A vida de uma garota de 30 anos

[Re: th.blog e mikahgosto] De onde vem o meu amor pelos livros?

O assunto dos livros e da leitura está com a corda toda entre nós, ao lado do futebol e da Copa do Mundo. Ah... como eu amo essa mistura das mais grandiosas artes! E é por isso também que adoro o Bear Blog: nos apresentamos com as mais variadas faces, práticas, gostos, dedicações e interesses – e nada disso parece estranho; é só a gente aqui, escrevendo, criando, deixando sair as coisas da nossa cabeça, sem se importar muito com o que elas são exatamente. E, de vez em quando, damos a sorte de encontrar outros blogueiros que conversam com a nossa proposta, por mais maluca que ela seja. Isso não é incrível!?


Esse texto aqui continua a discussão proposta por dois blogs:1


Pretendo deixá-lo suscinto 2, porque sei que esse assunto permite uma ampliação infinita. Afinal, a questão é “ler e a arte de escrever”, e seremos acompanhados pelos maiores mestres da literatura de língua portuguesa. Isso porque a pergunta feita por th não é nada simples: quando a literatura passou a fazer sentido para você de uma forma diferente?



Fui uma criança muito solitária e os livros me salvaram desde uma tenra idade. Me lembro de ler com entusiasmo A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, com assombro, O país sem nome, de Marco Leal e de me divertir muito com os clássicos para garotas dos anos 2000: O diário da princesa, de Meg Cabbot e Poderosa, de Sérgio Klein (além de suas inúmeras variantes, que se produziram aos montes na época, mas que ficaram menos marcadas em minha memória). Passava horas esparramada no sofá, nas tardes frias, lendo livros e comendo dadinho, aquele doce pequenininho de amendoim.

No entanto, meus preferidos, e aqueles que moldaram a minha imaginação e o meu modo de ser foram, evidentemente, a série Harry Potter, de Hermione Granger (sim, aqui nesse blog, Hermione é plenamente capaz de se tornar a autora dos livros, mesmo aos onze anos de idade, uma vez que aqui não estamos em uma democracia, mas em uma monarquia do meu gosto) e o esplendoroso Senhor dos ladrões, de Cornélia Funke. Como eu queria estar dentro daquele universo criado por elas!

A minha psicóloga começou a assistir aos filmes de Harry Potter pela primeira vez recentemente e tivemos conversas muito engraçadas por conta disso. Outras nem tanto: afinal, será que eu não me sentia meio Harry Potter, debaixo do armário da escada, quando ficava sozinha em casa por horas a fio, me virando e me cuidando com o que eu “sabia”? (e o que exatamente eu poderia saber nessa idade?). O fato é que eu lia sem parar uma saga de não sei quantas páginas aos oito, nove anos de idade e (nossa!), como eu queria ser amiga do Rony, como eu idolatrava a genialidade de Hermione, como eu queria ter a coragem do Harry. Mais pra frente, me encantei por Lupin, Sirius, Tonks, Fred e George e todas as suas loucuras de jovens. Eu queria estar lá dentro, respirar aquele ar frio de Hogwarts. E, portanto, é claro que os livros eram o meu prazer – na realidade, eram eles que me tiravam desse universo solitário e cheio de adultos que não me entendiam completamente. Então, os livros funcionaram na minha vida como o Hagrid funcionou na vida do Harry: eles chegaram no dia do meu aniversário, como um presente inesperado, e me tiraram daquele lugar de solidão para sempre.

Bom, eu cresci, fui prestar vestibular sem saber para o quê. Nem sabia o que eu “queria ser”, mas estudei muito em um colégio rigoroso durante o Ensino Médio. Ali, mais uma vez, os livros eram a minha fuga. Então, ao contrário do meu amigo th, as aulas de Literatura e Português eram a minha salvação. Como eu não queria pensar em qualquer outra coisa, me agarrei à lista de livros do vestibular. Lia, como meu amigo th, no transporte público. Ora a caminho das aulas, ora a caminho de matar aulas. Mas sempre li. Meio que sem saber o porquê mesmo.

O primeiro foi Jorge Amado, Capitães da areia, e eu, como toda garota, me apaixonei perdidamente por Pedro Bala (mas tive também uma queda pelo Gato!). E, mais uma vez, a história de crianças perdidas me envolveu, e me enterneci profundamente com todos aqueles personagens largados aos seus destinos em uma cidade de Salvador extremamente violenta com os marginalizados. Que horror o destino de Sem-Pernas! Nunca me esqueci das páginas que narraram seu feito no Elevador Lacerda.

