A vida de uma garota de 30 anos

Introspecção

Recentemente tenho sentido uma introspecção diferente, uma coisa que nunca senti antes. É uma vontade de deixar estar, de ficar olhando para cara da vida e não dizer nada. Sinto que muitas fichas estão caindo para mim, de tantas e tantas coisas, e eu não tenho nada a dizer, a comentar, a acrescentar. Deixo estar.

Tenho lidado também com um pouco de dificuldade de escrever para o blog, é preciso admitir. Porque, ultimamente, estou com problemas para pensar em coisas mais gerais, em conexões menos pessoais, em palavras mais distantes. Quase tudo que eu escrevo me soa, recentemente, como um grande monólogo sobre mim, e isso não me satisfaz do ponto de vista da forma, da criação.

Ao mesmo tempo, compreendo que a vida é assim: tem vezes que gostamos muito do que construímos, outras vezes, nem tanto. Ora estamos em um humor mais expansivo, ora, fechados em uma concha.

Do ponto de vista da perspectiva, me sinto um tanto fechada. Incapaz de ter um olhar mais vasto e de escrever, com facilidade, coisas que eu imagino dizer respeito a mais gente. Faço das palavras escritas nos diários da jovem Sylvia Plath as minhas.


Mais do que nunca, tenho a impressão de que sou vítima da introspecção. [...] ando tão ocupada mantendo a cabeça fora d’água que mal sei quem sou, e muito menos quem é qualquer outro indivíduo. Devo me disciplinar, porém. Devo usar a imaginação e criar enredos, costurar motivos, testar diálogos – em vez de apenas tentar o registro das descrições e sensações.1


Na verdade, se a pessoa não possui imaginação para criar personagens e elaborar enredos, não adianta juntar fragmentos de vida e diálogos, pois sozinhos eles são desconjuntados e vazios de significado. Apenas quando esses trechos se combinam num conjunto artístico, dentro de um quadro de referências, eles adquirem significado e merecem mais do que um olhar de relance. Portanto, pense e trabalhe, pense e trabalhe.2




Ao lado da questão da perspectiva, sinto que, do ponto de vista da linguagem, estou em contato diário com textos muito objetivos e diretos, textos didáticos que devem ser extremamente explícitos, e isso também pode influenciar nessa minha dificuldade. Porque aqui, quando escrevo para o blog, gosto sempre de deixar algumas lacunas abertas para a interpretação, para que o leitor preencha com alguma coisa da vida dele, algum pensamento, opinião, impressão. Como Claude Monet, penso o texto como um quadro impressionista, no qual a imagem final é formada apenas aos olhos do leitor e do espectador.

Ou, além da questão da forma, da perspectiva e da linguagem, pode ser que a criação do microblog tenha confundido um pouco as coisas aqui para mim, e eu comigo mesma já previa essa possibilidade. Ele me incluiu na balança certo desequilíbrio: me exigiu, digamos assim, uma voz mais e mais pessoal.

Acontece que, à maneira de Sylvia Plath, eu não levo a minha escrita como uma coisa estritamente pessoal. Acredito piamente no poder de dar forma. O que eu quero dizer com isso? Duas coisas: a primeira é a superação da vontade de acabar com tudo e a segunda é a dificuldade da criação.

Quando eu era mais jovem, tive anos e anos de vontade de acabar com tudo. Isso quer dizer que eu não buscava uma forma, mas algo que fosse contrário a todas as formas, a negação de tudo. Essa postura também tem o seu valor, e, muitas vezes, o valor dessa negação é justamente a criação inevitável que a acompanha – para o descontentamento daquele que quer destruir tudo. Não julgo esse movimento como juvenil ou despreparado. Para algumas pessoas, a destruição é necessária. E acredito que assim é para mim.

Depois de algum tempo, entendi que eu poderia também criar. Criar algo completamente do meu jeito. Esse blog foi uma das coisas que eu criei, e, com ele, essa minha voz de autora. Essa voz que eu sinto que consegue pensar razoavelmente de maneira geral, situar as coisas necessárias para o texto, apreender pequenos detalhes, e, entre todos eles, escolher alguns sob determinado crivo.

Isso quer dizer que na minha “vida real” eu nem sempre sou assim. Gosto de pensar que sou um pouco assim, mas sou também, como disse inicialmente, um tanto introspectiva. E, nesse momento, sinto que a minha capacidade de generalização, de escolher o enredo, os personagens, os detalhes, enfim, a minha capacidade de apurar o meu crivo fica diminuta, ensimesmada, voltada demasiadamente para dentro.




Espero que você que me lê não se assuste com isso. Não digo descaradamente que minto aqui para vocês, mas digo apenas que se o texto me exigir que a árvore esteja caída, a camiseta do transeunte seja amarela e não azul, eu tenha caminhado pela rua A e depois pela rua B, e não o contrário... tudo isso eu levo em conta. E faço parecer, aqui para vocês, que foi assim mesmo que aconteceu. Não há compromisso com a verdade quando se trata de criação, porque a verdade é, no fundo, o fruto daquela mesma vontade que organizou tudo aquilo.

É evidente que grande parte das coisas que eu escrevo aqui “são como elas são”. Falo de problemas que me ocorrem, de coisas que me acontecem, de questões que me passam pela cabeça. Mas sinto que desloco um pouco o movimento para lá, para cá. Sopro um grão de poeira para que vocês possam enxergar melhor determinado aspecto, inclino o corpo para o lado para sair de cena.




Incrivelmente nesse texto sobre não saber mais escrever, consegui uma fluidez que não atingi nos últimos dias. Talvez porque eu fui sincera? Talvez. Teria voltado à minha voz de autora de uma forma natural, apenas poque eu deixei sair dos meus dedos aquilo que desejava sair? Afinal, não é essa a fórmula que eu mesma fico a recomendar para todo mundo por aí? Veremos nos próximos dias.



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  1. Sylvia Plath. Os diários de Sylvia Plath (1950-1962). Tradução de Celso Nogueira. São Paulo: Biblioteca Azul, 2017. p. 96.

  2. Op. cit. p. 103.