Saudade
Quanto mais eu cresço mais eu sinto que na vida só há duas coisas incontornáveis: o amor e a morte. O resto é coisa pouca, a gente dá um jeito. Claro que mudar de emprego e de endereço, por exemplo, dá trabalho. Cuidar da casa, da saúde, das burocracias, de vez em quando, é um saco. Ter que se desdobrar em vários para conseguir dinheiro? Pior ainda. Mas nada é como o amor e a morte, que colocam em suspenso toda essa nossa vida cotidiana, comum, e, muitas vezes, impensada. Eles nos colocam diante de algo que é muito maior do que nós, algo que é capaz de destruir e de criar qualquer tipo de vida.
Esse sentimento me faz uma pessoa muito prática nas outras áreas da vida: não tá feliz no emprego? Muda. Não tá feliz nessa casa? Muda. Não tá feliz com essa roupa? Muda. Não gostou do cabelo? Corta. Não quer comer agora? Come depois. Quer comer muito? Come tudo. Não quer pintar a unha? Não pinta. Quer sair na rua pelado? Sai. Todos os meus empecilhos estão no amor e na morte. Esses dois gigantes contra os quais eu nada posso.
Posso dizer que desde sempre amei verdadeiramente pouquíssima gente. De forma geral, me enterneço com as pessoas ao longe, com a arte, com os personagens e os autores da literatura, choro com os livros, com os filmes, com os amores de outros. Mas, quanto a mim, digo com certeza que pouquíssima gente me faz chorar, me comove de verdade.
Durante a minha vida, o amor e a morte caminharam muito juntos. Não sei exatamente por que ou como, mas me lembro de ainda muito criança frequentar muitos velórios. De sentir aquela atmosfera. Já vi muitas pessoas reagirem, cada uma à sua maneira, àqueles corpinhos de seus queridos, agora dentro de uma caixa. Que dor intraduzível. Meus olhinhos de criança, ainda de jabuticabas, olhavam aquilo com espanto. Não entendia nada, mas hoje penso que eu já sentia muito.
Saudade da minha vó, sinto sempre. Há quantos anos não conversamos? Já nem sei mais. A morte dela transformou até a minha percepção do tempo. Se eu quiser saber exatamente a data, preciso sempre me esforçar muitíssimo, porque nunca fica gravado na minha cabeça em que ano aquilo aconteceu. Ainda hoje, em uma quinta-feira qualquer (feriado em São Paulo, por sinal, mas vou trabalhar), me pego pensando em tudo aquilo que ela me falaria, em todas as comidas que comeríamos, em todo aquele aconchego que só as palavras de avó são capazes de nos dar. Minha vó me dizia que eu era diferente do resto da família. Ela me apontava a toalha da mesa da cozinha virada do avesso: tá vendo? Você é assim: tá do avesso... mas ainda é bonita. Quantas e quantas vezes eu me lembrei dessas palavras quando me senti completamente incongruente em todo o lugar que fui? Quem sabe foi isso que me fez continuar a querer alguma coisa, qualquer coisa.
Esse texto pode estar um pouco incongruente também. Enquanto escrevo aqui para vocês, choro algumas lágrimas, de saudade.
Sempre que eu choro a minha vida é de saudade: a mistura do amor com a morte. Essas são as únicas coisas que não ditamos sobre as nossas vidas: quem vamos amar e quando a morte chegará. Essas são as únicas coisas sobre as quais a vida nos lança o desafio de aceitar – e não sem dor. Talvez seja também essa nossa dor quem “dá estilo ao nosso caráter”. Todo o resto a gente dá um jeito. Mas isso, isso não tem jeito. Saudade é saudade, e, quando ela vem, deixo tomar conta.
Ela é mais senhora de nós do que nós mesmos.
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