A vida de uma garota de 30 anos

Nas garras dos leões

Milagre não se faz todo dia. Dessa vez, não deu para a seleção argentina. A Espanha teve a leitura que todos nós, espectadores ao redor do mundo, já tínhamos feito: para derrotar a Argentina era preciso anular Lionel Messi. E isso foi feito, com muita efetividade e sem espaço para discussão. Messi mal tocou na bola. Mérito da Espanha, que se consagrou campeã mundial com um gol marcado aos 110 minutos da prorrogação, em um jogo truncado, tenso, engasgado.

Já disse para vocês que o futebol espanhol não me agrada aos olhos. E eu não me convenço facilmente não, viu? Vocês já sabem, desde o meu texto inicial aqui do blog, que “quanto aos meus gostos, não tenho muito meio termo. Faço a minha seleção.” Pois é, pois é... Ainda não encontrei bons argumentos a favor da Espanha. Dizem do mérito, da formação de uma escola, do trabalho duro, da expressão de uma coletividade etc e tal. E concordo com tudo isso. Agora, daí para falar que eu vou cair de amores... Acho que não.

Comigo, a seleção argentina tem muito mais apelo. Pelo drama, pelo afeto, pela amizade entre os jogadores, pela adoração a Lionel Messi, pela garra de vencer na vida, pela virada, pela vontade de mobilizar alguma coisa em quem a assiste.

Ontem não foi a primeira vez que jogadores argentinos foram chamados de “leões” pelos narradores e comentaristas ao efetuar desarmes espetaculares na boca da área de Dibu Martínez. O leão é associado, no imaginário popular, nas lendas, nas histórias, com a força e a coragem. Mas também com a verdade do coração. Ele é o animal que guarda as costas tatuadas de Rodrigo De Paul e Enzo Fernández – aquele que, no calor da emoção (e também da burrice), foi expulso no jogo mais importante da sua vida. Toda essa mística do simbolismo e do destino nos permitem uma pergunta delirante: seria só coincidência que Messi e Scaloni, o técnico, dividem o mesmo nome leonino, Lionel?

Certamente a defesa espanhola é impenetrável, seus atacantes são eficientes, seu técnico, sábio, inteligentíssimo. Nesse conjunto, tomaram só um gol durante a Copa do Mundo inteira. Mas essa seleção é composta de leões?

Vejam que aqui não me importa a qualidade, mas a emoção. A verdade é que é mais difícil – não impossível, mas certamente mais difícil – escrever sobre aquilo que não nos comove. Rodri pode até ganhar novamente o prêmio bola de ouro e também pode ter saído de campo consagrado como melhor jogador da Copa de 2026. Unai Simón levou como melhor goleiro, Pau Cubarsí, jogador revelação. Tudo isso muito merecido. Mas não é só de mérito que se vive. Fato é que a Espanha ainda não conquistou o meu coração. Azar o meu.


Esses dias, durante a revisão de uma aula sobre História Antiga, relembrei a famosa Guerra do Peloponeso. Me vi diante de um mapa que situava os inimigos. De um lado, Atenas, “dona da razão” e quase proprietária de toda a Grécia, uma vez que cobrava impostos de todas as outras cidades-estado, com seus aliados: Tessália, Mileto, Bizâncio, Rodes. De outro, sob o apelo da revolta de Esparta, Tebas, Estagira, Macedônia. Quando vi essa disposição de forças, pensei: não tinha mesmo como Atenas vencer. Vejam o apelo guerreiro que há do lado espartano. E que caldo histórico foi cozinhado nesses territórios! Tebas, cidade da mais famosa tragédia grega de todos os tempos: Édipo. Estagira: cidade do nascimento de Aristóteles, que seria preceptor de Alexandre, o Grande, da Macedônia. Segundo o poeta leonino, Alexandre também “nasceu no mês do leão”1.

Atenas tem a Tessália a seu lado, terra de Jasão e de Aquiles. Mas seriam eles páreos para essa força voraz capitaneada por Esparta e esse futuro glorioso que se abriria após a derrota ateniense? Aquiles e Jasão são heróis lendários do passado. Esparta erguia o seu arco, tensionando a flecha para o futuro.


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Entre Espanha e Argentina: quem é o futuro e quem é o passado? Ao que tudo indica, no tempo cronológico, o tempo da Argentina já foi. O futuro é todo espanhol, com Lamine Yamal, que não fez lá uma ótima Copa, puxando a fila. Não importa, é campeão mesmo assim.

Mas quando falamos de gregos, de batalhas, de heróis, de divino, de futebol, não falamos somente do tempo cronológico, linear, organizado (o cronos). Há sempre espaço para um tempo que se irrompe com o que é brecha, sorte, destino, força, enfim, com o que é irrepreensível (o kairós). Afinal, é também na Ilíada, de Homero, escrita há milhares de anos, que forjamos a ideia do que é ser um herói, ideias estas que estão presentes até hoje no nosso imaginário. Não importa tanto o tempo cronológico. É kairós. Nessa história fantástica, Odisseu e Ajáx, o mestre da astúcia e o corpo que encarna a força sobre-humana, são, ambos, mestres do arco. Juntos, e, para sermos justos, com a ajuda de Aquiles, fizeram milagre. Derrotaram Troia, a fortaleza impenetrável – tal qual a defesa espanhola.


Dizem que o leão é um grande gato. E também dizem que os gatos têm 7 vidas. Fosse a Copa do Mundo desse ano no formato de 7 jogos, como nas edições anteriores, teria a Argentina se consagrado campeã? 7 vezes Messi, 7 vidas diferentes, 7 milagres. Agora, pedir por 8, já não é demais?

É, Lionel, milagre não se faz todo dia. Mas a sua força e a sua astúcia são tão grandes que nos pegamos sonhando, acreditando, por 120 minutos, que ainda vai dar. Dessa vez não deu. Mas com você, se não é milagre, é sempre o quase. Disse outro poeta, também leonino: a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa2. Valeu, craque! Com você, sempre valeu.


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  1. Caetano Veloso. Alexandre. Livro, 1997.

  2. Ney Matogrosso. A tua presença morena. As aparências enganam, 1983.