A vida de uma garota de 30 anos

Pequenos e grandes homens

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Mosaico de Alexandre. c 150 a.C. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Originalmente na Casa do Fauno, em Pompeia.


Nos nossos dias, a história dos grandes homens foi varrida para fora dos livros, e com todos os motivos para fazê-lo. Ninguém mais acredita em uma história que diz que as coisas aconteceram por conta de um só homem, e a vida de um padeiro que trabalha arduamente é, hoje, considerada com tanto valor e tanta história quanto a do presidente da República. Metodologicamente podemos dizer que a História foi destituída de seu trono e, com isso, foi aberto o espaço para muitas outras histórias.

Justiça feita.

Mas não posso negar que eu gosto de ler, quase como por hábito literário, uma história recheada de uma forma de narrar pomposa. Essa forma de narrar a história teve seu início há muito tempo, lá com Plutarco, no século I da nossa era. (Já que estamos falando de abolir os grandes homens, deveríamos abolir também os termos “a.C.” e “d.C”?) Plutarco é o primeiro autor de um tipo de história que se torna quase simultaneamente biografia, e escreveu, entre muitas outras coisas, a sua magnânima coleção intitulada Vidas paralelas.

Nesses textos, a parcialidade, uma vez que constatada logo de cara, passa a não ser mais problema. Ela faz com que o próprio autor se torne também personagem nesse cenário romano do “início dos tempos”. Imagino o letrado Plutarco todo cheio de importâncias e, ao mesmo tempo, sentado no piso frio vestindo só uma túnica, com uma submissão quase zelosa diante dos “grandes homens”.

Em Vidas paralelas, Plutarco rende homenagem a grandiosos romanos ao compará-los com igualmente grandiosos gregos. Diante da coleção, que reúne 23 volumes, salta aos olhos, já que estamos falando dos maiores, a dupla Alexandre, o Grande, e Júlio César.

Deixemos Júlio César para um momento posterior. Primeiro, comecemos, como quis Plutarco, pelo grego. Alexandre, o Grande, foi um imperador conquistador, um guerreiro implacável, um estadista lembrado até hoje como um “caso de sucesso” – mesmo com sua morte prematura e com o banho de sangue que segue o seu nome. Não poderia ser diferente quando se fala de Estados, impérios e conquistas.


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Mas, deixando toda essa balbúrdia um pouco de lado, do ponto de vista da literatura: estamos diante de que tipo de personagem? Filho de Filipe, um rei já muito vitorioso e respeitado na Macedônia, até então “periferia bárbara” da Grécia, com Olímpia, mãe que lembra a deusa Tétis no apoio incondicional ao filho, Alexandre veio ao mundo de maneira predestinada.

Canta o poeta, leonino, a adolescência do garoto, que também nasceu no mês de leão:


Ele escolheu seu cavalo
por parecer indomável
E pôs-lhe o nome Bucéfalo ao dominá-lo
para júbilo, espanto e escândalo do seu próprio pai,
que contratou para seu perceptor um sábio de Estagira,
cuja cabeça sustenta ainda hoje o Ocidente
O nome Aristóteles, nome Aristóteles, se repetiria
desde esses tempos até nossos tempos e além
Ele ensinou o jovem Alexandre a sentir Filosofia
pra que mais que forte e valente
chegasse ele a ser sábio também1


Alexandre, com tamanho professor, não tardou a aprender a amar como Aquiles, e, ainda em sua adolescência, conheceu aquele que seria seu companheiro, Heféstio. Alexandre se tornou também cioso da ética e dos ritos religiosos na mesma medida em que se dedicava para se tornar um general.

Mais tarde, seguindo os passos de Aquiles, seu herói-deus, na véspera do início da campanha contra a Pérsia, Alexandre viajou rumo à Tróia para visitar o santuário do homem de pés velozes. Ali, seu companheiro Heféstio se encaminhou para o túmulo de Pátroclo, companheiro de Aquiles2, enquanto Alexandre, o ainda jovem mas já Grande, roubou a armadura de Aquiles do santuário, a fim de se provar também um semideus. Afinal, certamente os deuses o puniriam se eles interpretassem esse roubo como um ultraje.

