A vida de uma garota de 30 anos

Sobre não ter amigos et. al.

Monte Roraima, Venezuela




“Sempre há mais de um comigo” – assim pensa o eremita. “Sempre um vezes um – com o tempo, isso faz dois!”
Eu e mim estamos sempre muito envolvidos numa conversa: como suportar isso, se não houver um amigo?
Para o eremita, o amigo é sempre o terceiro: o terceiro é a cortiça que não deixa que afunde a conversa dos dois1.




Eu não tenho amigos. Escrita assim, essa frase parece forte, mas não é bem assim. Não vivo em uma montanha isolada como eremita. No meu dia a dia estou rodeada de pessoas com as quais converso e mantenho as ditas relações, dentro e fora de casa. Mas essas pessoas não são meus amigos ou sequer se aproximam de ser. Para mim, elas aparecem como alguéns que estão ao meu redor como um mero acaso da vida. É que, com amigo, amigo de verdade, tenho um pouco uma síndrome de destino. Penso que a pessoa tem que ter a ver comigo e eu a ver com ela. Penso que devemos conversar francamente. Conhecer-nos muito. Estar em casa um com o outro.


Amigo é alguém com quem você se sente completamente à vontade para expor a sua perturbação e a sua genialidade. Seus pensamentos não se acanham diante dele, pelo contrário, querem galgar para os cumes mais elevados. Amigo é aquele que diz de boa vontade que aquilo que você pensa ser o suprassumo é na verdade uma montanha de besteiras acumuladas. E você também aceita essa perspicaz observação, de bom grado.

Amigo é quem te dá colo e abrigo diante da tempestade. Mas para isso você precisa ser capaz de anunciar para ele o dilúvio que se aproxima. Se você não se sente livre para fazer tal enunciação, se o outro não se sente capaz de recebê-la: há, de fato, amizade?

Amigo é quem te conhece como você é quando você está sozinho. É aquele com quem você consegue habitar em silêncio o mesmo cômodo quando cada um faz uma atividade diferente. Que se reúne para estar, que não vai embora quando a conversa acaba, que descansa profundamente ao seu lado porque ali ele também se sente como se estivesse sozinho. Mas para isso você precisa se desfazer de algumas das artimanhas que arquitetou para estar em público. E ele precisa estar aberto para conviver com algumas das suas manias e idiossincrasias. Amigo é de verdade, e por isso que para mim é difícil dizer que tenho amigos.

Me enfureço quando escuto alguém tratar com naturalidade a conversa com um amigo; as pessoas dizem como se fosse normal: ligue para a sua amiga e converse com ela sobre o assunto que te aflige. Mas devo ligar exatamente para quem? É nesse sentido que digo que não tenho amigos. Não tenho essa pessoa para quem telefonar e dizer o que eu sinto. Mas sem desespero! Essa circunstância não é tão triste assim quanto soa agora que escrevo sobre isso. Quero dizer que na maioria das coisas da vida esse fato pode até passar despercebido. Talvez um bom número de pessoas também se sinta assim.

Em algum lugar no meio da pandemia essa coisa de ter amigos se perdeu na minha vida. Antes disso, tinha-os aos montes e estava rodeada deles diariamente. Algo mudou em mim e algo mudou neles e isso tudo se perdeu. Me vi sozinha diante de um corpo frágil, e tive que dedicar muito tempo e muita força para viver a doença. Agora que lido melhor com ela, me vejo assim, sozinha. Os amigos não atravessaram esse portal da vida comigo. Assim como quando a gente morre, fui sozinha. E isso não é tão triste assim como soa agora, porque há até certa beleza em ser só. E, no final, sinto até certa ternura por aqueles que conseguem dizer com naturalidade: se encontre hoje com um amigo para conversar. Que vida fantástica!

No meu caso, vou me arranjando com o que tenho. As pessoas são como são e não posso obrigar ninguém a ser meu amigo. Tento um pouco aqui, muito ali. Confesso que de vez em quando me sinto cansada e não tento nadinha. Não me esforço sequer um tantinho. Até me faço de rogada diante de convites. Sinto meu faro mais apurado depois dessa travessia de mundos e sei que muita gente não me agrada, afinal, eu também sofro do meu mal!! “Incompreendida! Que quererá isto dizer? Quase nada... Quem não compreende, sou eu: eu é que não compreendo os outros, os seus prazeres, os seus gostos, as suas fontes de água clara onde se lavam e onde se contemplam”2.

Por enquanto, entre outras coisas, não tenho amigos. Nas horas de alegria e de desespero, nas tardes de sol e nas manhãs frias, nos cafés das esquinas, entre quadros de museus, como gostaria de tê-los! No entanto, sei que para encontrá-los devo permanecer assim, como sou. Ao contrário, se eu me fizer de fofinha ou de bacana, de tranquila demais ou impaciente demais, se eu me montar agregando elementos de qualquer coisa que eu não sou, quem vai arranjar um amigo é esse meu Outro, que é completamente digerível. Fazer o quê?... talvez eu seja meio indigesta.


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  1. Nietzsche, F. Assim falou Zaratustra. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018. Pp. 53-54.

  2. Espanca, F. “Cartas nº 43, 44, 147 e 148”. Sonetos completos com um estudo de José Régio. Não estou com o exemplar aqui. Vou verificar na biblioteca para inserir os dados corretamente.