A vida de uma garota de 30 anos

Fofoca homérica: Ilíada, canto I (Parte 2)

Estão animados para o próximo capítulo dessa nossa novela deliciosa? Se preparem, porque hoje vamos dar definição para o embate Agamenon-Aquiles, adentrar em alguns detalhes das relações entre os personagens e traçar alguns paralelos com o filme A Odisseia (2026). Na parte 3, que virá amanhã, vamos ultrapassar a vida dos mortais e atingir as camadas do Olimpo!!

Mas vamos com calma. Primeiro, recapitulando: no capítulo anterior, paramos no ponto da intervenção do Nestor, velho orador de Pilos, em busca de pôr juízo na cabeça de Agamenon, rei dos gregos, e de Aquiles, o melhor dos guerreiros.

Agora, sim! Bora lá!




Evidentemente que as sábias palavras de Nestor não foram ouvidas. Por dois motivos. Primeiro: porque, se elas fossem, não teria história. Segundo: porque os gregos, tão elogiados e conhecidos por uma moral equilibrada, são, no fundo, também um tanto apaixonados pelo desequilíbrio. Há muitos termos em grego e muitos estudos desenvolvidos sobre essa estranha combinação: hýbris, a desmedida, é uma palavra que aparece em quase todo texto épico, trágico, político e ético. Ela é, ao mesmo tempo que temida, algo sempre presente. Além dela, há também o termo agón, que significa luta incessante, sem o qual não compreendemos o teatro grego, os festivais para os deuses e, paradoxalmente, o surgimento da democracia, em Atenas, muitos séculos depois.

Mas isso já é parte da análise, da História, da Arqueologia, da Política. Retornemos para o mais simples: a nossa novela. Talvez vocês notem que de simples ela não tem nada, uma vez que essa história cantada por tanta gente, ao longo de muitos e muitos anos, condensa pontos cruciais dessa cultura. No entanto, acho o máximo como podemos ler esses textos também como mera literatura, pois era assim que eles também eram vividos.




Pois bem, o pobre do Nestor não foi ouvido. Imediatamente após as sábias palavras, Agamenon respondeu:


Tudo o que tu disseste, ó ancião, foi na medida certa.
Mas este homem quer estar sempre acima dos outros;
sobre todos ele quer prevalecer; sobre todos reinar
e a todos dar ordens.1


Não chega a ser hilário o Agamenon falar que o Aquiles quer sempre estar acima dos outros, sobre todos reinar etc. e tal? Eu sempre rio muito dessa passagem. Acho assim uma falta de percepção de si incrível!!

Aquiles, por sua vez, está ali ouvindo tudo e também não se faz de rogado. Afinal, se nem a gente tem sangue de barata, imaginem ele! É com essas palavras que ele se defende:


A outros dá as tuas ordens, mas não penses mandar
em mim. Pois penso nunca mais te obedecer.2


É, minha gente, pensa no que dá reunir uma penca de reis e nobres em um só lugar!

Agora, nem só em relação ao mando e à obediência essa luta se dá. Vocês se lembram que, em meio a essa disputa, havia a questão de Criseida e Briseida, as duas mulheres tratadas como “prêmio de guerra”, sim?

Pois, então: o que foi feito disso? Aquiles afirma, logo depois de tratar da questão da desobediência, que


com as mãos não lutarei eu por causa da donzela,
contigo ou com outro, visto que me tirais o que me destes.
Mas dos outros haveres junto à minha escura nau veloz,
desses nada levarás contra a minha vontade.3




Pausa para um breve comentário.

Aqui, logo após Aquiles enunciar essas palavras e a assembleia ser finalizada, aparece, pela primeira vez na Ilíada, Pátroclo, o famoso companheiro de Aquiles. É sabido que os gregos encaravam as relações entre homens de uma maneira muito diferente do que hoje nós as encaramos. Simplificando muito, podemos dizer que a relação sexual entre homens era algo extremamente comum, uma vez que as mulheres não eram vistas como iguais aos homens em estatuto social ou político.

Sendo assim, a relação entre homens se dava com base na amizade, porque somente ali poderia haver igualdade. A amizade é outro conceito ético, político e filosófico que atravessa a Grécia desde antes de ser Grécia, e que culmina, também, na emergência da democracia e da Filosofia (filósofo, em grego, é o termo que significa nada mais nada menos que “amigo da sabedoria”). A ideia do que é ser um amigo é, portanto, algo debatido intensamente, e tal debate constitui aquela sociedade e a individualidade de cada um.

É dessa relação entre Aquiles e Pátroclo, sobre a qual não é muito bem especificada a natureza (ou, ao menos, podemos dizer que o seu significado é de difícil tradução para os nossos termos), que surge uma das primeiras fanfics gays da História (É sério, gente! Homero é o primeiro shipper)4.

Fim do breve comentário.




Enfim, nessa passagem final entre a disputa dos dois nobres, Aquiles praticamente sai da assembleia pensando: eu, hein? Vou ficar aqui nada! Pego minhas coisas e vou-me embora. Eis que ele é seguido, conforme Homero mesmo indica, por Pátroclo e seus outros companheiros5.

Então, o que ficou decidido, no fim das contas? Nada do que queria o velho Nestor!

  1. Criseida será devolvida para Crises para que Apolo deixe de ficar zangado com os gregos. Junto com a devolução de Criseida, os gregos farão uma hecatombe, um sacrifício de cem animais, para Apolo, visando aplacar de vez o seu humor. Odisseu (sim, o mesmo Odisseu do filme do Christopher Nolan!!) ficaria encarregado dessa tarefa.

