Mestre da simplicidade
Dia desses tive um pesadelo estranhíssimo. O tema é meio clichê: estava ainda nos meus tempos de colégio e tinha decidido matar aula. Como uma punição divina, descobri que justo a aula que eu resolvi faltar era uma revisão para a prova de Literatura do dia seguinte, que eu nem sabia que existia. Pois então: a aula de revisão era para recontar toda a história do livro S. Bernardo, de Graciliano Ramos. Ia cair tudo na prova. Saí andando pelas ruas desvairada, emputecida comigo mesma: como pude me esquecer da prova e faltar justo na aula em que o professor ia contar tudo do livro? Para piorar, é claro que eu não tinha lido nada. Telefonei para uma amiga pedindo para que ela me contasse toda a história do livro e me desse recomendações de resumos rápidos. A coitada não entendia o motivo do meu desespero.
Acordei. Atordoada com toda essa história sobre o livro. Fui pesquisar na internet uma breve sinopse, para ter ideia do que se trata. Nunca li esse livro, queria entender que raios ele foi fazer no meu sonho. Eis que a sinopse me informa o seguinte:
S. Bernardo é o relato de um homem ambicioso e o retrato da desigualdade econômica e social de um país onde a posse de terra é sinônimo de poder absoluto.
A princípio, muito interessante, mas nada que me diz respeito. Segui alguns momentos incólume, achando que esse delírio sairia da minha cabeça em breve. Mas me peguei, de repente, pensando no meu projeto de pesquisa, que, de certa forma, aborda o uso do termo “caipira” para denominar uma categoria cultural do interior paulista. O livro de Graciliano Ramos é sobre o sertanejo, outro tipo brasileiro. No entanto, os elementos se tangenciam: a vida em torno da terra, o poder irrefreável dos “donos de tudo”, a pobreza dos trabalhadores braçais, a criação de uma forma de ser e de uma forma de fazer arte a partir dessas condições – as raízes desse Brasil, erguido e delimitado à base de suor do povo, sim, mas também transformado em arte por esse mesmo povo. Fiquei com aquilo na cabeça. Achei que o sonho estava me mandando ler o livro. Comprei. Não consegui mais desgrudar. Que delícia de texto, que riqueza de perspectiva! Não fala sobre o meu almejado caipira, mas certamente não é de se jogar fora. As coisas, com o tempo, se encaixam. E, quando lemos com prazer, se encontram mais facilmente.
O que achei muito interessante nesse livro são as semelhanças entre a vida de Graciliano Ramos e a própria história contada neste que é o seu segundo romance, finalizado em 1932. Aqui vão alguns elementos que eu destaco.
1.
Tanto Graciliano como Paulo Honório, o protagonista do romance, tem uma relação muito específica com a cidade de Viçosa, em Alagoas. Graciliano Ramos nasceu na cidade de Quebrângulo (AL) em 1892. Em 1895, se mudou, com a família, para Buíque, em Pernambuco. Quatro anos depois, voltou para Alagoas, para viver em Viçosa até 1914. Paulo Honório, na sua juventude, viveu por um tempo em outros lugares e, quando decidiu fixar moradia, também foi em Viçosa1.
Mas Graciliano concebeu Paulo Honório e toda a história da fazenda de S. Bernardo em outro lugar. Em 1924, nas suas próprias palavras, encontrou “dificuldade séria” em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas: “pus-me a ver inimigos em toda a parte e desejei suicidar-me. Realmente julgo que me suicidei”2. E foi ali, naquele momento, que o personagem de Paulo Honório e uma história que logo ficou esquecida. A vida seguiu. Tudo ficou bem.
Quis o destino que, em 1932, depois de complicações políticas, Graciliano Ramos voltasse a Palmeira dos Índios, já com vários filhos. Eis que, então, a história de Paulo Honório voltou à sua cabeça, e, nesse ano, escreveu oficialmente o livro S. Bernardo que conhecemos hoje.
2.
Diz Graciliano que tirou de seu pai algumas das características para escrever Paulo Honório. Essa explicação de sua vida pessoal foi dada em texto sobre o personagem, escrito em 1946, em que o descreve como sujeito “cascudo e grosseiro”. Se vocês me perguntarem se o pai do escritor alagoano era assim, não saberei responder. Não acho nem que o próprio filho o via dessa maneira, pois lamenta que aquele sujeito que o visitava carrancudo e largava monossílabos aos pés da porta não tenha visto a sua obra realizada. Morreu antes do livro ser finalizado. Também não acredito que Graciliano tenha espelhado totalmente o seu pai no personagem, mas apenas recolhido de sua matéria-prima alguns elementos de composição: “A carranca e fragmentos de velhas narrações dele combinaram-se na edificação de Paulo Honório”3.
