Sobre sonhar com o trabalho
Sonhei que pintei
Minhas noites de amarelo
Lindas estrelas no meu céu eu coloquei
O feio que era feio ficou belo
Até o vento do meu mundo eu perfumei...1
Gente, sonhar com o trabalho é horrível, não é? E aqui não estou falando do “trabalho dos sonhos”, se é que ele existe. Estou falando de dormir, sua cabeça desligar e, ainda assim, você ficar vendo imagens do trabalho enquanto dorme. Recentemente isso voltou a acontecer comigo, e foi aí que me deu esse estalo de PRECISO DIMINUIR O RITMO não importa o quanto isso vai custar. Para mim, creio que nem tanto assim. Para a editora, talvez mais, uma vez que eles montaram um cronograma baseado na exploração desenfreada de todos os envolvidos.
Isso tudo começou a morar na minha cabeça durante a semana passada. Fechava os olhos e, lá quando eu atingia o melhor estado do sono, minha cabeça já começava: <Edição, verificar se a imagem está correta.> <Edição, sugiro a seguinte alteração para facilitar a compreensão do estudante.> <Edição, vocês pediram para fazer de um jeito no original e veio tudo cagado na versão final.> <Edição, por favor, verificar a que horas vocês vão me deixar em paz.>
Eu não sei se vocês têm esse tipo de sonho, mas eu, sempre que pego mais pesado com o trabalho, passo a sonhar com essas coisas. E não pensem que, no sonho, eu sou uma pessoa de corpo inteiro que estou fazendo outras coisas e, de repente, começo a trabalhar. A parada é mais estranha: tudo o que eu vejo é a tela do computador, com centenas de arquivos abertos enquanto alguém – que eu assumo que sou eu – fica digitando aquelas coisas na tela. Eu leio tudo.
Agora já conversei com a minha “chefe”, que, por sorte, também é minha conhecida de outros lugares em que já trabalhei e é uma pessoa extremamente sensata – sim, pobrezinha, em meio à loucura geral que a editora plantou também na cabeça dela. Por isso, estou conseguindo pegar mais leve nos últimos dias, e parei de ter sonhos perturbadores com trocentas abas de PDF abertas e comentários para a gloriosa <Edição>.
Mesmo que eu tenha me livrado momentaneamente dessa perturbação, preciso admitir que tenho essa questão com sonhos desde sempre. Há alguns anos, quando eu fazia a pesquisa, mesma coisa. Não tinha descanso nem quando eu ia dormir, porque sonhava todas as noites que eu estava lendo e escrevendo. Sonhava (ou seriam pesadelos?) que eu ajustava normas ABNT. Acordava, assim como na semana passada, em um estado de completo alerta. Sentia que eu precisava escrever tudo aquilo que eu tinha sonhado (sim, em alguns casos, eu realmente me lembrava do texto do sonho) se não a pesquisa não ficaria pronta.
Vendo de um ponto de vista mais lúdico, distante, cinematográfico, de diretor: quanto dessa pesquisa não foi escrita justamente por que eu sonhei com ela? O azar foi meu, que tive que ser a atriz principal desse monólogo interno, mas que, do ponto de vista do diretor, não deixou de ser também interessante. Perdi as contas dos dias em que vivi essa rotina: acordar, escrever, comer, escrever, tomar banho, ler, jantar, escrever, dormir, escrever no sonho, acordar. A pesquisa deu certo, foi tudo com louvor e tudo mais. Mas depois disso não me sobrou cérebro para ler nem um gibi. Passei mais de ano sem escrever meu nome nem para assinar um “papel de bunda”. Fiquei totalmente descerebrada.
Eu era muito jovem e não percebia em que tipo de situação estava me enfiando. Achava que meu corpo era capaz de tudo, de aguentar todas as minhas ideias. E, por muito tempo, ele foi capaz. O tempo passa e passamos a perceber que temos um corpo. Isso não é fantástico? Porque, muitas vezes, achamos que vivemos sempre dentro da nossa mente. E se vivermos também no nosso estômago, nos nossos olhos, no nosso pulmão, nas nossas pernas? E os quadris, que ficam duros, a coluna, que fica torta, o pescoço, que dói? Tudo por causa do maldito trabalho no computador. Será que o corpo guarda, ao longo do dia, os nossos sonhos? E, de repente, pode ser que os os meus sonhos com a <Edição> não tenham vindo da minha mente, mas da planta dos meus pés, que descobri que também precisam de um relaxamento de vez em quando, em um maravilhoso escalda-pés.
Os meus sonhos são sempre muito vívidos, sempre me lembro de muitos detalhes, sensações, cores. Nossa, como me lembro das cores! Meio à la Tom Zé, em Sonho colorido de um pintor, sei que o fulano do sonho usava uma camisa amarela com uma calça listrada colorida, sei que o chão do quarto era rosa, que o céu estava verde, que a vida era cinza. Me lembro de tudo isso e de mais um pouco. Durante um tempo, no ano passado, passei a anotar os sonhos em um caderno. Enlouqueci. Preenchia cerca de 5 páginas por dia com os detalhes mais absurdos. Parecia que quanto mais eu anotava, mais eu sonhava e me lembrava de tudo. E toda a minha saga do blog não começou também por causa de um sonho?
Sonho recorrentemente que estou em caminhos que não me levam a nada. Que estou perdida no metrô, embarcada em um navio sem destino, procurando a casa de alguém que eu não encontro, em um local totalmente desconhecido que se parece com um labirinto gigantesco. Neles, me sinto como o th, sempre meio perdida, fingindo saber o que não sei, afinal, sou adulta...
Mas sonho também é coisa boa: é doce, é magia, é presságio. Eu tenho uma forma de amor grande. Entre outras coisas, isso significa que eu sou meio “obcecada” com as coisas que eu amo. No meu coração, construo monumentos para tudo que é coisa. Vocês já sabem que, durante a Copa, fiquei tão aficionada que cheguei a sonhar com Messi. E quem sabe hoje mesmo eu já retorno à minha utopia do São Paulo Futebol Clube, depois do jogo contra o Athletico Paranaense – ou seria esse também um pesadelo? Oh, céus!
Mas até nisso há uma vantagem: não será mais um sonho com o trabalho. Viram só? Isso é que é perspectiva!!
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Tom Zé. Sonho colorido de um pintor. Se o caso é chorar, 1972.↩