Blog é de verdade
Vivo aqui falando para vocês sobre a importância da ficção na nossa vida, na nossa escrita, no nosso modo de pensar e até mesmo cito exemplos de como ela influencia a minha forma de escrever os textos para o blog. Mas, durante esses dias, me peguei pensando no que é de verdade aqui no blog. Afinal, nem tudo que eu escrevo aqui é ficção e, para falar a verdade, a grande maioria das coisas vem de um lugar de verdade, apenas rearranjado na maneira de ficção.
Vejamos, portanto, o que é verdade aqui nesse blog. Durante esse mês, pude sentir uma certa diferença, uma nuance que eu ainda não tinha percebido em relação aos outros meses. Pela primeira vez, chegamos no fatídico dia do mesversário do blog e eu não tinha nada muito elaborado na cabeça sobre o texto que eu redigiria nessa data. Vocês já devem ter notado, a essa altura, que todo mêsversário eu faço um texto sobre o blog. Nos meses ímpares, notei que, por coincidência, faço textos mais reflexivos e, nos meses pares, textos mais bem humorados, contando coisas boas da minha vida e do blog.
Ao mesmo tempo em que percebi que deixei de escrever diariamente aqui no blog, coisa que fiz com tanta facilidade nos meses iniciais, fiquei com um pensamento rondando a minha cabeça: o que é de verdade aqui no blog?
Pois bem, vamos para o que, ao menos eu, imagino ser de verdade aqui no blog. A verdade é que a verdade sempre aparece, de uma forma ou de outra, enquanto eu escrevo. Mesmo em meio a tanta ficção. Mas a verdade não aparece como algo obscuro, a ser prescrutado, analisado, pormenorizado, julgado, afinal, as verdades são apenas ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são1. Essa verdade que aparece aqui no blog não é, portanto, sua essência última e única, o motivo de todo o seu ser, sua condenação ou sua salvação. É apenas algo que acontece, que se deixa transparecer, e que pode, como tudo na vida, mudar inúmeras vezes. A verdade não é, portanto, o fim de todas as coisas – e muito menos da arte, que vive da inexatidão do olhar2.
Diante desses dois fatos (a sensação de não saber sobre o que escrever no quinto mesversário do blog e a diminuição da frequência com que escrevo aqui), me vi diante de duas verdades.
A primeira: não me senti tão confortável como antes com as palavras, uma vez que estamos vivendo coletivamente um período um tanto acalorado (entre dois turnos de eleições presidenciais) e, ainda que eu tenha feito de tudo para que isso não me afetasse completamente, é preciso dizer que tal calor me atravessou mais do que eu gostaria. A segunda: esse foi também um mês conturbado nos assuntos tratados na terapia, com sessões muito marcantes e decisivas para meus assuntos particulares.
Enfim, me vi, diante do blog, como impossibilitada de falar tão abertamente, tão “verdadeiramente”, uma vez que prefiro manter essas duas coisas em âmbito particular.
Pois bem. Não pensem vocês que vou começar a falar aqui descontroladamente sobre esses temas, que, aliás, me perturbam, cada um à sua maneira. Sobre o segundo tema, talvez não fale nunca mais, talvez cite vez ou outra, quem sabe... Sobre o primeiro tema, de vez em quando tenho vontade de dizer algumas coisas, mas não digo porque detesto polêmica. Detesto polêmica em um nível incomensurável, porque percebo somente agora o quanto detesto polêmica.
Estamos a um dia do final da eleição, e calhou de o mesversário do blog ser nesse dia e, justamente nesse dia, calhou desse tema vir à minha mente. Eu poderia simplesmente ignorar e seguir a vida, mas não estamos falando, enfim, sobre verdade?
A verdade é que essas eleições me deixaram um tanto amuada com a vida, com os outros, com tudo. Mas esse amuo não ocorreu por um dado específico, por um debate a que eu assisti na televisão, por um comentário ou outro, mas pelo clima geral. Não gosto do clima geral que eu senti durante esse mês, e confesso para vocês que torci, todos os dias, para que isso acabasse logo.
