Uma segunda-feira muito louca
The green eyes
Yeah, the spotlight
shines upon you
And how could
anybody
deny you?1
A maioria das pessoas costuma odiar as segundas-feiras2. E há quem diga que, na realidade, não odiamos as segundas-feiras, mas o capitalismo. Nunca tive nenhuma questão especial contra a segunda-feira, mas tenho, sim, todas as questões especiais contra o capitalismo. No entanto, não quero passar uma impressão equivocada com o título desse texto. Vocês podem imaginar que a minha segunda-feira “muito louca” foi uma coisa assim muito rock n’ roll. Na verdade, ela foi estranhamente calma e agradável – na medida do possível – e é isso o que faz dela uma segunda-feira muito louca. Vou lhes relatar tudinho o que aconteceu no dia de ontem, e me digam vocês o que pensam depois de ler com seus próprios olhos.
Passei boa parte desse dia sozinha, o que, recentemente, tem sido uma benção. Por conta dessa solidão, pude interromper o meu trabalho e fazer um almoço do meu jeito: no meu horário, com as comidas que eu quero, da forma que eu quero. Pude acumular uma pilha de louças que lavei só depois de comer o almoço – e não correndo para otimizar e lavar a louça ao mesmo tempo em que cozinho. Pude até fazer batatinha frita na air fryer, coisa que amo de paixão e não faço há não sei quantos meses.
A cozinha aqui em casa está sempre sob domínio de alguém e, para adentrar ali, é preciso incorporar todos os seus rituais. Cortou um queijo torto? Toma comentário. Guardou as sobras em um “pote errado”? Tem que guardar tudo de novo em outro lugar. Usou qualquer colher para pegar o arroz na panela? É preciso trocar pela colher “correta” para pegar arroz na panela e lavar imediatamente a que foi utilizada. E não pensem vocês que eu sou o tipo de pessoa sem noção que raspa talheres de metal no fundo de panelas de Teflon. Não é nada disso!!! É que, entre todas as colheres de plástico devidamente apropriadas, existe apenas uma que é a “correta”. Gente... pensa em uma coisa que me mexe com os meus nervos. Por isso, uma simples refeição rapidamente se torna motivo de briga, e briga feia.
Mas não nessa mágica segunda-feira. Fiz as minhas batatinhas, a minha abobrinha com tomates e cebola, esquentei o meu arroz e o meu feijão. Preparei a minha salada de alface e cenoura ralada, acrescentei uma farofa. Por fim, a estrela do prato: um robalo pescado pelo meu pai ontem mesmo, com sal, pimenta, limão e fubá, para fazer a casquinha. Almoço “de Paris”, como diria uma das minhas primas. Para ela, Paris é o auge do sucesso, o suprassumo do bom gosto. Dizer que algo é “de Paris” é o melhor elogio que ela pode dar para as coisas. Eu acho isso o máximo. Adoro essa expressão. E uso para tantas coisas que não seriam “de Paris” nem aqui, nem na China.
Depois do meu almoço “de Paris”, as coisas no trabalho começaram a degringolar. Estamos naquele período em que todo mundo está tão surtado, tão anestesiado de trabalhar o dia inteiro, tão maluco dentro de sua própria cabeça que tudo se tornou um grandessíssimo tanto faz. O que importa é tocar o barco. E assim vamos. Para onde? Pouco importa.
No meio de milhares de mensagens, áudios do WhatsApp e e-mails alucinados, decidi que pra mim já deu. Saí para fazer uma caminhada ao som de Eminem. Sempre que fico com sentimentos muito intensos guardados em mim eu faço isso. Tem algo que só esse homem é capaz de extrair de nós. Nessas caminhadas, toda essa coisa que me possuiu vai saindo do meu corpo conforme ando na maior velocidade que posso. Devo parecer uma doida na rua, com meus fones de fios balançantes, uma garrafa de água e o passo acelerado, como se corresse atrás de um ônibus que partiu. Ônibus que nada, estou correndo atrás é de uma versão de mim que está livre de todas essas bobagens!!
Conforme a coisa foi saindo de mim, parei no meio do caminho para olhar cacarecos em uma loja de utilidades. Ironicamente, comprei uma vela muito cheirosa que me garante uma experiência de relaxamento. Depois, peguei meu tapete de yoga e desci para o pátio às 17h, meio que assinando embaixo de qualquer coisa que decidissem lá no trabalho. A essa altura do campeonato, tudo o que me importa é manter a minha mente minimamente preservada.
Yoga finalizada. Deitei e fiquei olhando para o céu em silêncio. Essa é uma foto do céu que eu vi.

Eu amo essa lua. Desde criança eu a chamo de “lua do gato risonho”, por conta do personagem de Alice nos país das maravilhas. Ela sempre me faz sorrir de volta.
E, ontem, o gato preto, aquele mesmo que me rondava no outro dia em que eu também fiquei deitada olhando para o céu em silêncio, apareceu de novo. E me rondou de novo. E permaneceu deitado ali perto. Eu e ele, cada um na sua.
Me lembrei da música “Green eyes”, do Coldplay, que eu amo e não escuto há muito tempo. Cantei baixinho enquanto o céu ia ficando cada vez mais escuro.
Voltei para casa e jantei um resto de lasanha que tinha pedido no delivery na noite de domingo. Estava divina. E, depois que decidi que meu dia estava prestes a ser finalizado e eu estava liberada para me jogar no sofá, fui perguntada sobre a reunião de condomínio: “você vai descer lá na reunião?”.
