A vida de uma garota de 30 anos

Não consigo parar de escrever. Por favor, não me ajude.

Todos os dias acordo pensando que não vou ter assunto para abordar aqui no blog. Afinal, o que é que aconteceu de tão “demais” na minha vida de ontem para hoje? Sei que é cedo demais para falar que estabeleci uma rotina em torno disso, mas percebo que meus últimos dias foram assim: acordo, faço as primeiras necessidades e, de repente, me pego elaborando na minha cabeça tudo que eu quero escrever. Ligo o computador. Abro uma página do Word e começo a digitar sem parar. Me impressiono ao verificar com meus próprios olhos que escrevo facilmente quase 4 páginas em um só fôlego. E deixo que a coisa me consuma. Me levanto, faço algumas pausas, cumpro outras tarefas do meu dia. Volto no texto, dou uma leve revisada, salpico-o com todos aqueles pitacos que eu adoro dar. Até hoje não precisei alterar bruscamente a estrutura original, mas ajusto algumas pequenas medidas, apago alguns excessos, reescrevo alguns trechos para dar ênfase em determinado aspecto. E, depois, publico.

Nesses últimos dias, desde que criei o blog no dia 24 de maio, notei que tenho uma máquina infinita de produzir pensamentos dentro da minha cabeça. Seria a sua voracidade alimentada pela ausência de um interlocutor? Ou será que o fato de eu ser tagarela, ainda quando sozinha, me faz despejar palavras aos montes nesse teclado de notebook? (Notei também que mesmo que eu tenha um monitor e um teclado que conecto ao notebook quando trabalho, prefiro escrever os posts do blog diretamente no teclado do notebook. Justamente aquele que eu pensava ser o mais desconfortável... vai entender.)

Não é como se eu nunca pensasse em algo sério ou não fosse uma pessoa estudiosa, mas nos meus últimos anos de vida tive a sensação de ter poucos pensamentos dentro da cabeça. Na realidade, eu diria que era capaz de ficar sem pensar. Ou ao menos ficar sem pensar em qualquer coisa que fosse importante. Digo isso no seguinte sentido: se algum amigo me parasse na rua enquanto eu estava andando e solicitasse que eu dissesse imediatamente no que eu estava pensando, eu não saberia responder. Talvez coisas muito banais, como o formato dos padrões de ladrilho da calçada, a letra da música que eu estava escutando nos fones de ouvido, o porteiro que acabei de cumprimentar. Fiquei muito impressionada quando descobri que há pessoas que pensam em coisas muito sérias e importantes sobre si mesmas quase sem parar, durante o dia inteiro. Elas ficam em um diálogo interno, às vezes consigo mesmas, às vezes com várias outras vozes. Enfim, aquilo parecia um pouco insano pra mim. Eu não concebia a ideia de estar sentada em um banco de um pátio e a cabeça falando sem parar lá dentro dela mesma. Pois bem, esse vácuo se retirou da minha vida há um tempo. Porque – ainda não sei bem ao certo o motivo (e isso importa?) – comecei a falar sem parar dentro da minha cabeça!! Isso estava me enlouquecendo. E não importava muito o quanto eu falava com os outros. Esse burburinho continuava na minha cabeça mesmo assim. Era só uma pausa silenciosa, como ir ao banheiro, e bum! uma voz extremamente triste, outra extremamente irritada, uma terceira extremamente ansiosa passavam a habitar o meu andar de cima.

Penso que o silêncio que eu vivia anteriormente deve ter sido construído sobre muitos lugares que eu me servia para pôr aquelas vozes para fora. Seja porque eu vivia rodeada de interlocutores, seja porque eu escrevia uma pesquisa científica e colocava todo o meu amor naquilo. Eu a escrevia com o cuidado de alguém que faz uma obra: aquilo me dizia respeito e eu queria deixar a minha marca. Depois, passei a elaborar algumas publicações de forma independente, e isso também teve seu fim por diversos motivos. Então, querendo ou não, gostando ou não, escrever em média 4 páginas por dia sempre fez parte do meu dia a dia, mesmo que em outros contextos.

Agora estou com esse blog em minhas mãos e posso falar de tudo que eu quiser, da forma que eu quiser. Não tenho mais orientação de pesquisa, não tenho mais outros colegas editores. Claro que isso reduz os meus interlocutores, mas me traz uma liberdade tamanha como nunca havia experimentado. Talvez a paixão com que eu tenha me pegado nos últimos dias venha desse fator: essa liberdade ainda não experimentada, em um espaço que nunca imaginei. Nunca me vi como “blogueira” porque (veja só!) eu achava que eu não tinha o que dizer!! Às vezes não nos conhecemos, mesmo convivendo com nós mesmos há tanto tempo.