Vou pegar um exemplo que acho que resume bem o sentimento que acabei sentindo inúmeras vezes, com inúmeras pessoas, em inúmeros lugares. O influencer Felca fez um vídeo falando sobre bullying no dia 20 desse mês e muita gente ficou decepcionada (e, em alguns casos, também enfurecida) por ele não ter falado sobre as eleições, ou, mais explicitamente, por ele não ter feito um exposed de Flávio Bolsonaro e companhia. Eu não sei qual é a índole desse tal de Felca, e conheço pouco sobre a sua vida, mas isso não importa para o nosso exemplo aqui.
Me chocou o tanto que os internautas comuns e os grandes influencers ficaram indignados com o tal do Felca só porque ele fez “uma coisa dessas”. Em resumo, senti que, nesse clima eleitoral, todos nós acabamos virando um pouco polícia de voto e de comportamento (de si e dos outros) – e isso me causa uma tristeza sem fim. Essa é a liberdade da democracia!!
Como será possível respirar amplamente em um mundo assim?
Essa é uma das verdades que me atravessou durante esse mês todinho e que me deixou com menos vontade de escrever. Claro que há outras, relacionadas ao outro lado da moeda, com suas incontáveis violências que nem ouso começar a falar sem me sentir enojada. Imagino que eu não preciso dizer isso aqui para vocês.
Como vocês sabem, estudo Política desde quando tinha os meus 18 anos e estava começando a vida na faculdade. Não acho que esse título me torna melhor do que ninguém para falar sobre esse tipo de assunto. A Política é para ser discutida por todos.
Mas se enganam vocês caso pensem que nas aulas de Política eu aprendi somente sobre partidos, oposições, lados, sobre quem é ou não é “omisso”, sobre quem é ou não é “consciente”, sobre “quem merece” e “quem não merece” qualquer coisa que seja. Isso não tem quase nada a ver com os incontáveis livros que eu li e as incontáveis horas em que estive sentada em uma sala de aula.
Estudar Política é aprender a fazer análise – e não, a análise não é neutra, mas tampouco é necessariamente partidária. A Política é, e sempre foi, para mim, estudo.
E, quando não é estudo, a Política é, para mim, a vida. Nos sentimos distantes da vida porque nos afastamos da Política: a entregamos nas mãos de profissionais, porque nos julgamos incapazes de compreendê-la e de realizá-la.
Eu, ao contrário, como disse em uma das últimas sessões de terapia para a minha psicóloga, tenho uma fé infinita na capacidade humana.
A Política, quando ela se torna a vida, nos dá forças, nos faz sentir que somos capazes de tudo, nos dá todas as pistas para o caminhar em coletivo. A Política é aquilo que nos permite colocar a mão na massa. Se não for isso, ela se torna uma propagação da nossa incapacidade de resolver os nossos próprios problemas, ou seja, da nossa morte.
Talvez estejamos tão desesperados com as eleições porque estamos acostumados a ver a Política como uma delegação para o outro. Afinal, é isso que nos é ensinado desde que somos apenas crianças: votar, escolher os representantes “corretos” e torcer para que eles façam o melhor em nosso nome.
Ninguém imagina que, por exemplo, a construção de um jardim pode ser também a ação própria da Política. Mas é só na construção de jardins que conhecemos uns aos outros, que governamos a nós mesmos em relações que nos afetam concretamente, que nos expomos diante dos outros a partir de algo que acreditamos ser, enfim, de verdade.
Agora, como o blog deixou transparecer essas verdades, creio que posso responder à questão inicial desse texto. Percebo, no final das contas, que bastante coisa é de verdade aqui. Sim, os meus sumiços, o meu desânimo dos últimos dias, todos os fatos cotidianos e os dados históricos do nosso país que me atravessam são de verdade. Mas também são de verdade todas as mudanças gloriosas que o blog e vocês trouxeram para a minha vida.
Por isso, mais uma vez e novamente, obrigada por estar aqui comigo, nesse quinto mesversário, que, dessa vez, foi um tanto conturbado.
Com o mesmo amor de sempre,
Uma garota de 30 anos
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