Quem inventou o zero?
Hoje de manhã fui ao hospital vinculado a Universidade de São Paulo para fazer meus exames de sangue, como de costume nos últimos anos. Percorro os mesmos corredores, apresento os mesmos documentos, já reconheço quase todos os funcionários. Alguns, que também me reconhecem, me cumprimentam. Estou em jejum e com uma urgência moderada para comer alguma coisa. Mas isso não é nada que eu já não esteja acostumada. Ensaiei e vivi isso durante os últimos anos para manter uma rotina de cuidados necessários.
Ouço uma das enfermeiras que fazem os exames comentar com as demais que está com 59 de ferro e 3 milhões e não sei quantos de alguma outra coisa que agora não me recordo. Ela diz que acha que está com anemia. O relógio não marcava nem 8h da manhã e ela já queria ir embora. A outra dá risada e questiona: como assim já quer ir embora? Ah não! Aparece uma terceira, que diz que a primeira nem queria ter vindo para o trabalho hoje. Ao que tudo indica, a primeira se aposentará nesta semana e todas elas planejam uma festa de despedida. Na quinta-feira, a que suspeita estar com anemia irá enrolar os brigadeiros.
É ela mesma quem me chama pelo nome completo para o espaço que fica atrás das portas de dobrar de plástico. Ela iniciará meus exames e solicita que eu diga em voz alta o meu nome completo e a data de nascimento. Confere todos os sete pequenos elementos cilíndricos duas vezes, uma na entrada e outra na saída, dizendo o meu nome completo em voz alta ao olhar fixamente para cada um dos tubos. Penso: quantas vezes estes tubos devem ter sido trocados para que tenham adotado este tipo de protocolo? Repetir o nome completo do paciente em voz alta para cada tubo me parece um tanto exagerado. Ou será que eu penso isso porque sempre que vou fazer este tipo de exame são tantos e tantos tubos? E, justamente por isso, tenho tempo de reparar nesse tipo de coisa... No entanto, não deixa de ser um momento enfadonho até para quem não tem por costume passar por esse tipo de sabatina.
Além do diálogo exigido pela situação e das cortesias formais, a enfermeira não troca quase nenhuma palavra comigo durante todo o processo. Penso que ela pode mesmo estar com anemia. Os níveis de ferro baixos fazem com que a gente não queira jogar conversa fora. Tudo parece um esforço excessivo e, justamente por isso, desnecessário. Também permaneço em silêncio e volto o meu rosto para o lado oposto do meu braço, que agora está estendido sobre a braçadeira para coleta e espera pela agulha. Um senhor baixinho, de cabelos e barba brancos e um tanto gordo, como um papaizinho Noel, se levanta de sua cadeira, na sala comum de espera, e me olha através do espaço deixado pela porta sanfonada. Sustentamos a troca de olhares por alguns segundos, mas ele logo se vira de costas e se senta novamente na sua cadeira de origem. Quando eu era mais nova, adorava ver o sangue subir pelo canudinho enrolado e entrar nos tubos de coleta. Ficava vidrada observando o meu próprio braço, que em poucos minutos seria perfurado. Não sentia nenhuma espécie de repulsa por isso. Ao contrário, sentia certo prazer. Agora viro sempre o rosto, mesmo que não sinta nenhuma espécie de dor particular – ou seja, não sou daquelas que tem fobia de agulhas ou que não gosta especialmente de passar por esse tipo de exame. Mesmo assim, viro o rosto. E encaro aquele papaizinho Noel, talvez para “sentir menos” minha pele sendo perfurada uma vez que não estou olhando para o meu braço. Bobagem.
