[Caderno de mulheres #1] Louisa May Alcott e suas mulherzinhas
Nota importante: caro leitor, fique tranquilo. Tomei cuidado para não te dar nenhum spoiler, tanto do livro quanto do filme. E, caso você se importe muito com isso, leia também a nota de rodapé nº 7, que te dá coordenadas para outras coisas que você deve evitar para não se deparar com uma revelação precipitada. Vá em paz!
Esse texto inicia o Caderno de mulheres, uma série em que vou ressaltar aspectos singulares da vida de mulheres. Esses textos não pretendem traçar a biografia completa da escolhida da vez e nem buscam elencar todos os seus feitos fantásticos. A dedicação está em encontrar os pequenos tesouros.
Desde que concebi essa série, já tinha em mente que Louisa May Alcott seria o assunto do primeiro texto. E você pode se perguntar: entre tantas mulheres incríveis, por que ela? E eu responderia: porque foi Louisa quem me ensinou a amar as mulheres em toda a sua variedade. Com ela, entendi uma coisa que parece simples à primeira vista, mas que se torna complicada no cotidiano, na lida do dia a dia, nas discussões acaloradas; essa coisa muitas vezes é dificultada pelas questões adjacentes. Mas, se nos agarrarmos ao que é singelo, como gostava também Louisa, seguiremos mais tranquilos. A simplicidade é essa: não existe algo como “a mulher”. Somos compostas de inúmeras possibilidades dentro de nós mesmas e em relação com os outros.
Mulherzinhas (1868)
Em Mulherzinhas (1868), Louisa May Alcott nos apresenta para esse problema simples quando nos permite acompanhar a vida das quatro irmãs March: Meg, a mais velha, cuidadosa, dedicada e sonhadora; Jo, a espevitada que tinha vontade de ser menino; Amy, vaidosa e cheia de frufrus; e Beth, dedinhos pequenos e puro amor. Todas vivem sob o teto da mãe, a sra. March, e são vizinhas de Laurie, um garoto que se torna seu fiel escudeiro em suas peripécias e criações.
Ao longo da história, acompanhamos essas pequenas garotas se transformarem em jovens mulheres, percorrendo os caminhos da amizade, do amor, da perda, da luta, da vida. Mesmo irmãs, se mostram extremamente diferentes umas das outras. Mulherzinhas faz emergir essa diferença de maneira deliciosa e aconchegante, e rende homenagem à singularidade que é o universo de cada garota.
Cada uma possui uma ambição diferente: Jo quer insanamente ser escritora, e, à luz de velas, trabalha suas habilidades com afinco no interior de seu quarto do sótão. Meg deseja construir uma vida com seu companheiro, ter filhos e uma casa quentinha de amor. Quer ser feliz em meio à produção de geleias e gordos bebês. Amy almeja se tornar uma pintora de sucesso, conhecida por toda a Europa; estuda muito para atingir seus objetivos e não se deixa diminuir por visões simplistas que a encaixotam no rótulo de “moça bonita e fútil”. Beth adora tocar piano e busca estabelecer sua vida em torno do amor das irmãs e da família, sempre focada em garantir o cuidado com a sua frágil saúde.
No entanto, a maestria de condução da autora não nos deixa sossegar: ela quer nos mostrar que cada uma das garotas é diferente também em si mesma. Por isso, elas se contradizem, discutem umas com as outras, mudam de ideia, arrastam confrontos até as últimas consequências, sem medo. Se revolvem com os amores, os desejos, as ambições. E se amam profundamente. Cada vez mais. Quanto mais facetas vemos de Meg, Jo, Amy e Beth, mais as amamos em suas várias formas, mais entendemos aquelas garotas e mais procuramos entender de nós mesmas. E, jogadas no mundo na companhia de Louisa May, descobrimos que o mundo das mulheres é vasto.
Adoráveis mulheres (2019)
Mulherzinhas é um livro tão clássico que possui cinco adaptações só para o cinema (1933, 1949, 1994, 2018 e 2019). O número se multiplica quando consideramos musicais, telenovelas, documentários e até animes. Inúmeras atrizes deram vida à forte Jo March, inclusive Winona Rider, em 1994. O último lançamento nas telonas é de 2019, dirigido por Greta Gerwig, e, em vez de “Mulherzinhas”, recebeu o título Adoráveis mulheres. A mudança é compreensível, uma vez que “mulherzinhas” pode soar, nos dias de hoje, como uma “diminuição” das “adoráveis mulheres”. E, ironicamente, às vezes sentimos que hoje, mais de 150 anos depois do lançamento do livro Little Women, nos Estados Unidos, precisamos (ainda mais!) de engrandecer as mulheres diante da nossa realidade brutal. Triste constatação.
