A vida de uma garota de 30 anos

Páginas do meu sketchbook #3

Vocês já sabem que eu amo animais e que eu também amo animações. Agora, fiquem sabendo que eu também amo William Shakespeare e vejam como é inevitável, para mim, amar também O rei leão (1994).

Hoje, vamos com algumas páginas do meu sketchbook que estão relacionadas a essa grandiosa animação da Disney, que é mestre em fazer animais falarem de maneira extremamente convincente.



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Nessa primeira página, temos, do lado direito, dois estudos que eu fiz utilizando como tutorial o canal da própria Disney. Gente, eu prometo para vocês que é tão fácil que se você seguir o passo a passo muito provavelmente vai chegar em um resultado melhor do que o meu.

Do lado esquerdo, temos uma primeira tentativa de desenhar Simba da minha cabeça, mas acho que ele ficou humanizado demais, um pouco estranho. Ao redor dele, há novos testes de aquarela e também alguns traços desengonçados de anatomia felina.

Deixo aqui com vocês o link para a série “Como desenhar”, que tem 56 vídeos e muitos personagens amados.



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Nessa segunda página, os estudos foram feitos com base no canal de ninguém mais ninguém menos que Aaron Blaise, o supervisor de animação do filme O rei leão. É incrível como esse homem, com vasta experiência em filmes como A bela e a fera (1991), Aladdin (1992), Pocahontas (1995) e Irmão urso (2003), além, é claro, do grandioso Rei Leão, tem simplesmente um canal no YouTube para nos ensinar milhares de coisas, por mero prazer.

Vou deixar aqui com vocês o vídeo em que aprendi a não somente desenhar uma chita em movimento, mas a observar o seu comportamento, suas características, suas proporções. Aaron explica tudo isso e muito mais em seu canal, de graça, mas, infelizmente, em inglês. São horas e horas e horas das mais apaixonadas aulas de animação, da vida animal, de desenho. Vale a visita!




Mas, como vocês já sabem, não somente de cópia se vive. Precisamos também criar!

Foi então que me recordei da famosa associação entre O rei leão e Hamlet, de Shakespeare.

Li com muita voracidade as peças desse dramaturgo durante a faculdade, principalmente para estudar Política: Machbeth e Hamlet, pff! Perdi as contas de quantas vezes li e reli aquelas passagens. A tempestade? Amei de paixão. Isso porque Shakespeare sabe abordar os caminhos da nobreza, da lei, da formação do Estado, da tragédia e da comédia nas quais esse movimento da vida humana está envolvido. E, assim, toda a perspectiva de Maquiavel, Hobbes e demais companheiros toma outros ares, ganha outra dimensão – a dimensão também da arte.

Por isso, sempre imaginei Hamlet como um ser muito mais violento e rebelde do que o Simba, que é, digamos, a sua “versão Disney”. Não, por mais que pareça, isso não é uma crítica à Disney. Para aquele propósito, Simba cumpre muito bem o seu papel. Porque, digamos, sinto que não é o desejo da Disney representar essa perturbação que vos transcrevo agora.


A hora já chegou da maldição noturna
Quando abrem-se os sepulcros e o ínfero exala
Miasmas pelo mundo. Eu poderia agora
Engolir sangue quente e engendrar o que o dia
Tremeria só de ver. Quieto. Vamos lá.
Meu peito, não atenta contra o ventre. Não
Deixe a alma de Nero alojar-se em teu seio,
Que tu sejas cruel, mas não contra a matriz.
Eu vou cuspir punhais, mas não utilizá-los.
Que a minha língua e alma ajam como hipócritas,
Por mais que eu a censure com frases sem tato,
Alma, não me permite que eu o sele com atos.1


Vemos, portanto, que esse trecho que Hamlet recita solitário reflete um mal que qualquer um de nós pode sofrer, mas que o leva às últimas consequências da sua quase-loucura: a diferença entre o pensar e o agir, entre as palavras e os movimentos.

Hamlet é uma figura extremamente jovem dividida entre as suas palavras mais violentas, seus anseios mais tenebrosos, e a sua capacidade de agir, de tomar partido de suas dores, de fazer jus ao que sente por meio de seus atos.

Seria ele, então, um covarde? Talvez.

Mas vejamos também o contexto no qual se insere: a constituição das monarquias europeias. Aqui, qual é o preço da coragem? Qual é o abrigo que se tem? Nenhum! Dentro da própria família, como nas máfias italianas que formaram os principados e os estados italianos, é cada um por si!! Tudo isso estuda também Maquiavel! A formação do Estado tem como base, junto com o banho de sangue popular, a matança entre nobres do mesmo sangue.

É a partir daí que Hamlet pensa e age.

Sempre me saltou aos olhos que Shakespeare descreve Hamlet utilizando vestes pretas. Ao meu modo millenial, sempre li essas vestes como uma coisa meio punk-rock, desconjuntada, avessa àquela realeza toda, marcada por seus brasões multicoloridos. É porque ele é, como Simba, alguém que fica, por um tempo, do lado de fora.

Por isso, nessa última página, quis trazer para o nosso amado leão-príncipe um tom de punk-rock, uma atitude mais revoltada, brincos e piercings, tatuagens de amores exagerados. Enfim, vejam o resultado.


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Eu sempre imagino que vou fazer um texto mais simples, mas acabo aqui falando pelos cotovelos com vocês. A minha cabeça!! Meus amigos, como ela gosta de viajar!! Que delícia poder relembrar essas palavras de meu amado Hamlet na manhã de hoje. Não as leio há uns bons anos.

Mais uma vez, obrigada pela companhia e pelas possibilidades que vocês me dão.

Ultimamente estou sentindo uma vontade grandiosa de voltar a estudar, quem sabe até voltar a fazer pesquisa de maneira mais firme... veremos. Por enquanto, como Hamlet, essas são apenas as minhas primeiras vontades, meras palavras, pensamentos. Quem sabe a minha alma me permita transformar tudo isso também em ação, uma vez que eu não sou nenhuma pessoa importante de um principado fadado ao fim.


Beijão,

Uma garota de 30 anos



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  1. William Shakespeare. A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015. p. 129.