Feita a coleta, me levanto, visto meus casacos, pois faz frio nessa época do ano. Me despeço alegremente dos funcionários, dos recepcionistas, daqueles que conheço e também daqueles que desconheço. Pego o meu papel escrito kit-lanche e me encaminho para a cafeteria que fornece tanto esse tipo de refeição quanto refeições pagas. Desde a sua inauguração, esta cafeteria tem um aspecto sujo, de desordem, parece sempre de recém-aberta e nunca arrumada. Nunca estive lá em um horário em que seu visual estivesse impecável, pronta para receber os clientes e os famintos de jejum. Já perdi as contas de quantas vezes me alimentei naquele local e observei as mesmas bandejas com migalhas de pão, a mesma travessa de ovos e frios servida como se o que estivesse ali fosse só o resto, aquelas máquinas de café quebradas que mantêm funcionando apenas algumas opções.
Outra coisa que garante o visual imperfeito da cafeteria é a iluminação. O salão é, mesmo com inúmeras lâmpadas, um lugar escuro. E muitas dessas lâmpadas piscam sem parar, ininterruptamente, sem que ninguém pareça notar. Algumas das pessoas se alimentam de seus kit-lanches debaixo daquelas lâmpadas piscantes, escolhendo especificamente aqueles locais, e mantêm suas conversas e seus semblantes sem apresentar qualquer incômodo específico sobre tal situação. Essas lâmpadas me enervam.
Infelizmente, me sentei ao lado de uma delas. Não me recordo se não notei que ela estava falhando ou se ela possuía certa estabilidade e passou a piscar depois de um tempo. O fato é que só percebi depois que abri meu livro para ler alguns poemas de Wisława Szymborska. Queria finalizar o livro Sal, que está dentro do volume Para o meu coração num domingo. Gosto que Szymborska intercala reflexões sobre coisas que estão em contato direto com ela com mitos, história antiga, questões da física e da matemática. Em um ou dois versos, vamos dos eleitos dos deuses que morrem cedo, de Diógenes e Cassandra, da Matéria e do Universo diretamente para as formigas reunidas sob um dente de leão, a tenebrosa traição de si que praticamos em nome de uma aparência nos encontros com os outros, rãs, ervilhas, a nossa própria sombra.
E sob aquela luz cambaleante leio, entre outros, “Poema em homenagem” e deixo que a pergunta elaborada pela autora entre na minha cabeça: quem inventou o zero? De acordo com Szymborska, aparentemente o dono deste feito é um cara extremamente comum, dissolvido na história em qualquer lugar, não sabemos exatamente quando.
Em um país incerto. Sob uma estrela
hoje talvez escura. Entre datas
sobre as quais ninguém irá jurar. Sem nome,
mesmo que controverso.
Saí daquele ambiente piscante e me sentar do de fora da lanchonete, em um pátio fechado tremendamente arranjado, com bancos e móveis que parecem estar ali por coincidência. O frio era compensado pela luminosidade mais natural, se é que podemos chamar assim. Então fiquei com essa coisa de quem inventou o zero na cabeça. Em breve pesquisa, descobri que o zero tem muitas funções matemáticas e filosóficas e, portanto, sua descoberta é dividida entre os vários povos que identificaram seus diversos usos. Os babilônios inventaram o símbolo para marcar a diferença entre 11 e 101, por exemplo. Os gregos compreenderam e elaboraram o conceito filosófico do zero. Os indianos o utilizaram como número de pleno direito1.
É extraordinário pensar nesse primeiro uso feito na Babilônia: o zero enquanto algo que apenas demarcava um espaço em branco. 101 poderia ser escrito 1_1, 1e1, 1*1 etc. O zero apenas demarca um espaço vazio. E, após um período com essa ideia fervilhando na minha cabeça, enquanto caminhava de volta para casa entre pessoas doentes e debilitadas que visitavam aquele complexo de hospital público, pensei em como é ridícula a ideia de bilhões de reais (os bilhões marcados justamente por tantos zeros que às vezes nem sabemos quantos). O hospital público do Estado, que tem bilhões de reais em seus cofres, não é capaz de ajustar algumas lâmpadas piscantes em um refeitório onde pessoas comem kit-lanche depois de fazer um exame de sangue. Desde que a lanchonete foi inaugurada aquelas luzes piscam. Eu estive lá. Estive no antigo refeitório e no novo refeitório, após a reforma. E as luzes sempre piscam. Há anos. De que servem todos esses zeros nos cofres? O zero babilônico me parece muito mais útil, pois apenas demarca uma diferença por meio da inserção de um “vazio”.