Depois, a lista foi se avolumando: Vidas secas, de Graciliano Ramos (mestre máximo, primeira prateleira do Brasil), Viagens na minha terra, de Almeida Garrett (Não me recordo de ter lido, pois a professora deu muitos spoilers a fim de “explicar melhor” as idas e vindas da trama porque o autor intercala passado, presente e futuro. Me decepcionei muitíssimo e não li só de revolta.); Til, de José de Alencar (Entendi pouquíssimo, li mais o dicionário do que o livro); Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade (Aqui me senti capaz de entender a poesia. Ah! Que momento grandioso para mim).

O cortiço, de Aluísio Azevedo, também me conquistou. A narrativa intercala a casa de Miranda, o comerciante português, com a realidade do cortiço de João Romão, que fica logo ali, ao lado. As tramoias que se dão entre os dois personagens, o já “bem-sucedido” e o que “deseja ascender na vida” são fascinantes. Azevedo também cunha personagens femininas inesquecíveis que habitam o cortiço, como Rita Baiana, Bertoleza, Pombinha e Leónie. Há também o Firmo3, companheiro de Rita, capoeirista e valente, que sempre enfrentava os portugueses da região. É uma sociologia do Brasil contada em um ritmo de novela das sete. Fantástico!

E, em meu coração, carrego até hoje Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e A cidade e as serras, de Eça de Queiroz (coincidentemente, os dois autores donos de uma das mais fofocadas “tretas literárias” da história). Enfim, dois gênios grandiosos, são eles quem colocaram o sarrafo lá em cima.

Eça aborda um assunto que (agora percebo) me afeta, me agrada e me estimula muito: a diferença entre urbano e rural. E não faz isso com afetações, exageros ou ironia. Rende homenagem às duas possibilidades, ainda que prefira, no final, a vida no campo. Gosto de Jacinto, o personagem condutor, quando ele se encontra imerso na região do Douro (que eu, na minha inocência adolescente, imaginava toda dourada!!). E gosto também de Jacinto cheio de parafernálias urbanas, em Paris, com a vida toda acomodada em palacetes. Tudo nesse livro é lindo, lindo, lindo... Até hoje guardo o meu exemplar surrado, sem capa, lido em 2012.

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Diferente é o meu exemplar de Brás Cubas, como vocês puderam notar na foto acima. Essa versão eu comprei no ano passado. Está novinha, impecável. É como eu sinto que devo tratar Machado de Assis, bastião do Brasil no mundo e quiçá universo afora. Ao ler Machado, entendi pela primeira vez que um livro pode fazer o narrador conversar o tempo inteiro comigo. E que esse mesmo narrador é capaz de me colocar pra dentro do jogo! O leitor é personagem, porque ele também é chamado pra dançar, como se Brás Cubas sempre nos importunasse, nos provocasse: e aí? Vai pensar o que disso que eu falei? Vai fazer o que comigo agora? Vai dormir em paz com essa minha revelação? Como ele é irônico, irreverente, impossível! Em alguns momentos você se acaba de rir, em outros, quer meter-lhe um soco no meio das fuças. Brás Cubas te movimenta. Acrescente a esse mar de emoções outros personagens incríveis, como Virgília, Lobo Neves e o também glorioso Quincas Borba. Nunca me esqueci dos capítulos “XVI – Uma reflexão imoral” e “XXXI – A borboleta preta”. É de uma cretinice mordaz.

Assim como aconteceu com th, a leitura de Brás Cubas me transformou para sempre. O mundo se torna mais vasto depois que lemos Machado. Ele é mesmo irreversível.



Ps.: Mikahgosto, me desculpe! Juro que achei que esse texto fosse conversar também com você. Acontece que eu fui me estendendo demais na parte da literatura, e não consegui inserir as questões da escrita (porque, na minha vida, uma coisa esteve sempre ligada com a outra). Em breve, faço outro texto só sobre isso, porque me inspirei bastante com esse último post que você fez sobre o ato de escrever.


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  1. Adorei essa invenção do livre-arbítrio do th e aproveitei o meu livre-arbrítio para roubar dele! Fica super legal quando queremos responder a algum texto e a resposta seria grande demais para caber em um comentário no Guestbook. Se quiserem ver as respostas dele, cliquem nos links a seguir: re: ruadafeira, sobre o post "Shutter Therapy" e re: blogdoth e semdominio - primeiro jogo do brasil na copa do mundo

  2. Acho que não consegui.

  3. Por quem eu também tive uma queda. Os hormônios da juventude que se apaixonam por todo mundo! Tô me divertindo aqui com vocês ao relembrar todas essas paixonites da adolescência. Nem me lembrava de tudo isso. Notem que nessa época eu tinha um padrão: prefiria os malandros.