3.
O personagem Padilha, um herdeiro muito jovem que acaba se tornando maltrapilho no desenrolar das relações com Paulo Honório, funda o jornal Correio de Viçosa, que durou apenas 4 números. Aos 14 anos, o jovem escritor Graciliano se envolveu na criação de um periódico chamado Echo Viçoense, encerrado após a publicação de 2 números. Padilha, assim como o autor que o criou, escreviam para outros jornais assinando com pseudônimos4.
4.
Graciliano foi acometido por uma febre e, nesse mesmo dia, escreveu o capítulo 19 de S. Bernardo. Ele mesmo diz que esse trecho é fruto de uma confusão, mas que, mesmo assim, quis mantê-lo no livro. Até o momento, li até o capítulo 19 e posso assinar embaixo: gera mesmo um estranhamento para o leitor. É ali que vemos as coisas começarem a desandar, não na narrativa da história, mas no interior do próprio Paulo Honório. Ele se torna um ser sombrio.
Depois da febre, ficou de cama por 3 ou 4 meses, viajou para Maceió para fazer exames e acabou internado no hospital com um tubo de borracha atravessando a sua barriga por 40 dias. Foi operado. Ele escreve sobre a experiência com a sabedoria do sertanejo e do intelectual: “delírios úteis na fabricação de um romance e de alguns contos, convalescença morosa”5.
5.
E o que exatamente torna Paulo Honório sombrio no capítulo 19? A mesma coisa que tornou o próprio Graciliano sombrio, em 1924, quando “suicidou-se”. Transcrevo, primeiro, Graciliano. Depois, “Paulo Honório”.
Naquele inverno de 1924, numa casa triste do Pinga-Fogo, sentado à mesa da sala de jantar, fumando, bebendo café, ouvindo a arenga dos sapos, o mugido dos bois nos currais próximos e os pingos das goteiras, enchi noites de insônia e isolamento a compor uma narrativa. Surgiu um sujeito criminoso, resumo de certos proprietários rijos existentes no Nordeste. Diálogo chinfrim, sintaxe disciplinada, arrumação lastimosa. Felizmente essas folhas desapareceram. [...] Aventuro-me a dizer que o suicídio se tenha de fato realizado.6
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.7
6.
Curiosidade extra: enquanto Vidas Secas (1938) tem a famosa cachorra Baleia, S. Bernardo tem um cão chamado tubarão. Estaria o autor preparando terreno para alçar voos mais altos, seis anos depois?
Graciliano fez do seu ambiente e do que a vida lhe ofereceu fonte para o seu trabalho intelectual e artístico. Buscou nos seus irmãos e cunhados, “gente matuta”, a língua e as imagens rurais que fizeram nascer esse romance que nos lança, desde as primeiras linhas, na vida do interior nordestino. Usou e abusou das antigas expressões portuguesas que eram presentes no Nordeste e também de suas próprias convicções para produzir tal tipo de escrita. Se Azevedo Gondim, personagem vinculado à diretoria do jornal Cruzeiro, diz que “um artista não pode escrever como fala” (“Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.”), Graciliano acredita que é possível escrever de forma direta, explícita, popular. Mas, ao contrário do que pode parecer, ninguém realiza tal proeza sem esforço: “esforcei-me em demasia para conseguir simplicidade”8.
— Vá para o inferno, Gondim! Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!9
É mesmo o mestre da simplicidade.
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Graciliano Ramos. S. Bernardo. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2024. Pp. 1 e 23.↩
Op. cit. p. 8.↩
Op. cit. p. 9.↩
Op. cit. p. 1, 26 e 52.↩
Op. cit. p. 9. Aqui, pressinto que essa indicação de Graciliano me permite imaginar que ele apenas recortou aspectos de seu pai para construir Paulo Honório, e não espelhou. Isso porque o autor parece demonstrar certa vontade de captar da vida combustível que será utilizado em outro lugar, com contornos que ele mesmo dará, de acordo com o que lhe for útil.↩
Op. cit. p. 8.↩
Op. cit. p. 98.↩
Op. cit. p. 10 e 15.↩
Op. cit. p. 14. Aqui, seria o tenebroso Paulo Honório a xingar Gondim, ou as próprias convicções de Graciliano Ramos que lhe sustentaram tamanha desenvoltura no xingamento?↩