Isso me levou a pensar em algo que ando acompanhando no noticiário e que tem uma relação tangencial com o assunto. Há um mês estudantes estão em greve na Universidade de São Paulo. Funcionários já fizeram a sua paralisação exigindo melhorias para a categoria. Agora, professores aderiram à greve em apoio às pautas estudantis, principalmente depois da Polícia Militar ter praticado ações violentas contra os ocupantes do prédio da reitoria2. Entre as reivindicações estudantis estão o aumento do valor de bolsa auxílio e dezenas de questões de infraestrutura (bem parecidas com o pueril conserto das luzes piscantes da lanchonete citada alguns parágrafos acima). O cotidiano da Universidade está permeado por mofo nas paredes, canos e metais quebrados e enferrujados, paredes sujas, vazamento de gás, refeitórios comunitários sem luz, com pequenos cacos de vidro e larvas na comida etc. É preciso um grande esforço para que um local habitado diariamente chegue nessas condições. Seria um esforço bilionário?
Esbarramos quase diariamente com esta palavra: “bilhões”. De manhã, ao abrir as primeiras notícias ainda na cama, lá está ela. No caminho para algum lugar, dentro do ônibus, quando escutamos alguém dizer que tem o sonho de ser bilionário. Lá está ela. Na sala de espera do consultório médico, quando alguém assiste, em um volume elevado, a algum vídeo qualquer em que um influencer dá dicas de como se tornar bilionário. Novamente, ali encontramos com ela. Os desvios, as fraudes, os investimentos, os cofres, os orçamentos são bilionários!! O bilionário que é dono do espaço, da loja que vende de tudo on-line, dos produtos de plástico que abriga em seus enormes galpões que viajam o mundo todo e vendem como água. Que vida é essa?
Sustentamos quase diariamente no interior de nossas cabeças a ideia de que vivemos em um mundo de bilionários. E quantas e quantas misérias são necessárias para que se faça um bilionário? Quantas e quantas lâmpadas tremeluzentes sustentam esses edifícios de nada? Isso mesmo. De nada. Porque, em algum momento em toda essa ladainha, devemos nos perguntar também exatamente com o que um bilionário gasta os seus bilhões. Com nada. Ele os guarda, para que os bilhões continuem se autorreproduzindo em pequenos, mas aos montes, milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares, milhões etc etc.
E custa quanto para ter uma vida digna?
É para sustentar todos esses bilhões no interior de nossas cabeças que também pensamos ser um absurdo um cidadão comum ter uma refeição completa, com todos os ingredientes e vitaminas necessárias para que seu corpo se mantenha saudável. Imaginamos ser inconcebível que uma pessoa qualquer vá para um parque e respire ar puro no meio de uma tarde qualquer da semana. É impossível, dizemos, que qualquer pessoa possa estudar em sua plenitude, com tempo, tranquilidade, materiais adequados e em locais públicos adequados para tais fins. Chega a ser ridículo imaginar alguém que não queira passar todos os dias de sua vida trabalhando ou pensando em como ganhar dinheiro para que um dia se torne um milionário (bilionário somente aqueles muito especiais). Não queremos saúde, queremos que todos tenham uma vida média. E uma vida média contempla x% de doença, y% de deficiência de vitaminas, z% de afetados por determinada mazela social. Isso tudo está no cálculo dos bilhões.
Ah, Szymborska! Queria eu estar diante daquele que inventou o zero, aquele que “não deixou abaixo do seu zero nenhuma máxima sobre a vida” só para poder lhe sussurrar: deixe como está... deixe como está.
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Al-Khalili, Jim. Quem inventou o zero? Crônica: física divertida. Sociedade Portuguesa de Física. Gazeta de Física, vol. 32, nº 1. Fonte: https://www.spf.pt/magazines/GFIS/65/article/356/pdf.↩
Esta parte me emociona porque na minha vida é raro ver professores aderindo a greves estudantis.↩