O nosso mal

São Paulo é famosa por ser a cidade onde as pessoas só trabalham. Só se conhecem por conta do trabalho, só discutem sobre trabalho. A primeira coisa que as pessoas perguntam quando te conhecem é: o que você faz? (Com essa pergunta, elas na verdade querem saber com o que você trabalha e, na pior das hipóteses, sobre o seu cargo e a empresa que te contratou. Sim, é um ritual humilhante). No último evento social em que eu estive, no meio de uma conversa desse tipo, soltei a minha deixa para sair do assunto: eu estou desempregada, graças a Deus! As pessoas riram com estranhamento e me disseram que sou muito engraçada. Engraçada por quê? Estou falando a verdade! O meu sentimento com o trabalho é uma mistura de Heaven knows I’m miserable now, dos Smiths, com filosofia indígena: devemos nos empenhar pelo menor tempo possível na produção de excedente para que, no final das contas, consigamos aproveitar o dia produzindo aquilo que realmente nos importa.
Ou seja, não sou necessariamente “contra o trabalho”. Ele ocupa a vida humana desde quando demos nossos primeiros passos na Terra. Essa não é a questão. O ponto é: cozinhar as refeições, lavar as roupas, compor uma música, escrever um texto, ler um livro, caminhar para o mercado, escolher as melhores frutas, limpar a casa, pintar um quadro, estudar um tema de interesse, olhar pelas crianças, alimentar os animais, plantar verduras no quintal... tudo isso é trabalho, simplesmente porque deixa marcas humanas nas coisas que estão ao nosso redor. O trabalho não se resume ao ato de servir aos outros. Em São Paulo, o que chamam de “trabalho decente”1 é, na realidade, uma rotina diante de telas, de vozes acaloradas que jorram pelos pequenos orifícios dos celulares e de edifícios corporativos idênticos uns aos outros. Isso é o que nos afasta do trabalho com amor. Esse é o nosso mal.
No entanto, não sou inocente a ponto de pensar que a maioria das pessoas não tem prazer nenhum exercendo esse tipo de rotina. É evidente que têm. E, diante da “vida moderna”, seria inútil dizer que o trabalho, tal como se apresenta, não deveria ocupar quase todo o nosso tempo, o nosso espaço, as nossas ideias, os nossos valores. É evidente que ocupa. De repente, o medo adolescente de escolher uma profissão ganha uma nova perspectiva. Hoje dizem que não vivemos mais na época em que se escolhe uma profissão e a sua vida está acabada. Acabada no sentido de que a pessoa teria que fazer aquilo para o resto da vida. Hoje, dizem, há flexibilidade, todo mundo muda de carreira2. Mas parando para pensar agora, vejo de outra forma: e se o medo adolescente for justamente ver a sua vida toda girar em torno de uma profissão, seja ela qual for, sem tempo para fazer as coisas com as quais o adolescente em questão está habituado (e, sem moralismo, aqui falamos de toda e qualquer coisa)? A pressão não é tanto por “definir uma carreira”, mas por simplesmente ter que trabalhar nesse molde que está em todo lugar. No final das contas, o discurso de todo adulto, independentemente da classe social, é o de alguém que se orgulha de ter “crescido”, de ter “aguentado”, de ter sofrido muito. Que encorajador!
E, como as pessoas convivem tanto assim com as suas profissões e voltam grande parte da sua força para tais problemas, é de se notar a forma pela qual elas aderem a determinadas características profissionais como se fossem traços de seu caráter, como elas moldam seus comportamentos e se empolam diante dos outros quando sentem que são requisitadas em sua expertise, mesmo quando estão fora do local de trabalho3. Sem nenhum tipo de perseguição específica, apenas a título de exemplo, vemos como o mal do profissional do direito é pensar que está sempre sendo requisitado para julgar um caso, avaliar uma prova, verificar a verdade, inquirir as testemunhas. E o professor? Em qualquer ocasião deseja ensinar os mais frágeis, levar a luz para os ignorantes, explicar tudo de uma forma didática. Temos casos mais evidentes e “sem-vergonha”, como o empresário que quer a todo custo te ensinar a ganhar dinheiro com uma ideia mirabolante; o político que quer sempre te convencer a ficar do lado dele. O médico que se acha superior aos demais porque acredita piamente que a sua categoria é a mais prejudicada do mercado já que ele “ganha pouco” diante de tamanho esforço. E, contemporaneamente, o influencer que parece um banner ambulante (daqueles que foram proibidos) porque está sempre em busca de “fechar uma publi”. E a lista vai ladeira abaixo...
