Passado
Sei o que há no fundo, ela diz. Conheço a minha própria raiz.
Era o que você temia.
Eu não: já estive lá.1
Passado. Eu não me considero uma pessoa com apegos ao que passou, a não ser quando se trata de amor de verdade, daquela coisa chamada saudade. No entanto, quando não se trata disso, sou totalmente “pra frentex”. Segue o jogo. Não tenho “saudades” de quando eu trabalhava no lugar X ou Y. Nem da época da escola – a não ser da sensação de estar de férias. Não tenho nostalgias do meu tempo de colegial. Não guardo amigos de infância ou de adolescência. Não sei nem onde estão, o que fazem da vida, como são hoje em dia. E também não tenho vontade nenhuma de saber.
Não tenho apego com lugares, salas de aula, locais de trabalho, cidades inteiras. Assim que eu finalizo, evaporo. Não deixo lastro. Não tenho essa coisa de encontrar com os colegas de faculdade ou do Ensino Médio a cada ano, rever colegas de trabalho de locais antigos. Nunca tive. Mas isso não quer dizer que, enquanto eu estava naqueles locais, eu não criei meus laços. Pelo contrário. Criei muitos, e de maneira até intensa demais.
Quando uma coisa se encaminha para o seu fim, eu deixo rolar. Ela vai, de fato, finalizar, ou vai morrer para se reinventar? Deixo a situação chegar até o limite – e, aqui, não sei se isso é uma qualidade ou um defeito. Não tenho medo. É que, no fundo, eu quero ver onde as coisas vão dar. Eu quero ver se vamos conseguir atravessar a passarela.
Uma vez estivemos tão próximos na vida, que nada mais parecia tolher nossa amizade e irmandade, e havia tão só uma pequena passarela entre nós. Quando você ia pisá-la, perguntei-lhe: “Você quer cruzar a passarela e vir até mim?”. — Mas então você já não queria; e, quando solicitei novamente, você se calou. Desde então, montes e rios torrenciais, e tudo o que separa e alheia, foram lançados entre nós, e, ainda que quiséssemos nos aproximar, já não poderíamos! E quando hoje você recorda aquela pequena passarela, não tem mais palavras — apenas soluços e assombros.2
Depois de viver esse tipo de experiência, prefiro que nunca mais nos vejamos. E, aliás, fujo dessas pessoas como o diabo foge da cruz. “Ainda que quiséssemos nos aproximar, já não poderíamos!” Sinto que, com elas, tudo foi levado à tamanha magnitude, que, agora, daquilo não sai mais nada. Já fui procurada por amigos antigos, já tentei reatar amizades fortíssimas. Nunca deu em nada. Apenas acabamos no mesmo lugar, na mesma passarela.
Perdão pra mim é coisa fácil. O que eu busco mesmo é o entendimento mútuo e às claras. Nos acertarmos nos nossos termos. Mas perdoar não significa que vamos continuar a viver juntos. De vez em quando, perdoar é desejar tudo de bom, mas longe de mim. Fica aí essa situação como um lembrete de como devemos nos comportar diante dos nossos próximos amigos. Não me julgo rancorosa, apesar de ter coisa que eu não esqueço. Mas rancor, rancor mesmo, de desejar o mal, achar que a pessoa merece ser punida por deus, pela vida, por outra pessoa, pelo karma? Raríssimo no meu coração.
O problema é que, mesmo com essa postura de “perdão gratuito” diante da vida, não consegui manter as pessoas por perto, porque elas me dão, no final das contas, dor de barriga. Conhecem aquela dor de barriga quando temos lá os nossos 16 anos e encontramos o ex-qualquer-coisa na rua? Pois é. Tenho até hoje, e com todo mundo do meu passado.
Não consigo concatenar o passado com o presente. Quando eles se encontram, é sempre a dor de barriga que me consome. Não quero nunca mais ver aqueles corredores e aqueles rostos, ouvir aquelas risadas que marcaram profundamente uma época da minha vida. Isso já foi.
Eu amo tudo aquilo, intensamente e dentro do meu coração. Em sua grandeza e em todos os detalhes. Poderia escrever livros e livros sobre as épocas da minha vida, de tanto que sei e sinto sobre tudo aquilo. Ainda torço para que todos aqueles seres que habitaram esses meus universos tenham seus desejos realizados. Mas, não, não quero saber da vida de nenhum deles. Não quero receber “atualizações”, não quero assistir aos seus “stories”, não quero encontrar por acaso na esquina para tomar um café. Tenho, aliás, ojeriza dessa possibilidade.
Não sei por que eu sou assim, apenas sei que sou. E que sempre fui. Desde muito criança. Sempre levei as minhas relações às últimas, para o bem e para o mal. Tenho fascínio por pactos de sangue. Quando amo, amo tudo. Inclusive a nossa ruína.
Sei que nem todos são assim. Para muita gente, é extremamente casual, e até agradável, reencontrar gente do passado. Alguns fazem a passagem dessas múmias metafóricas de volta à vida. Outros tentam manter uma relação mais distante, mas que, de alguma forma, ainda tenha espaço para demonstrações de carinho. Tudo isso me soa perfeitamente normal. Mas eu simplesmente não consigo. Não consigo conversar com a pessoa sem ter uma vontade enorme de sair correndo para entrar no primeiro banheiro que eu encontrar.
A verdade é que estou aprendendo agora, no auge dos meus 30 anos, a estabelecer uma relação “casual” com as pessoas. Estou aprendendo agora o que é “gostar de alguém” e não querer que a pessoa me conheça por inteiro. Estou aprendendo agora que há “colegas para isso” e “colegas para aquilo”. Durante toda a minha vida, só tive relações que me atravessaram para sempre. Todas poderiam facilmente ter se tornado tatuagens nos meus ossos. Não teve ninguém que passou muito despercebido. Claro que, ao mesmo tempo em que tive essas relações muito intensas, tive também outras, que me afetaram em menor grau.
Mas essas menores sempre circundaram as coisas mais grandiosas. De maneira que aquele cheiro, aquele colega, aquela mesa de canto, aquela rua, aquela poltrona de teatro: tudo isso me leva para aquela que eu mesma era quando estava com esse outro. Esse outro que sempre teve um peso enorme também em mim, em quem eu sou, afinal, eu penso que ele, enfim, me formou. Porque nós formamos uns aos outros, sempre e continuamente, por mais que a gente acredite, de uma forma meio tola, que nós “fazemos a nós mesmos”. Isso não existe. Nós não estamos condicionados ao outro, mas sempre, querendo ou não, somos como que agregados por coisas dele em nós.
A verdade é que estou, enfim, aprendendo agora o que é ter uma relação com aquilo que a minha psicóloga chama de “limites”. E aí, talvez um dia no futuro, quando as pessoas do meu hoje se tornarem as pessoas do passado, eu consiga conversar com elas sem ter vontade de ir ao banheiro.
Mas eu tenho, afinal de contas, um passado de 30 anos, do qual eu fujo, fujo, fujo, desesperadamente. Não, não quero encontrar nenhum de vocês. Não, não é medo. É que eu já estive lá — para o bem e para o mal. E, sim, eu os amo profundamente. Podem acreditar. Não, isso não é um paradoxo...
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