Em Grânico, Alexandre comanda sua primeira grande batalha contra o grandioso Império Persa, e sai vitorioso. Seguindo seu faro supersticioso, se encaminha para Górdio, a fim de resolver um problema de outra categoria. Ali, dizia a lenda, quem fosse capaz de desatar um nó que ficava no templo de Zeus seria rei de toda a Ásia. Era o famoso nó górdio, que virou até conceito antropológico nos dias de hoje. Alexandre não desata o nó, mas o corta com sua espada. Se ele não se tornasse verdadeiramente o rei de toda a Ásia, não seria por falta de clamor pelas forças superiores.

No meio da busca pela Pérsia, conquistou o Egito e tornou-se faraó. Sempre teve adoração pelo povo das pirâmides.

Mas, mesmo que seja reconhecido mais pelo seu gênio militar e menos por ser alguém supersticioso e amoroso, Alexandre, leonino que era, tinha mesmo uma questão específica com a lealdade. Quando derrotou Dario III, finalmente conquistando a Pérsia e se tornando rei de um dos maiores territórios já estabelecidos na História, fez questão de realizar, para o seu inimigo, todos os rituais funerários dignos de um nobre. Mas foi além: matou todos os traidores de Dario, que, graças à sua traição, permitiram a vitória dele próprio.

Alexandre se casou, enfim, com a princesa persa Estatira II, e foi propulsor, no rastro que deixou nesses grandes anos, de uma gigantesca mistura dos povos. “Barbarizou” a própria Grécia.


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Um fato curioso enlaça os fatos que se seguirão.

Alexandre, o Grande, media entre 1,52 e 1,65, e certo imperador asiático que fez História e lutava como Alexandre no campo de batalha também tinha a fama de baixinho. Átila, o temido huno que amedrontava os maiores impérios da região, chegou a ficar por um fio com os romanos. Poucos anos depois, o indestrutível Império Romano ruiu.

Átila se posicionava lado a lado com o seu exército, como Alexandre. Ambos gostavam de comandar as tropas de perto. E, principalmente, de lutar, corpo a corpo, nas batalhas. Estratégia suicida? Fato é que dava certo. A coragem contaminava os seus pares e fazia tremer os inimigos. Átila, o huno, é descendente de povos nômades que incutiram tamanho pavor nos chineses a ponto de fazê-los construir a Grande Muralha da China.

Mas a história das grandes muralhas e dos grandes homens ficou para os tempos de outrora e, hoje, todos os homens têm, de forma justa, o mesmo valor. Por isso, as sociedades contemporâneas e o seu ideal de beleza menosprezam qualquer espécime que meça menos de 1,80. É a loucura dos nossos tempos, como tiveram também a sua loucura própria os gregos, os hunos, os romanos.

Não, não quero retornar aos tempos dos grandes impérios e das hediondas violências que os acompanham. Mas reconheço que sempre existirá, em cada quarteirão e em cada dobrar de esquina, os Átilas dos nossos tempos. Incutindo o terror que só os bárbaros são capazes de inspirar. Sei que, ao menos da perspectiva da vida como obra arte, os pequenos homens, de ontem e de hoje, serão sempre capazes de grandes feitos. Eles todos são dignos das grandes histórias.

Quem é que nunca sonhou em ser Alexandre, o Grande, ao menos dentro do próprio coração?


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  1. Caetano Veloso. Alexandre. Livro, 1997. Essa música é uma obra de arte para narrar a vida de Alexandre, o Grande. Se você quiser se aprofundar mais em outras características do famoso personagem, vale a pena ouvir inteira.↩

  2. Para saber mais sobre Aquiles e Pátroclo, leia Fofoca homérica: Ilíada, canto I (Parte 2).↩