  2. Briseida será transferida de Aquiles para Agamenon, uma vez que o rei de Micenas abriria mão de Criseida.




Agamenon envia dois soldados à tenda de Aquiles para tomar Briseida para si. Ameaça: “se ele não a entregar a vós, eu próprio irei buscá-la, acompanhado de muitos outros; o que para ele será ainda pior”6.

Os dois soldados caminharam contrariados rumo à parte do acampamento que abrigava os Mirmidões, soldados de Ftia comandados por Aquiles. Aquiles, conhecido por todos por ser esquentadinho, estava, ao contrário do que era esperado, muito tranquilo em sua resolução. Disse aos dois soldados para não se preocuparem, uma vez que a culpa daquilo não era deles, mas de Agamenon. Mandou Pátroclo trazer Briseida, e deixou que os soldados a levassem7.

Depois de feita a transação, Aquiles foi se sentar longe dos companheiros, na praia, junto ao mar. E lá começou a chorar e a pedir pela ajuda de sua mãe, Tétis, uma nereida (ninfa do mar). Se lembram do capítulo anterior, quando Atena o aconselhou e Aquiles disse que a obedeceria para manter um canal aberto com os deuses? Pois é! Não tardou para que ele fizesse os seus pedidos.

Contou para a mãe-deusa todo o ocorrido, e se compadeceu de si mesmo. Pediu para ela: se você me ama, convença Zeus, o deus mais poderoso, a dar uma lição nos gregos! Agarre-o pelos joelhos e lhe peça para que fortaleça os troianos, para que os gregos fiquem encurralados no campo de batalha! Somente assim todos reconhecerão o quanto Agamenon foi louco por ter desonrado o melhor dos aqueus8.

Tétis, mãe de menino, era toda ouvidos para os lamentos do filho. Mas também porque não era inocente nessa história! Ela mesma tinha revelado para Aquiles os seus dois destinos. O primeiro: seria um grande guerreiro lembrado para todo o sempre, mas teria que morrer muito jovem. O segundo: seria um homem comum e viveria por muito tempo. Como Aquiles era fruto de uma relação de Tétis com um mortal (o rei Peleu, de Ftia), ele estava fadado a morrer. Não poderia ser imortal como a mãe. Deveria escolher, portanto, como desejava morrer. E, como podemos deduzir diante desse cenário em que estamos, escolheu se tornar um grande guerreiro já sabendo que sua vida seria curta. Diante dessa morte precoce, Tétis queria fazer da vida de seu filho, mesmo que curta, uma vida boa.

Por fim, Aquiles lembra à mãe o seguinte acontecimento: certa vez, Hera, Posêidon e Atena se uniram contra Zeus lá no Olimpo e quiseram o acorrentar. Zeus só foi capaz de se salvar com a ajuda de Tétis. Ele tá te devendo uma, mãe!! Vai cobrar!




Enquanto isso, no outro núcleo da novela, Odisseu seguia rumo à sua missão: devolver Criseida para o pai e realizar o sacrifício para Apolo. E por que justamente Odisseu foi encarregado de tal tarefa? Enquanto um dos epítetos de Aquiles é “melhor dos gregos”, Odisseu é conhecido por ser “de mil ardis”. Ou seja, o bicho é cheio de astúcia, malícia, daquele jogo de cintura que só os malandros têm.

Eu gosto muito dessa passagem no primeiro canto, porque mostra, desde cara, de que maneira Odisseu está comprometido com essa guerra. Pois eu bem sei que, no filme A Odisseia, de Nolan, pode ter ficado uma leve impressão de que Odisseu se “arrependeu” de seus atos ou até mesmo de que ele “não participou” de fato da guerra, uma vez que, nas filmagens de Tróia invadida, o personagem interpretado por Matt Damon quase se exime de pegar em armas, como se estivesse confuso com aquela situação. Pois eu digo para vocês que Odisseu esteve enfiado nessa história até o talo, minha gente! E, aqui, logo nesse primeiro canto, onde vamos sendo apresentados a tão grandiosos personagens, vamos conhecendo também as suas disposições.

Então, Agamenon pensou bem. É preciso guiar as naus para levar uma jovem mulher de volta para o território inimigo? Melhor deixar isso com Odisseu!

E foi assim que Odisseu foi parar nessa missão. Encaminhou Criseida de volta a Crises, seu pai, se desculpou com o inimigo em nome de Agamenon e fez o sacrifício de cem animais para Apolo. Feito o sacrifício, comemorou com os rivais em um banquete com muita comida e bebida. Cantou, junto com os rivais, para Apolo, até anoitecer. De noite, dormiu junto às naus gregas, e regressou para o acampamento no despontar da Aurora, deusa de róseos dedos, com o vento soprando a seu favor, graças à ajuda de Febo Apolo.

Odisseu afastara, com a sua astúcia, com o seu saber lidar com o inimigo, com a sua comida, a sua cantoria e a sua embriaguez, a praga do acampamento grego.



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  1. Homero. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013. Canto I, v. 285-289.

  2. Op cit. v. 295-296.

  3. Op. cit. v. 298-302.

  4. Para quem quiser saber mais sobre essa fofoca à parte, super indico o livro da Madeline Meier, A canção de Aquiles. Não é uma coisa assim extremamente fiel à Ilíada, mas tem uma linguagem muito acessível e faz com que a gente ganhe certa familiaridade com vários personagens.

  5. Op. cit. v. 307.

  6. Op. cit. v. 324.

  7. Op. cit. v. 335-345.

  8. Aqui, novamente o termo “aqueus” é empregado como sinônimo de grego. Nesse caso, Aquiles se autoproclama como “o melhor dos gregos”. Pode soar como uma vaidade, mas esse é, na verdade, um epíteto (atributo, palavra que se torna quase que um sinônimo do termo) empregado por Homero para falar de Aquiles em incontáveis passagens. É o melhor dos gregos porque é o melhor em combate.