Promessa
Backbeat, the word is on the street
That the fire in your heart is out
I'm sure you've heard it all before,
but you never really had a doubt1
Kylian Mbappé escreveu uma carta pública de despedida para o técnico vitoriosíssimo da seleção francesa, Didier Dechamps. Entre outras coisas, deixou no ar a promessa de um “final melhor” depois da derrota para a seleção espanhola na semifinal. O problema é que os 4 gols da Inglaterra no primeiro tempo parecem ter feito o capitão francês se esquecer de suas palavras. Foi lembrar só no comecinho do segundo tempo, quando abriu a porteira da possibilidade em um jogo que parecia acabado.
Depois de encarar a Argentina na semifinal, a Inglaterra temia outra virada histórica, que coroaria o vexame do jogo anterior. Resolveu fazer mais. Afinal, não é Wonderwall, a música que embalou essa seleção desde o seu início, também uma invocação da promessa? (Because maybe, you're gonna be the one that saves me2.)
O saldo do jogo foi equilibrado, como a história que enlaça franceses e ingleses ao longo dos séculos. Inglaterra, vencedora da partida. Mas com Harry Kane, a maior de suas estrelas, no banco. Não fez falta: show de Jude Bellingham, Declan Rice, Bukayo Saka, que marcou 3. Saíram com a medalha no peito, mas o olhar de esguelha, como o de quem queria mais.
Do lado francês, derrota, por conta de um primeiro tempo fraco e de inúmeras falhas individuais, principalmente do pintor Michael Olise, que não estava em um dia iluminado. Mbappé, ao fim do jogo, com cara de poucos amigos, reclamão3. Ainda assim, individualmente, vencedor da vida: inscreveu seu nome no panteão dos heróis como o maior artilheiro da história das copas – pelo menos até hoje. Das três competições que disputou, essa foi a sua pior colocação. Aos 27 anos de idade, tem no currículo: campeão, vice-campeão e quarto lugar. Mbappé é a cara da França, a inventora do nosso conceito moderno de História.

E eu? Fico por aqui também a fazer promessas. Prometo para vocês que vou responder todas as mensagens maravilhosas que estão na minha caixa de e-mail. Podem acreditar. Acho que estou só um pouco como Mbappé-e-aliados no primeiro tempo de ontem: precisando de um descanso. Fazer o que se a bola foi parar na rede 4 vezes? Depois a gente corre atrás.
Falando nisso, também preciso prometer para mim que não vou mais pegar tão pesado no trabalho. Fico aqui dizendo que vou responder vocês por e-mail, mas a minha outra caixa não para de encher com demandas do trabalho. Por conta disso, demoro com os e-mails, e, o que é pior, adio outras coisas igualmente importantes para mim. Pois é, estou trabalhando (de novo!) no final de semana. Gente, eu sei: preciso parar com isso. Não adianta nada ficar reclamando das coisas e não mudar de atitude. Final de semana que vem não vou trabalhar, ou vou pelo menos ter dois dias de descanso no meio dessa semana. E aí respondo todos vocês, quem sabe também vou ao museu, ao cinema... coisas que fico me prometendo e nunca cumpro.
A nossa próxima promessa, no entanto, será cumprida hoje mesmo. É a promessa do destino: Lionel Messi e Lamine Yamal em uma final de Copa do Mundo. Um grego fantástico gostava de dizer que o destino é uma criança rolando dados4. Que hoje nós sejamos agraciados, mais uma vez, pelas mãos dessa criança. Que ela nos traga os ventos da boa sorte!

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“Por trás de você, andam dizendo por aí /Que o fogo no seu coração apagou / Tenho certeza que você já ouviu tudo isso antes /Mas você nunca teve dúvida”. Oasis. Wonderwall. (What's the story) morning glory?, 1995.↩
Porque, talvez, você será aquele que me salvará.↩
E isso é uma atitude louca para os nossos mais recentes parâmetros brasileiros de futebol, principalmente nessa edição da Copa do Mundo. Que jogador brasileiro seria como Mbappé, que conquistou tudo para si, e, ainda assim, fica verdadeiramente irritado por ter perdido um jogo? Vejam que eu disse irritado, e não choroso. Chorar faz parte e também faz bem para a saúde. Mas me irrito de ver essa postura extremamente chorona dos jogadores brasileiros depois da derrota. É como dizem as más (ou as boas) línguas: te falta ódio!↩
“O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; governo de criança”. Heráclito de Éfeso. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Editora Cultrix, 1999. P. 39.↩