A vida de uma garota de 30 anos

Ressaca de Brasil

O futebol altera meu humor mais do que eu gostaria. De acordo com a sabedoria dos astros, todos nós devemos ficar de olho nos movimentos da lua, que fazem oscilar as nossas emoções. Eu, no entanto, consulto também o oráculo da bola: quem vai jogar contra quem? Qual é o estádio que receberá a partida? Qual é a escalação, o resultado, o esquema tático? Quem são os craques? Um olho no horóscopo e outro na página de esportes.

Hoje acordei sem rumo, com aquele torpor da ressaca. Mas não bebi! É o amargor futebolístico que costuma vir depois daquelas derrotas colossais, que nos deixam meio prostrados e meio perdidos na vida. O problema é que não perdemos, e isso torna as coisas ainda mais estranhas.

Sensação de derrota, mesmo sem ter perdido. Por quê?

No futebol, como na vida, gosto de levar tudo até às últimas. E faço uma coisa que considero extremamente contrária à boa saúde e ao bom senso: acompanho as coletivas dos técnicos, assisto às entrevistas protocolares dos jogadores e me informo das últimas percepções dos comentaristas.

Depois do empate de 1x1 contra a seleção de Marrocos, graças ao golaço de Vinícius Júnior, Bruno Guimarães foi questionado pelo repórter ao final do jogo: e aí? Agora é fazer saldo de gols em cima do Haiti no próximo jogo? A pergunta faz sentido, afinal, para o Brasil se classificar como primeiro do grupo vamos depender do saldo de gols1. O meio-campista responde: não podemos prometer golear o Haiti, primeiro temos que ganhar. Eu interrompo mentalmente a entrevista. Pô! Se não vai ganhar do Haiti, vai ganhar de quem?

À primeira vista pode parecer arrogância falar assim da seleção haitiana, que retorna para a Copa do Mundo depois de 52 anos, com certeza, com muita garra. Acontece que no universo do esporte (que emula em tantos sentidos as batalhas) o respeito de verdade vem da vontade de ganhar. Dois times dando o seu melhor: esse é o verdadeiro respeito.

Nesse sentido, podemos imaginar que menosprezamos o Marrocos? Talvez. Alguns comentários antes da estreia ressaltavam a seleção brasileira como se ela fosse a única vencedora possível. Outros diziam que o Brasil não poderia “ter medo” do Marrocos. Acontece que o Marrocos é sim uma grande seleção, que com toda certeza tem seus craques, sua torcida e, acima de tudo, sua qualidade própria. Jogam com inteligência, velocidade e personalidade. Faltou muito arroz com feijão para que o Brasil encarasse o Marrocos de igual para igual. Surpresa? Talvez para quem menospreza o Marrocos ao imaginar que o Brasil não tinha que suar a camisa pra vencer a partida. Marrocos é muito grande? Ou fomos nós que jogamos de forma pequena, fazendo com que essa distância parecesse ainda maior?

Contra o Haiti e a Escócia será preciso jogar pra cima, sem medo, de peito aberto! Bora, Brasil! Cura essa ressaca com um café forte ou com outro porre logo no café da manhã – ainda dá tempo de evitar um banho de água fria, que pode vir mais cedo do que desejávamos. Como nós vamos “bailar” sem altivez?



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  1. A classificação em primeiro lugar é preferível, porque aí evitamos o possível enfrentamento contra seleções fortes como França, Espanha e Alemanha, que ironicamente (e para nos enterrar de vez), emplacou um cabalístico 7x1 contra Curaçao em uma tarde de domingo. Mas Copa é isso. Em algum momento o bicho vai pegar, não adianta calcular muito. No entanto, é preferível o atraso desse tipo de confronto, uma vez que o Brasil parece precisar de mais tempo.