocupe, você não vai ter que ficar contando as linhas.↩
Homero. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013. Canto I, v. 28-32.↩
Op. cit. Canto I, v. 165-168.↩
Op. cit. Canto I, v. 218.↩
Op. cit. Canto I, v. 225.↩
“Aqueus” é outro nome utilizado para se referir aos gregos durante o texto da Ilíada.↩
A estimativa da idade de Aquiles no início da guerra é de 15, 16 anos. Ou seja, no início da Ilíada, 10 anos depois, ele tem por volta de 25 anos de idade. É um garoto diante de todos aqueles outros reis e comandantes.↩