A vida de uma garota de 30 anos

A Copa do Mundo está comprada

É verdade. Fui eu que comprei pra dar de presente pro Messi.

Fui eu que comprei Harry Kane, em seu ano de possível bola de ouro. E Jude Bellingham, em sua luta para se tornar artilheiro da edição. Eu que aconselhei Thomas Tuchel, técnico dos ingleses, a fazer da Inglaterra uma seleção de zagueiros, faltando 30 minutos para o jogo acabar e com um mísero gol guardado no bolso. Eu que falei para ele: não convoca Phil Foden e Cole Palmer, eles não fazem a diferença. Será?

Na verdade, fui também eu que soprei no ouvido de Breel Embolo, jogador suíço, que valia a pena simular uma tremenda falta no meio de campo, 5 minutos depois de sua seleção empatar contra os argentinos e crescer no jogo. Já amarelado, acabou sendo expulso.

Eu que falei para Attia, o jovem jogador egípcio, cometer falta na roubada de bola sobre Lisandro Martínez, resultando na anulação do gol de Zico, o glorioso jogador que faz homenagem, com seu nome, ao eterno Zico do Brasil, do Flamengo. Eu que sugeri que Mohamed Salah, camisa 10 e capitão-faraó, deveria perder a bola na boca da área argentina, proporcionando um contra-ataque impossível, aos 92 minutos de jogo.

Fui eu que falei para os egípcios levarem uma virada histórica e inacreditável de 2 x 0 para 2 x 3 em apenas 12 minutos. E também fui eu que pedi para a digníssima seleção de Cabo Verde abrir mão do seu sonho.


Ahhh, para, gente! A gente já está parecendo aquele vizinho ressentido que fica esperando o outro arrastar o móvel para reclamar do barulho. Ou, ainda, aquele ranzinza que não gosta de Carnaval e fica imaginando que todo mundo que curte é depravado. Pera lá! Todo mundo tem direito de não gostar de festa, de querer ficar em casa e fazer do Carnaval o seu feriado prolongado de filmes e pipocas. Ninguém é obrigado a se juntar aos bloquinhos, a se envolver no tumulto, a beber até passar mal, a sair beijando desconhecidos. Mas daí para dizer que todo mundo que faz isso é pecador... há um grande salto!

Time nenhum faz o que a Argentina fez só com ajuda de juiz. E fez não uma, duas, três, mas quatro vezes. Em quatro jogos mata-mata, com os nervos à flor da pele, com o nó entalado na garganta, com a figa da sorte feita nos dedos de milhões ao redor do globo. Jogos que foram, para qualquer um que assistiu, regados a drama, superação física, desgaste, perdição, desforra. Só não curte quem não quer.

No futuro, não quero que me digam que sou saudosista. Não quero estar daqui a 10 anos falando, com nostalgia, que “nos tempos de Messi é que era bom”. Por isso, quero viver Lionel Messi enquanto posso, enquanto ele joga. Torço, sim. Não tenho nenhum apreço por criar amarras para o que diz o meu coração. Do ponto de vista racional: sabemos que somos privilegiados com a mera possibilidade de apreciar tudo o que esse craque faz.

E digo mais: se a questão é arbitragem, tomemos como exemplo o maior jogador brasileiro de todos os tempos. A nossa geração não viu Pelé, mas é conhecida a história que conta que o rei já expulsou até juiz de campo. Em Bogotá, a torcida colombiana ficou furiosa com o cartão vermelho que o juiz deu para o melhor jogador que seus olhos já tinham visto jogar. Exigiu, aos berros, a volta de Pelé para o gramado, e o juiz, que ganhou para sempre o apelido de “El Chato”, acabou sendo substituído pelo bandeirinha. São esses os acontecimentos que nos lançam para fora da ordem e nos inscrevem para sempre na história.


Nunca tive apreço pelas nacionalidades. O nacionalismo do outro sempre foi mais justificado do que o meu – afinal, eu conheço menos profundamente os males daquele país do que os do meu próprio. No entanto, me impressionei com a força com que os jogadores (friso os jogadores, e não a torcida, porque sei que o brasileiro tem um grande amor pelo seu hino) cantaram o hino argentino no último jogo. A plenos pulmões. Gritando mesmo. Alguns se seguraram violentamente no corpo dos companheiros para não desabar de lágrimas. Que jogador fez isso nos últimos anos pelo Brasil? Que seleção brasileira dos últimos anos demonstrou tamanha vontade?

Para mim, no fundo, no fundo mesmo, as nações só me importam quando penso em que tipo de artista elas são capazes de criar. Em que tipo de solo germinarão as sementes, nascerão as árvores, os frutos, as flores, e se produzirá, enfim, a vida. E que arte produz o solo argentino em 2026.


Não, a Copa não está comprada, mas o mundo está, sim, rendido a você, Futebol.


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