Mas esse diminuitivo (“little”, “mulherzinha”) não é colocado por Louisa a fim de menosprezar as mulheres. Vivemos a vida com as irmãs March desde a sua infância, onde se mostravam molecas, dengosas, amorosas, choronas, brincalhonas, intensas, a todo vapor – daí o carinhoso diminutivo. Não eram ainda “mulheres”, eram “só garotas”. À medida em que crescem, admiramos suas conquistas, suas grandezas, a construção de sua fortaleza. Mas continuamos maravilhados, ainda, com a fagulha própria daquelas meninas. Quando crescemos, principalmente nós, mulheres, nos perdemos em busca de uma seriedade para que o mundo nos reconheça. Isso não é errado, a vida às vezes é assim. No entanto, penso que sempre que possível devemos nos voltar para essa “mulherzinha” que reside em nós. Recuperar o brilho no olhar, a bochecha rosada de tanto correr ao ar livre, a gargalhada solta. Coisas de garotas.
O uso do diminutivo para tratar as mulheres não é pejorativo e se comprova com a continuação do sucesso, quando Louisa May lança Little Men (“homenzinhos”). E, por falar neles, devemos inclui-los também na história: como Alcott concebia os homens nesse universo feminino? Afinal, eles estão sempre lá!
Laurie, o vizinho das irmãs March, é o responsável por conduzir a visão masculina diante de tal cenário. E qual é a surpresa quando compreendemos que Laurie queria ser aceito por aquele grupo formidável. E, para isso, ele teve que provar o seu valor nos termos das próprias garotas. Uma vez colocado para dentro, ele se torna uma delas. Seu leal amigo e admirador, Laurie é também responsável por dar-lhes o impulso para voar em direção aos lugares mais longes. E, do ponto de vista da aparência e da personalidade, é caracterizado como um ser andrógino, um homem “afeminado”, e, ainda assim, heterossexual – mostrando, em 1868, que uma coisa não tem nada a ver com a outra! Uau! Que vigor.
Quando assisti a Adoráveis mulheres (2019), simplesmente caí dura quando me deparei com a atuação de Timothée Chalamet, ator que deu vida ao amado personagem. Mesmo com outros trabalhos de peso anteriores ao filme, como Interestelar (2014) e Me chame pelo seu nome (2017), foi aí que me rendi a Chalamet. Ele é exatamente como a gente imagina Laurie ao ler o livro. Simplesmente impressionante.
Ainda que mais recentemente Chalamet esteja em busca da imagem de “muito macho”, é sempre bom lembrar que ele ganhou as pessoas com a sua atuação em papeis de homens que se livraram dessa gaiola. Essa imagem de “muito macho” é a cara da derrota. Por isso, desconsidero. Também com Louisa May, aprendi a deixar dentro de mim o melhor da vida. O que é pior, deixa pra lá.
O problema do conservadorismo é esse: quanto mais conservador é um governo, um modo de vida, uma sociedade, mais acontece uma guinada de todos os setores rumo ao conservadorismo. Todos precisam se adequar um pouco ao que é esperado, e todo mundo dá “um passinho para a direita”, de forma a se tornar mais “palatável”. Uma pena! Mas sempre há quem resista. Torço para que em breve Chalamet se recorde de seu amigo Laurie. Eu diria que ele nem está tão longe assim. Arriscaria imaginar que ele reside em algum lugar no seu interior... afinal, eu vi!! Tá gravado!!!
Outras mulheres
Centenas de escritoras ao redor do mundo idolatram Jo March e consideram o momento em que a encontraram como o seu primeiro grande lampejo diante da possibilidade de escrever de verdade. Ladybird (2017), que tem a atriz Saoirse Ronan no papel principal1, rende sua homenagem à Jo March. Jo também é associada pelos fãs de Gilmore girls ora com Rory, ora com Lorelay. Jo é forte, obstinada e parece até impossível que tenha sido imaginada pela cabeça de uma mulher em 1868. É revolucionária demais para a sua época e também para os dias de hoje. Mas se tem uma coisa que Louisa May nos indicou é que Jo não é um modelo obrigatório que deve ser seguido, porque cada mulher tem o seu universo próprio. Todas as irmãs seguiram os seus desejos, suas ambições igualmente grandiosas, justamente porque verdadeiras.