Não sou complacente comigo e, é claro, penso também no meu mal. O mal do profissional das Humanidades é que ele vê e sabe que as sociedades possuem muitas possibilidades. Por meio da Arqueologia, ele vê a imensidão das coisas que se foram. Como elas eram diferentes das nossas! Como elas se erguiam com uma força de Verdade! Como elas pareciam eternas. E hoje ele escava as suas ruínas. O arqueólogo está sempre diante da incerteza, porque nunca compreende por completo aquela sociedade analisando apenas alguns resquícios materiais. Sabe que dentro da ciência há sempre o espaço da invenção, que é chamada formalmente de hipótese. Para que aquele jarro era utilizado? Conseguimos, de fato, identificar os elementos que eram submersos em seu interior, sua composição química, seus desenhos, seus padrões. Mas aquele jarro era utilizado como enfeite em um canto da casa? Ou era elemento essencial nos rituais funerários? Crianças brincavam com ele ou era um objeto sagrado? Tudo isso recai muito mais sobre o trabalho do arqueólogo e a sua capacidade de elaborar as famosas hipóteses do que a sobre a Verdade de fato. Seu trabalho é remontar algo sólido, mas sua matéria-prima é frágil demais, escassa demais, recortada demais.
A Antropologia fornece para os olhos do antropólogo uma miríade de organizações sociais e de formas de ser bicho-homem. Não há imaginação que dê conta dos diversos tipos de sociedade existentes atualmente e no passado. Na sociedade X, determinado aspecto é um sinal de grandeza, de força, de poder. Na sociedade Y, este mesmo aspecto determina os párias sociais, os excluídos, a escória. Durante seus estudos, o antropólogo vê essas inversões ocorrerem inúmeras vezes, para os mais variados aspectos. Nesse sentido, ele joga fora a sua balança de valores, pois sabe da existência dos valores dos outros. Nada mais é tão estável como antes.
A Sociologia, a Política, a História e a Filosofia mostram que nunca algo é necessariamente assim. Nada se configura como destino, nem mesmo o nosso presente. A vida que vivemos, a vida que as pessoas no passado viveram e a vida que as pessoas do futuro viverão são apenas resultado das forças em luta. Não há destino, há resultado de forças. O homem, com seus pares, faz a si mesmo.
Então, este é mais ou menos o meu mal. Desconfiar do presente, entender os valores como coisas que foram, antes ainda, valoradas. Cada sociedade forja o que é bom e o que é mau. Internamente, estou sempre utilizando a minha própria balança para os valores, e ela está calibrada com essa infinidade de conhecimentos que nem sempre coincide com os valores sociais nos quais estou inserida; estou sempre tentando identificar o que a pessoa com quem dialogo entende por cada coisa que ela mesma diz. Mas não de forma psicológica, porque mesmo o psicólogo está sujeito aos valores de sua própria sociedade. Estou sempre e sem querer em um escrutínio moral. Não para ver se a pessoa “tem moral” ou “não tem moral”, mas para compreender qual é a sua moral. E, quando percebo que a sua moral é a moral de todos, perco quase que imediatamente o interesse pela pessoa. Vejo ela se derreter na minha frente, como um líquido muito diluído, tão diluído que quase não percebemos do que ele é feito. Não consigo admirar quem não desconfia do presente, quem acredita que vive o destino da humanidade, quem não carrega e calibra constantemente a sua própria balança, quem não sabe o que lhe é próprio. E sou fera em identificar isso. Cada vez mais. Será que, como o advogado, o professor, o médico, não conseguirei me apartar dessa perspectiva? Mesmo quando não estou trabalhando? Talvez essa seja a minha igualdade com os demais, com a minha própria sociedade.
Ontem li um trecho de Nastassja Martin (não por coincidência, antropóloga), e notei que ela sofre desse mesmo mal.
