A vida de uma garota de 30 anos

XOXO, Gossip girl

De vez em quando, uma coisa boba acontece dentro de mim. Quando penso que escrevo para um blog, o meu cérebro logo ativa algum lugar da minha adolescência e me faz lembrar da série Gossip girl, a “garota do blog”. Lá pelos meus 14, 15 anos, assisti a alguns episódios e cheguei até a ler alguns dos livros – eu tinha uma amiga que amava tudo sobre a série e principalmente a Serena e a Blair. Na época, eu não entendi a história entre elas e o desenrolar de toda a trama. Eu só queria saber quem era a gossip girl, mas não me recordo se a identidade havia sido revelada naquele momento. A minha amiga queria “ser a Blair” e, portanto, eu deveria “ser a Serena” – o que é engraçado, porque ela tinha longos cabelos loiros e eu sempre tive cabelos escuríssimos. Mas, nessa época, a vida era mais lúdica, e a gente permitia que a imaginação tomasse conta. Então ela era Blair, eu era a Serena, e éramos felizes assim.


Tagetes
Serena, de vermelho e cabelos loiros. Blair, de azul, cabelos castanhos. Adoro a pose brincalhona da Serena e os dentinhos da Blair nessa cena.


Durante a faculdade, voltei a assistir aos episódios de Gossip girl. Dessa vez, “pra valer”, da primeira até a última temporada. Meus colegas de sala também começaram a assistir e, no meio das leituras de Platão, Hobbes e Lévi-Strauss, discutíamos acaloradamente os episódios da série, como se acompanhássemos uma novela. De novo, Blair e Serena roubaram a cena e os nossos corações, e meus colegas, majoritariamente homens, queriam dizer qual das duas era “a melhor”. Blair Waldorf era a campeã, com seu estilo “bonequinha de luxo”, de Audrey Hepburn. E eu, que não gosto de ver ninguém perdendo, logo tomava o partido de Serena van der Woodsen, a minha Marilyn Monroe1.

A rivalidade feminina é uma desgraça: por que deveríamos escolher entre as duas? Duas melhores amigas, que seguiam, sim, aos trancos e barrancos: brigavam, se reconciliavam, se desentendiam, mas nunca se esqueceram, sempre se amaram. Enfim, não culpo tanto os meus colegas por isso, afinal, a própria série, em determinado momento, passou a estimular esse tipo de debate. Creio que eu e minha amiga, aos 14 anos de idade, éramos apenas jovens demais para entender isso, e víamos Blair e Serena ao sabor dos nossos olhos: lindíssimas e, ao mesmo tempo, “comuns”. Nós também poderíamos ser como elas – ainda que, vejam que coisa, elas fizessem parte de um mundo de milionários da elite de Manhattan. Por que sentíamos que Blair e Serena eram como nós? Éramos loucas?

Recentemente, perto dos meus 30, reassisti às primeiras temporadas de Gossip girl, só para passar o tempo e reviver personagens tão queridos. Nesses episódios, percebi coisas que não tinha notado aos 14 e nem aos 20, uma vez que eu estava demasiadamente imsersa nos meus próprios problemas.

Acho que eu e minha amiga nos conectávamos com aquelas duas personagens porque o cenário apresentado aborda, em meio a todo aquele glamour insano, problemas reais de garotas extremamente desamparadas. Blair lida com distúrbios alimentares, pressão estética e o desejo de ser reconhecida pela mãe, uma das maiores estilistas do mundo. Serena encara problemas de alcoolismo, mesmo tão jovem, e é uma garota totalmente abandonada à sua sorte pela mãe (que vive imersa nos problemas de socialites) e pelo pai, que nem sabemos quem é. O irmão mais novo de Serena está internado em um hospital psiquiátrico porque tentou cometer suicídio. A garota, que está ainda no Ensino Médio, tenta blindá-lo da abordagem violenta que os paparazzis adotam com a sua família, que é extremamente famosa nos tabloides.

As duas adolescentes se amam e se amparam em meio a este “mundo de louco”. No entanto, esse evidente descontrole iria desaguar em algum lugar: em uma noite, Serena, muito bêbada, beija Nate Archibald, namorado de Blair. Imaginem o que será isso na vida dessas duas garotas, enfiadas até a tampa em um balde de problemas (seus, de suas famílias, de uma vida exposta nas revistas e nos blogs da então emergente internet)!!