Nunca fui a uma reunião de condomínio, mas recentemente estive com um problema que envolve também outras pessoas e, por isso, seria interessante tratá-lo na tal reunião. Na verdade, esse problema não é só meu, é do condomínio como um todo – dos moradores e dos funcionários.
Há alguns meses, um restaurante foi inaugurado muito próximo ao prédio em que eu moro. Esse restaurante usa um fogão a lenha, em um lugar muito pequeno, e não tem nenhum tipo de filtro em seus exaustores. Isso significa que toda a fumaça daquele churrasco é jogada, o dia inteiro, para os céus, de qualquer forma. Ninguém aguenta mais. É o dia inteiro aspirando cheiro de fumaça e de lenha queimada.
Tenho conversado com os meus amigos, M. e S., porteiros no período em que o restaurante fica aberto. Os dois, miseráveis com a situação. Eu, que trabalho em casa o dia inteiro, mal posso abrir as janelas das 11h às 23h. Imaginem vocês como ficam os dois coitados, que trabalham praticamente lado a lado com o lugar em questão.
Conversa vai e conversa vem com vizinhos nos elevadores, corredores, encontros de final de semana. Fui sondando cada um de meus conterrâneos e, aos poucos, notei que todo mundo estava com aquele incômodo entalado. Era só jogar o papo: “e aí, tá sentindo esse cheiro?” e, automaticamente, a pessoa já sabia do que eu estava falando. Se tornava rapidamente a minha cúmplice. Me contava histórias e mais histórias sobre a invasão da fumaça em sua casa, no seu quarto, no banheiro, na cozinha. Dizia que o cheiro impregna nas cortinas, que a fuligem cobre os móveis. Se queixava de enxaquecas, ardência nos olhos. Uma coisa horrorosa.
Fui então me tornando, a cada dia, uma pessoa mais indignada. Eu não gosto de sentir indignação, porque, a meu ver, essa palavra carrega também certa dose de impotência. E foi assim que decidi comparecer à minha primeira reunião de condomínio. Fazer algo que me aumentasse a potência: agir, de alguma forma, diante do problema.
Não que ir à reunião seja algo “demais” na minha vida. Afinal, conheço a maioria de meus vizinhos há uns bons anos, sempre troco palavras gentis com eles, sou uma pessoa, em geral, agradável. Mas nunca os tinha visto assim, em um ambiente de assembleia. Já ouvi, claro, muitas histórias sobre assembleias contadas pelo meu pai, que participa de todas, e meus vizinhos, que também estão lá. Eles formam a comunidade do prédio. Eu sou apenas alguém que mora ali, mas que não compõe de fato a tal comunidade. Enfim, sou mais algo como “a filha de um dos vizinhos”.
Mas não aguentava mais sentir o bendito cheiro todos os dias. Me compadecia de M. e S. trancados na portaria. Pensei no verão, em como essa questão pode piorar quando não tivermos mais ventos e ficarmos todos sufocados pela tal fumaça, que não vai ter para onde escoar. Etc. etc. etc.
Quando cheguei lá, conversei com o síndico. Perguntei se essa questão estava na pauta. Ele me disse que poderia entrar como uma pauta final, depois que fossem resolvidas as já estabelecidas. Agora, essa parte é engraçada, porque o síndico daqui é extremamente descolado. Eu também o conheço desde que sou menina, lá pelos meus 9 anos. Mesmo nessa época ele já era descolado. Nunca deixou de sê-lo. Comandou a reunião com os braços tatuados, o boné de aba reta, os tênis da Vans, a calça de skatista. E todos os membros da assembleia, em sua maioria idosos, nos altos de seus cabelos brancos, o respeitavam, lhe solicitavam os orçamentos, as atas, as avaliações, as opiniões. Foi uma cena um tanto inusitada de se observar.
Ao mesmo tempo, enquanto discutiam as pautas, uns falavam em cima dos outros, enquanto eu me mantinha em observação até chegar o meu momento de propor. Havia certa tensão no ar que parecia inquirir se alguém viria colocar uma oposição, um questionamento sem resposta, uma pedra no sapato. Nada. Todos concordando com tudo, mesmo que tivessem, sim, os seus pitacos para dar. Rapidamente se resolviam e todas as pautas iniciais foram dadas por encerradas.
Quando foi a minha vez de falar, no final da reunião, também todos concordaram em um piscar de olhos. É, ninguém aguenta mais essa fumaça. Se prontificaram a tomar variadas ações. Fiquei impressionada. Saí de lá aclamada, me falaram que eu “arrasei”. Todos ficaram extasiados também porque a reunião foi livre de polêmicas, cheia de concordâncias. Debates que chegam a durar 3 horas, dessa vez, foram encerrados em 45 minutos. 5 pautas bem resolvidas, todos de acordo com tudo. Beijos e abraços ao final de um dia calorento, em pleno inverno, e defumado, por conta da churrasqueira do restaurante vizinho.
Foi ou não foi uma segunda-feira muito louca?
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“Os olhos verdes / Sim, os holofotes / brilham sobre você / E como poderia / alguém / rejeitar você?”. Green eyes. A rush of blood to the head. Coldplay, 2002.↩
Coincidentemente, a Bruna escreveu um texto que diz que “coisas boas também acontecem em segundas-feiras”, no blog Fala, Catarina!.↩