A vida de uma garota de 30 anos

Pressão atmosférica

Já comentei com vocês sobre as revisões de História e de Matemática, mas também faço parte do grupo de revisores que pega os materiais de Ciências, Geografia e Português. Hoje, vamos de Ciências!


Sobre Ciências eu sei pouquíssima coisa, e pra mim tudo é novidade. Mesmo com 30 anos de idade, fico como criança enfeitiçada diante das explicações científicas, dos experimentos, dos cientistas. Como é que alguém chega a medir a gravidade, a calcular a distância das estrelas, a captar a refração da luz? Mistério. Coisa de gênio.

Então, essa semana, estava eu aqui a revisar o texto do livro de Ciências do sétimo ano. Em questão de minutos, percebo que essas crianças saberão muito mais do que eu sobre esses assuntos se elas se dedicarem a tal tarefa. Mas, como tenho curiosidade sobre o mundo, quase que uma postura de enxerida mesmo, me propus a ler todo o capítulo com calma, buscando compreender também os conceitos, e não somente revisar o texto. Tomei essa atitude por interesse meu, porque fico boba de ver essas explicações, e também tenho certa dificuldade para entendê-las. Pensei: bom, esse é um livro do sétimo ano, pode ser que eu finalmente consiga entender alguma coisa.

Qual foi a minha surpresa quando me deparei com a explicação do conceito de pressão atmosférica – coisa que a gente acha que sabe tudo até ver alguém explicando com calma para uma criança de 13 anos. Entre explicações, esquemas do experimento de Torricelli, gráficos de altitude e ilustrações, me deparo com a seguinte ideia: quando a gente toma um suco de caixinha e suga, pelo canudinho, todo o ar do interior, não é somente a força dessa absorção que deforma a caixa, mas também a pressão atmosférica. Isso porque a pressão de fora fica maior do que a pressão de dentro, fazendo com que a caixinha fique amassada.

Uau! Isso nunca passaria pela minha cabeça.

Meu choque foi tamanho que fui comentar com um revisor. Eu mostrei para ele o texto revisado e disse que estava chocada com o fato de que é a pressão atmosférica, e não a força da sucção, que deixa a caixinha amassada, que esse livro é genial e que eu tinha sido uma burra por anos a fio. Ele me respondeu: ué, mas a sua impressão também está certa. É a força de sucção e a pressão atmosférica que amassam a caixinha. Não é uma coisa ou outra.

Me escangalhei de rir. Pois é, gente, meu humor é meio estranho mesmo. Pior que ele estava certo. Fiquei tão impressionada com a descoberta que dei todo o crédito para a pressão atmosférica. Mas o que o livro explica é que a ação que fez a pressão atmosférica ficar relativamente maior é justamente o fato da pessoa ter sugado o ar de dentro da caixinha, deixando a pressão lá de dentro menor.

Agora parece tudo meio “papo de maluco”, mas vamos chegar em algum lugar com isso.


Do ponto de vista filosófico, tenho muita admiração pela forma de operar o pensamento apresentada por Gilles Deleuze. Nesse caso, podemos chamá-lo do filósofo do “e”. Ele pensa também como meu amigo revisor: não é uma coisa ou outra, mas quase sempre é um “e”. É a pressão atmosférica e a força de sucção. É a matéria e a ideia, é o real e o imaginário, é a “estrutura” e a “superestrutura”. E por que não acrescentar outros “es”? É o estudo da Filosofia e da Arqueologia e da Matemática e das Ciências e da Sociologia e da Música. É arroz e feijão e macarrão e carne e salada e legumes e até um bolo de sobremesa.

É, como diria outro filósofo, “ir ao encontro, simultaneamente, da sua dor suprema e da sua esperança suprema”1. Poderiam as duas coisas estar separadas? Quanto mais alta for qualquer coisa, maior será a sua sombra2. Isso também é questão de ciência.


Do ponto de vista mais íntimo, emotivo, sincero, como isso se aplica a nossa vida? O que é pressão interna e externa no nosso cotidiano?

Não sei vocês, mas eu, quando estou triste, sinto que tem um peso sentado em cima do meu peito. Eu respiro, saio para caminhar, tento pensar em outras coisas, mas aquele peso no meu peito continua. Nessas horas, eu imagino que meu coração está ficando pequeno, esmagado por aquela coisa que insiste em não sair dali. Agora posso imaginar também que é a pressão externa que está ganhando da minha pressão interna, deixando a minha caixinha de suco toda amassada.

E, aí, penso no que disse o filósofo, nessa sequência de pequenos aforismos.


O que diz sua consciência? — “Torne-se aquilo que você é.”
[...]
A quem você chama de ruim? — Àquele que quer sempre envergonhar.
Qual a coisa mais humana para você? — Poupar alguém da vergonha.
Qual o emblema da liberdade alcançada? — Não mais envergonhar-se de si mesmo.3


Já vimos que o efeito da caixinha amassada se refere à diferença dos valores de pressão: não é necessariamente uma coisa externa ou interna, mas a mistura delas. Por isso, quando o mundo nos esmaga, quando sentimos o nosso peito pesado, quando a vida nos “envergonha”, quando não nos sentimos dignos de amor, quando pensamos que não devemos mais “nos tornar aqueles que nós somos”, na realidade, tudo o que precisamos é aumentar a nossa pressão interna. Pensando nos vetores da Física, temos que devolver a mesma quantidade de força, mas para o sentido e direção opostas.


Hoje minha manhã foi mais calma. Estou conseguindo diminuir o ritmo no trabalho, como prometi a mim. Vou começar mais tarde, com tempo para organizar as coisas que se acumulavam no quarto, na sala, na cozinha, em mim. Dia lindo, faz sol com frio – o tempo que eu amo, vocês sabem. Arrumei a cama com calma, borrifei um spray de chá branco nos lençóis, comi babaganush com pão integral e suco de laranja no café da manhã. Estou conseguindo cortar o café e ficar menos ansiosa e cansada durante o dia. Li coisas maravilhosas, falei com pessoas inteligentes antes de dormir na noite de ontem, e agora estou sozinha, em paz, em silêncio, escrevendo aqui para vocês. Não limpei o godê, porque não o limpo mais. Aprendi que assim é melhor.

Todas essas coisas, esse movimento, esse calor, aumentaram a minha pressão, e, consequentemente, diminuíram o esmagamento que o mundo poderia fazer contra mim. É como disse outro filósofo: a vingança é particular4.


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Essa é a Gaia Ciência, e seu exemplar que hoje está quase se tornando surrado. Lido e relido inúmeras vezes, nos mais diversos lugares, situações, humores, maresias. Há mais de dez anos me tirando de todos os buracos, trazendo correntes de ar novo como decorrência da diferença de pressões atmosféricas. Viva!



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  1. Friedrich Nietzsche. O que torna heroico? A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 165.

  2. Ou, nas palavras dele: “Com o homem sucede o mesmo que com a árvore. Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza – no mal.” Friedrich Nietzsche. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018. P. 40.

  3. Friedrich Nietzsche. Sequência final do Livro III de A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 165.

  4. Filipe Ret. Réus. Vivaz, 2012.