A vida de uma garota de 30 anos

O que dizer?

Esses dias estou meio que sem saber o que dizer. Tenho falado bastante, mais do que o normal, com as pessoas ao meu redor. Tenho lido muito, sentido com muita intensidade, trabalhado nem tanto assim, ainda bem. Meu pulso direito está com uma dor estranha, talvez pelo excesso de atividades manuais (computador, pintura, desenho, escrita, bordado). Sinto que não sabemos muito bem o tanto que as nossas mãos são preciosas.

O que dizer? Ultimamente tenho sentido que para dizer mesmo é preciso de pouca coisa. Prefiro me ater às coisas pequenas. Conversar com meus adorados M. e S. (porteiros preferidos) sobre o que se passa na rua com os vizinhos, com os passarinhos, com o tempo. Amo andar na rua durante a noite, apesar de ter medo de fazer isso pelo simples fato de ser mulher. Ontem tive companhia e caminhamos alegremente e despreocupados. Eu sempre pensei que, se eu tivesse nascido homem, caminharia muito de noite. A cidade fica tão linda, com suas luzes amarelas e o seu ar de solidão. As lojas vazias, com as vitrines acesas em uma noite fria, sempre me trouxeram uma sensação de alegria. Como se as coisas estivessem ali, mas ninguém precisasse de comprá-las.

O Natal está chegando e eu admito hoje sem nenhuma vergonha que essa é a minha data comemorativa preferida do ano. Mais do que o Ano-Novo, mais do que o Carnaval e a Festa Junina. Lavagem cerebral feita nos millenials pelos Estados Unidos? Talvez tenha funcionado. Meu coração se aquece só de imaginar as decorações por aí, a vontade de dar presentes nos invadindo, a sensação da emergência de um mundo onde todo mundo é especial. Agora que comecei o bordado russo, pretendo fazer com as minhas próprias mãos pelo menos um enfeite para a minha árvore de Natal. Mas ainda temos tempo. Ainda não passou nem o Halloween, para falar a verdade.

Ontem fez um frio danado e eu não estava suficientemente preparada para o vento. Deu que hoje estou com o nariz sensível, a voz um pouco rouca. Mas valeu a pena. De vez em quando a vida tem de estar um pouco desequilibrada. Não tenho apreço por uma rotina marcial. Gosto de deixar espaço para que as coisas aconteçam, nem que seja uma gripe boba por ter andado descoberta no sereno. É assim também que somos felizes.

De vez em quando eu penso que eu queria ser mais incomodada – mas por gente boa. Em algum lugar que agora não me vem à mente, eu já li Caetano Veloso dizer que sempre trabalhou rodeado de gente, que uma casa cheia nunca atrapalhou seus planos, sua arte, sua escrita, sua música. No entanto, quando paro para pensar na qualidade daquelas pessoas que poderiam o interromper, entendo o tamanho da sua sorte. E sei que também existe aí, como sempre há, uma questão de gênero. Muito provavelmente ele não era tão interrompido com solicitações quanto eram as mulheres do passado e de hoje.

Virginia Woolf, ao contrário, dizia que a mulher precisa de um teto todo seu para conseguir escrever e criar a sua obra. Virginia, antes de ter um teto todo seu, provavelmente era interrompida com exigências para servir aos outros. E Jane Austen escrevia na sala de estar escondendo seus manuscritos das pessoas que por ali passavam1. Imaginem do que Jane seria capaz se tivesse um teto todo seu!

Enfim, o que dizer, meus amigos? Pouca coisa. Queria ser interrompida por gente boa. Por gente que me mostrasse coisas maravilhosas, músicas inéditas, luzes de Natal nas vitrines das lojas em uma noite de sereno, livros ainda por escrever.



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  1. Virginia Woolf. Um teto todo seu. Tradução de Bia Nunes de Sousa e Glauco Mattoso. São Paulo: Tordesilhas, 2014. p. 98.↩