Quebrando promessas
Sei que prometi que não ia mais escrever aqui no blog às segundas-feiras. E também que prometi que ia respondê-los por e-mail e no Guestbook toda segunda. Mas essa é uma segunda excepcional, e toda regra (via de regra) possui as suas exceções. Afinal, a política também não se faz quebrando promessas?
Por favor, não considerem isso um texto de análise 100% séria e comprometida. Afinal, estamos todos aqui, como vocês já sabem, numa página chamada sem domínio. Estes são apenas os primeiros pensamentos que tive desde a tarde de ontem e o fim da contagem dos votos. São flechas de pensamentos dispersos, inconclusivos, pululantes. Achei de bom tom comigo mesma escrevê-los, uma vez que este blog também serve, entre outras coisas, para me livrar dos pensamentos que insistem em ficar na minha cabeça.
No geral e na lata
Em um panorama geral, o cenário é desolador. Muitos candidatos da extrema-direita foram eleitos governadores e senadores. Eles dominaram a cena. A disputa para a presidência, apesar de apertada, garante vantagem para Flávio Bolsonaro, candidato escolhido a dedo por Jair Bolsonaro, uma vez que, como ele mesmo diz, não é possível confiar em ninguém a não ser nos próprios filhos. Nem em Tarcísio Freitas, candidato que levou o governo de São Paulo com larga folga em cima de Haddad, se elegendo já no primeiro turno, Jair confiava. Tinha receio que este herdeiro “bastardo” não honrasse a sua agenda como seus filhos de sangue o fariam. Talvez tivesse razão. E, assim, Flávio, se eleito, prosseguirá com a busca pela soltura do pai e a prisão de inimigos.
Da perspectiva da esquerda e da centro-esquerda, salta aos olhos os quadros famosos que não foram eleitos: Gleisi Hoffman, Marina Silva, Manuela d'Ávila e a recém adotada Simone Tebet, João Campos, Patrus Ananias e Randolfe Rodrigues. Elegeram-se, no entanto, os “políticos influencers”, que se tornaram talvez até mais famosos que estes quadros que listei acima, como Erika Hilton e Jones Manoel.
E agora? De onde Lula irá tirar votos diante de uma derrota que parece acachapante e de um eleitorado que parece convicto?
Abstenções...
Mais uma vez, a soma de votos nulos, brancos e de abstenções bateu recorde. Mais de 33 milhões de pessoas preferiram seguir Bartleby, personagem do glorioso Herman Melville, e afirmaram: eu preferiria não fazê-lo (I prefer not to).
Do ponto de vista da política eleitoral, talvez tenha chão para buscar.
Mas eu te pergunto, meu caro leitor, o que te convence mais (porque, nessa nossa política, o que importa é convencer)? Um discurso à esquerda que te condena por não ter consciência ao não votar e te culpa pelo fracasso dela própria ou um discurso à direita que diz entender a sua dor e que, se você votar, tudo vai ser diferente porque o candidato X trará, em embrulho de presente, todos os milagres com os quais você sempre sonhou?
Do ponto de vista de uma política não eleitoral: o que pode significar tamanha abstenção? Se incluirmos esses não-votos na conta: Flávio e Lula caem, cada um, para cerca de 35% dos votos da sociedade brasileira. Cerca de 5% fica para os outros candidatos. E cerca de 25% da sociedade brasileira não votou em nenhum candidato. O que isso poderia dizer sobre nós?...
São Paulo
Não posso deixar de falar da minha querida São Paulo, que elegeu Tarcísio Freitas em um primeiro turno nada acirrado contra o candidato do PT, Fernando Haddad. Dessa vez, o candidato à direita ganhou até na capital, o que não é de costume, uma vez que aqui somos vistos como a ala mais “progressista” do estado. Mas vocês sabem que já não é de hoje que reclamo aqui que São Paulo tem se tornado, a cada dia, uma cidade mais desalmada.
No imaginário, São Paulo sempre foi a cidade do sonho, o lugar onde as coisas se realizam, a cidade que abarca todos os saltimbancos, os imigrantes, os amantes das artes, os atores, os de fora. Somos, como a Roma antiga, uma capital formada pelos estrangeiros. Sempre fomos o outro.
Mas, agora, tudo aqui parece se uniformizar em torno do sonho individual do sucesso, e nem sequer os nossos jovens querem ter algo na vida a não ser esse grande sucesso individual. Não é pecado sonhar com uma mudança de vida, com um punhado de dinheiro, com uma casa própria, comida no prato, lazer e cultura — é claro que não. No entanto, o sonho individual do sucesso ao qual me refiro tem pouco a ver com isso. Os nossos jovens querem ser milionários para sequer saberem para o que serve o dinheiro. É esse o sonho do jovem médio na capital e, talvez, no país. É o que nos restou depois de encher de impedimentos as ruas, as praças, as esquinas.
Em São Paulo, ninguém mais sai à noite como saía antes. Não há boates, bares, festinhas, festões. Nem mesmo nas universidades. Não há caminhadas noturnas e até a região da barulhenta Avenida Paulista é, durante a noite, silenciosa. Agora, as mesmas festas que faziam os jovens pularem as grades de portões madrugada a dentro foram todas privatizadas. Precisa de documento e pulseira de identificação.
Os carnavais são organizados e policiados por grades oficiais das instituições competentes. Os shows se tornaram todos festivais em lugares de difícil acesso, onde se gasta um salário mínimo para “viver uma experiência”. Os jogos de futebol se tornaram espetáculos de arenas modernas, e ninguém mais vai ao estádio para comer uma pipoquinha e curtir um final de semana de sol.
Tudo aqui deve ser avisado com antecedência, organizado, policiado. Tudo é mercado imobiliário para que os jovens garantam o seu sucesso individual vivendo em um apartamento de 15m² que custou um milhão e meio. Isso é São Paulo. Adivinhem qual é o seu candidato.
E a bola?
E como não poderia faltar, fiquei me perguntando durante todos esses dias se o Carlo Ancelotti está vendo o mesmo jogo que eu. Se ele está ali de carne e osso acompanhando esses jogadores da seleção e pensando que esse é o melhor dos mundos. Mas o que eu mesma não prestei atenção é que talvez Ancelotti tenha visto o Brasil melhor do que eu.
Talvez ele tenha percebido que nós não temos um time, nós temos estrelas. Estrelas individuais que brilham individualmente nos times europeus e mundo afora. Temos estrelas que são capazes de fazer delirar a Índia, país que sempre torceu por nós nas Copas do Mundo por falta de uma representação própria. Temos estrelas que vão desfilar nas coletivas de imprensa em qualquer lugar do planeta e que carregam, onde quer que vão, muito, mas muito dinheiro. Mas time, time mesmo, não temos. Porque time mesmo se faz com troca de passes, inteligência coletiva, organização em campo e, de vez em quando, rompantes de genialidade individual. No time, todo mundo é igual e busca o seu lugar ao sol carregando junto os que estão ao lado.
Todo mundo no Brasil conhece o ditado: uma andorinha só não faz verão. E, mesmo assim, sonhamos todos em nos tornar “a mais bem-sucedida andorinha”, quando poderíamos, em vez disso... viver o mais esplendoroso verão.

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