Então, desde que fiz esse blog, esse pequeno problema das vozes desapareceu quase por inteiro. Como eu disse antes, nada de tão “demais” aconteceu na minha vida de ontem para hoje (a não ser o fato de ter descoberto o melhor horário para tomar sol no pátio de onde moro, uma vez que nessa estação do ano pegar um sol quentinho é a coisa mais difícil que existe), e cá estou eu a escrever. Acordei com sinusite e espirrando muito, estou toda catarrenta. Já tomei dois comprimidos, um antigripal e outro antialérgico, porque quando começo a espirrar nunca sei se é gripe ou alergia. E, no entanto, como estou feliz porque voltei a ser um pouco como eu, coisa que há muito eu mesma não era.

Devo dizer que muito me impressiona abrir essa página todos os dias e ainda ter o que dizer. Agora mesmo junto quase 20 páginas de texto somente com o que publiquei até agora. Portanto, apenas com o propósito de alimentar mais uma estatística inútil, se você leu esses meus últimos seis posts dessa primeira semana de blog, você leu, na verdade, quase 20 páginas de texto com a letra Calibri (Corpo) tamanho 12 do Word. Incrível, não? Além disso, devo informar que já tenho uma lista de vários textos que pretendo publicar, com todo o argumento destrinchado em itens e subitens. Alguns possuem até título. Na minha cabeça, já criei uma série de posts que desejo agrupar em uma página sobre mulheres que eu considero incríveis. Enfim, há um brá-brá-brá infinito que finalmente está a sair da minha cabeça rumo ao “mundo real”. Ah! Como me sinto feliz durante o dia, sorridente e até simpática.



Mais uma vez, Nastassja Martin tem algo a acrescentar diante dessa avalanche dos meus pensamentos. Estou começando a ficar desconfiada com essa mulher. Como é que podemos ser tão parecidas? No entanto, também acredito piamente naquela mística do encontro com o livro. Acho que só nos encontramos com os livros nos momentos em que conseguimos recebê-los. Cada livro aparece para nós e nos toca somente quando somos capazes de compreender o que ocorre naquele terreno. É por isso que lemos muitos livros dos quais nos esquecemos completamente enquanto outros nos deixam marcas para sempre, em um amálgama que agrupa aquilo que é o livro e aquilo que somos nós. Voltando para Martin:

Quero poder desfrutar da insularidade, reconstruí-la em meu corpo ao mesmo tempo em que admito a incomensurabilidade dos seres que povoam minha ilha interior. Penso que não se trata de: despovoar nossa alma para desfrutar do pouco de insularidade que ela ainda encerra; e sim: fazer do nosso ser esse lugar esse ecossistema onde aqueles que escolhemos – ou que nos escolheram – se tornem comensuráveis, para além dos abismos que os separam1.

Então todo esse problema não é sobre sufocar as “vozes da nossa cabeça” ou buscar esse suposto silêncio interno que ainda existiria em nós como algo de originário, como se o bebê fosse gerado em um profundo silêncio. O próprio feto, dentro da barriga da mãe, está continuamente sendo ninado por uma série de barulhos e sons intrauterinos. A senda a ser perseguida é: observar tudo aquilo que nos compõe e que parece ser, ao mesmo tempo, externo e gigante, tudo aquilo parece querer nos dominar. Depois crescer, crescer, crescer, ficar enorme, maior do que todas aquelas coisas, e passar a enxergá-las como algo comensurável, ou seja, como algo que tem medida. Mas só podemos ver essas medidas justamente porque nos tornamos maiores do que elas. E, por fim, deglutir todas essas coisas em nosso interior, colocando para dentro todas aquelas pontas incongruentes que nos formam. “El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río; es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego”2. Alquimia que transforma o que é externo em interno; o que é interno em externo. Sístole e diástole, se quisermos ser românticos. Ou peristaltismo da vida, se quisermos acreditar que sentimos mais com o intestino do que com o coração3.

Agora, como vamos “crescer, crescer, crescer”? Dúvida boa para um texto do futuro.


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  1. Nastassja Martin. Escute as feras. Tradução de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann. São Paulo: Editora 34, 2021. P. 57.

  2. Jorge Luis Borges. Nueva refutación del tempo. Otras inquisiciones, 1952. Disponível em: https://www.literatura.us/borges/refutacion.html.

  3. Expressões como “frio na barriga”, “visceral”, “embrulho no estômago”, “entranhas”, “tripas”, presentes no cotidiano brasileiro, passam essa ideia. Em inglês há o “gut feeling”.