Enfim, claro que nada disso tem a ver com o nosso mundo. Somos todos meros mortais diante dessas garotas que são, também, extremamente ricas, mimadas, vaidosas, arrogantes. No entanto, a série trabalha esse contraste com tamanha atenção e, diria eu, até beleza, que nos faz compadecer daquelas jovens (insanas, sim!, mas perdidas).

Os personagens masculinos também reforçam a solidão das garotas. Chuck Bass, amigo em comum de todos esses personagens, é uma bomba-relógio prestes a estourar: é por meio dele que somos apresentados à forma pela qual os garotos lidam com tal desamparo – drogas, jogos de azar, violência sexual. E Nate não dá a mínima para os frufrus da namorada, Blair, pois está imerso em suas próprias questões. Prefere deixar tudo na mão da garota, alegando sempre que ela é quem “manda nele”.


Tagetes
Serena: “A Blair não manda em mim”.
Nate: “Você é nova aqui? A Blair manda em todos nós.”


E, por baixo desses arranha-céus e hotéis de luxo, nosso olhar é guiado pelo de outro garoto: Dan Humpfrey, um habitante do Brooklyn, o “outsider” desse universo. Dan quer ser escritor, seu pai é um ex-músico famoso e dono de uma galeria de arte, sua irmã adora moda. Eles vivem em um apartamento comum, têm uma “vida qualquer” (ao menos quando comparamos com o glamour vizinho). Mas Dan, como todo garoto nessa fase da vida, quer se misturar com seus pares, quer fazer amigos. Nós, espectadores, somos como ele diante daquele mundo luxuoso e totalmente fora de nosso alcance – nós também queremos saber. Por isso que eu digo: a série sabe nos conduzir.

No final das contas, quando penso que escrevo um blog e me sinto “como a gossip girl”, imagino que seja só pela ideia de ter uma página na internet onde as pessoas leem o que eu escrevo. No entanto, tenho pavor de fofocas (não porque eu acredite que lhes falte algum valor “edificante”), mas porque esse tipo de assunto vem sempre acompanhado da moral de quem o transmite. Com todo o respeito, pouco me importa a sua moral!! Queria eu que a fofoca fosse totalmente “desedificante”. Vamos aproveitar a fofoca para desestruturar, junto com ela, algumas coisas sobre nós mesmos, e aí sim conseguiremos conversar sobre os outros de uma maneira que não me tire a paciência. Ao contrário, se a moral “edifica”, a fofoca torna-se extremamente maçante e mero espelho de quem a conta.

Voltando para a fofoca da série: também ela perdeu muito a partir da terceira temporada, porque ficou mais conectada com esse mundo da “edificação”, convidando o espectador a moralizar, do que com a trama das personagens em si. Os romances, os rompimentos, as amizades, as brigas – tudo parece ter sido transformado para que a audiência lesse aquilo como “fofoca”, e não para que os próprios personagens nos deslumbrassem com suas questões e dilemas à la Oscar Wilde: “O homem é menos ele mesmo quando fala em sua própria pessoa. Dê-lhe uma máscara, e ele lhe dirá a verdade”2. Talvez nós – junto com os condutores da série – não soubemos aproveitar a máscara que Gossip girl nos forneceu.

Aproveitando o meu delírio imaginativo, me despeço de vocês da única maneira possível.


XOXO,

Gossip girl


Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.


<Anterior | Próximo>


  1. A própria série explorou muito a relação entre as duas personagens e esses dois ícones da beleza e da moda dos anos 50, seja em episódios que renderam homenagens, seja em toques na personalidade de cada uma das garotas.

  2. Oscar Wilde. The critic as artist. 1891. Essa frase é proferida por Blair Waldorf durante um baile de máscaras da alta sociedade. A série também conta com inúmeras referências literárias, narradas na voz da “garota do blog”, como Fitgzerald (que é extremamente recorrente – eu diria até que a série toda é uma homenagem para o autor de O grande Gatsby), Shakespeare, Jane Austen, Truman Capote, entre outras.