Nesse sentido, vemos que as referências à obra de Alcott não se resumem à grandeza da personagem de Jo March. A própria Rory Gilmore (de Gilmore girls) defende o livro Mulherzinhas em uma das discussões com Dean, seu namorado, sobre seu gosto literário. Simone de Beauvoir escreve em sua autobiografia: “existia um livro que eu acreditava ter me feito vislumbrar quem seria no futuro: Mulherzinhas, de Louisa May Alcott.”2 E Patti Smith, em Só garotos, corrobora o impacto apresentado por Beauvoir: “foi Louisa May Alcott quem me proporcionou uma visão positiva do meu destino feminino.”3
Por falar em destino feminino, é possível também interpretarmos os rumos da vida de Emma Watson depois de ter interpretado Meg, a mais velha das irmãs March, em Adoráveis Mulheres (2019), sob a influência dessa perspectiva inspiradora. Emma é famosa por ter vivido toda a sua infância nos sets de Harry Potter e ter seguido uma carreira meteórica em cima de sucessos cinematográficos4. Recentemente, a atriz deu uma entrevista5 em que, entre muitas outas coisas, explicou os motivos de ter se afastado dos sets de filmagem. Frustrações e tristezas à parte, Emma tinha mesmo é vontade de ser outra coisa. No final das contas, ela é meio Hermione Granger mesmo, e queria estudar na universidade. Retornou para a academia, iniciou e finalizou o mestrado e agora é doutoranda em Filosofia. Emma, como Hermione, é grande cultivadora de livros. Como parte da campanha de divulgação do filme, espalhou mais de 2 mil cópias de Louisa May para comemorar a sua estreia6. Não me recordo de ter visto alguma declaração de Emma sobre essa questão, mas gosto de imaginar que Louisa May deu o empurrão final para que ela conseguisse se libertar do destino imposto pelo ritmo alucinante de Hollywood, em busca do caminho do seu desejo. Adoráveis mulheres foi seu último filme.
E, para coroar Louisa May com todas as flores do mundo, Mulherzinhas atingiu o patamar máximo que um clássico pode alcançar: de tão clássico, tornou-se extremamente popular. A prova incontestável é o episódio 13 da 3ª temporada7 de Friends, que retrata de forma bem humorada a relação de Rachel Green e Joey Tribianni com o livro de Alcott. Os dois amigos decidem trocar seus livros favoritos para verificar qual deles é melhor. Rachel fica obcecada com O iluminado, de Stephen King, e Joey surpreende o público ao ficar apaixonado por Mulherzinhas.
Louisa May criou, modelou e espelhou o mundo e o imaginário de garotas, mulheres e mulherzinhas, desde o lançamento de seu primeiro sucesso mundial até os dias de hoje. Ela se encontra, no coração daqueles que conhecem a sua obra, à altura dos grandes pensadores estadunidenses. Portanto, homens, façam-me o favor!!! Leiam Mulherzinhas, como Joey Tribianni, e tenho certeza que, assim como ele, vocês vão devorá-lo. Só não se esqueçam que Jo é uma mulher.
Ross: umm, então, Jo é uma garota, é o apelido de “Josephine.”
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A título de curiosidade: Ladybird (2017) e Adoráveis mulheres(2019) se entrelaçam muitas vezes, tanto na história que os filmes contam quanto nos bastidores. Saoirse Ronan interpretou Jo March, em Adoráveis mulheres, e Christine McPherson, a “Lady Bird”, em 2017. Timothée Chalamet contracenou com Saoirse nos dois filmes: em Ladybird, como Kyle Scheible, e em 2019 encarnou o aclamado Laurie. Greta Gerwig também esteve na direção dos dois filmes. Estaria ela, em Ladybird, avançando silenciosa e vagarosamente rumo à direção grandiosa que fez em 2019?↩
Simone de Beauvoir. Memórias de uma moça bem comportada in Elaine Showalter. Introdução. Mulherzinhas. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2020.↩
Patti Smith. Só garotos. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.↩
Emma viveu variadas personagens em um leque que abarca das garotas rebeldes em As vantagens de ser invisível (2012) e Bling Ring (2013) às princesas da Disney, em A bela e a fera (2017).↩
Jay Shetty Podcast. EMMA WATSON EXCLUSIVE: The TRUTH I Have Never Shared Before. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2caQ4j9oohE.↩
Rolling Stones. Emma Watson espalha 2 mil cópias do livro Adoráveis Mulheres pelo mundo em campanha por leitura. Disponível em: https://rollingstone.com.br/noticia/emma-watson-espalha-2-mil-copias-do-livro-adoraveis-mulheres-pelo-mundo-em-campanha-por-leitura/.↩
ATENÇÃO! Se você não quiser contato com nenhum spoiler sobre o livro e o filme, não assista ao episódio 13 da 3ª temporada de Friends. Como forma de revidar uma atitude de Joey, Rachel conta quase tudo do livro para ele!! Ele fica indignadíssimo, assim como você ficaria, leitor, ao tomar um spoiler de graça assim.↩