No dia seguinte, a psicóloga do setor me fez uma visita [...] Ela me pergunta como me sinto “psicologicamente”. Na falta de coisa melhor, eu lhe respondo que minha psique certamente está como a minha pele e meus ossos, dilacerada, quebrada, retalhada. Mas ainda? Eu me sinto viva, acrescento, tentando dar um sorriso. Ela me escrutina com um olhar que se pretende amável e cheio de boa vontade. Mas de verdade, como você está se sentindo?, ela insiste. Um silêncio, em seguida ela retoma. Porque, você sabe, o rosto é a identidade. Olho para ela, pasma. Os pensamentos se entrechocam na minha cabeça, que de repente superaquece. Pergunto se ela costuma prodigar esse tipo de informação a todos os pacientes da ala maxilofacial da Salpêtrière. Ela ergue as sobrancelhas, desconcertada. Gostaria de explicar a ela que, há anos, coleto narrativas sobre as presenças múltiplas que podem habitar um mesmo corpo – para subverter o conceito de identidade unívoca, uniforme e unidimensional. Gostaria também de dizer a ela todo o mal que isso pode causar, emitir um veredito desses quando, precisamente, a pessoa que se encontra na sua frente perdeu aquilo que bem ou mal, refletia uma forma de unicidade e tenta se recompor com os elementos alter que, de agora em diante, sustenta no rosto. Mas guardo isso para mim. Não consigo nada além de soltar um cortês: acho que é mais complicado que isso.4
Deitada na minha cama antes de dormir, leio Martin contar que viveu um encontro com um urso e teve seu corpo marcado por ele de forma inesquecível e, ainda assim, não se esqueceu desse tipo de pensamento quando entrou em contato com os “humanos contemporâneos”5. Penso que esse “mal de sociólogo”6 é uma coisa que fica. Então, por que eu, que nunca fui atacada por um urso (ao menos não da mesma maneira que ela, porque aqui não se trata do simbólico), deveria me livrar dessa postura? Eu, que carrego a minha balancinha no bolso, peso minuciosamente os valores por minha conta, peso até mesmo os pesos, nada que não é do meu gosto entra no meu caldeirão... não é evidente que este seria também o meu mal!?!
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Sim, “trabalho decente”, porque digam o que quiserem, mas aqui não se valoriza as profissões de trabalho manual tanto quanto esse bando de engravatados que fica o dia inteiro preocupado em fazer dinheiro para pagar para que outras pessoas façam as “coisas com as mãos”. Lavar o banheiro, construir uma casa, cozinhar uma refeição, consertar um equipamento quebrado, costurar, colar a sola de um sapato, recolher o lixo, varrer as ruas: tudo isso é visto pelo paulistano como profissão de segunda categoria.↩
Isso também é um tipo de precarização porque todo mundo deve ser capaz de fazer de tudo. E não porque você se tornou alguém muitíssimo interessado e com possibilidades várias de expandir seus gostos e habilidades. Mas porque você deve se desdobrar para servir à empresa, que não te pagará a mais por isso.↩
Para encarar isso de um modo mais completo há outras variáveis importantes que precisam ser inseridas nessa equação, como a aderência do capital em todos os ramos da suposta “vida privada” com a emergência do neoliberalismo enquanto prática de governo. Cf. Foucault, M. Nascimento da biopolítica. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.↩
Martin, N. Escute as feras. Tradução de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann. São Paulo: Editora 34, 2021. Pp. 38 - 39.↩
Depois desse diálogo com a psicóloga, Martin diz que irá se comportar de maneira mais gentil da próxima vez. Veremos. Mas essa gentileza também a afasta de sua “ursa interna”, pois o que ela quer dizer mesmo é tudo aquilo que ela não disse. Ela é antropóloga e esteve envolvida com as filosofias indígenas, ela acredita na multiplicidade da identidade; isso é ela de fato – ao menos até este momento da história do livro. Então, temos outro problema no encontro entre essas duas mulheres: o que significa o fato de Nastassja pensar tudo isso e não falar sobre isso? Eu faço a mesma coisa em diversas situações. Evidentemente que ela está hospitalizada e tomando morfina para conter a dor, e isso deve ser levado em conta. Eu não estou. No entanto, nós duas tomamos essa atitude e desejamos ser mais “gentis”. Onde isso nos levará? Se trata de um tanto de preguiça? Com certeza! Mas, por quê? Esse assunto vai longe... por isso, deixo ele para outro blog.↩
Veja que aqui poderia ser “mal de antropólogo”, “mal de arqueólogo”, “mal de historiador”, “mal de filósofo”, “mal de politólogo”. E prefiro dizer “mal de sociólogo” porque (pasme!) é o que eu imagino que as pessoas da minha sociedade entenderão melhor. Mas no fundo penso como Foucault. Acredito que todas essas coisas meio que se correspondem se você partir dessa perspectiva despudorada. Porque há, também, sociólogos que se apegam à sua sociedade.↩