A vida de uma garota de 30 anos

Fechado para balanço

Dizem as más línguas que em 21 dias se cria um novo hábito. Este é o 21º dia do blog. Eu criei um novo hábito? Sei lá! O que essas teorias do hábito esquecem é que nada do que elas dizem funciona muito bem se você não sente prazer fazendo aquelas coisas que elas chamam de hábito. É claro que elas vão rebater, dizer que é preciso disciplina, que você não deve esperar a “hora certa”, deve “fazer sem vontade mesmo”.

Mas será que se eu achasse um porre vir aqui e escrever todos os dias eu teria completado 21 dias ininterruptos e (note a conjunção) minha vida teria mudado para melhor? Eu até poderia ter escrito os 21 textos, mas minha vida estaria certamente pior, eu estaria mais infeliz, e meus dias “renderiam menos” por que eu teria que gastar muito de mim em algo que, no fundo, detestaria. Sorte a minha que não é o caso. E me alegro ao constatar que a página que reúne os textos em breve precisará de uma barra de rolagem, pois ela não será mais capaz de abrigar tudo o que escrevi nos últimos dias.


Agora, uma pausa: por prazer não entendo um tipo de prazer hedonista que deseja viver sem nenhum tipo de dor. E também não acredito na ideia utilitarista que opõe o prazer à dor. As dores são parte da vida, estão lado a lado com as felicidades1. Contrária ao louvor contemporâneo da "disciplina para a construção do hábito", não acredito que a dor deva ser glorificada, colocada em um pedestal. Para mim, a dor não tem mérito, apesar de saber que ela nos marca profundamente e nos molda de certa forma.

Para simplificar, penso nos seguintes exemplos. Quando desenvolvi a minha pesquisa, percebi que inevitavelmente muitas partes dela não me agradavam do ponto de vista prático, ou seja, eu tinha lá uma certa quantidade de tarefas que não me deixavam feliz ao executá-las. Burocracias, alterações no texto, avaliação de pares. E, de vez em quando, até mesmo a parte prazerosa não me apetecia. Quando isso acontecia, eu simplesmente mudava: hoje não quero escrever sobre X, vou escrever sobre Y; hoje não quero escrever absolutamente nada, vou adiantar as leituras, vou resolver as burocracias, vou organizar a bibliografia. Hoje quero que todas as burocracias se explodam – vou me deliciar com a escrita regada a café. Eu mantinha a coisa funcionando e conseguia, mais ou menos, garantir também o meu prazer no desenrolar das atividades.

Outro exemplo: eu odiava lavar salada e montar a salada na vasilha. Ela nunca ficava bonita. O resultado sempre ficava parecendo um arranjo qualquer de folhas alocadas desajeitadamente uma por cima da outra. E, um dia, de tantas e tantas vezes que eu fiz essa atividade, sem gostar mesmo (mas, afinal, eu precisava comer salada, faz bem para a saúde e tudo mais), algo mudou em mim. Eu construí um arranjo bonito, adicionei mais cores, cenoura ralada, rabanete, pepino, tomate. Comprei uma alface roxa, pra variar na cor. E agora eu gosto de lavar e montar a salada na vasilha. É minha atividade preferida em todo o mundo? Certamente não é. Mas encontrei, mesmo nessa coisa que para mim era enfadonha, algum tipo de prazer.

O filósofo disse: o que não me mata, me fortalece2. Mas, sendo ele mesmo um pensador da necessidade de voltar-se contra si mesmo, ele sabe que essa força só vem a partir da transformação. Crescer, crescer, crescer3, até ver aquilo que te contraria como algo seu.


Enfim, como esse texto é curto, ele servirá também como “balanço” dos últimos dias. Adoro ler a placa “FECHADO PARA BALANÇO” na fachada dos supermercados e atacadões. Sempre me pergunto: o que será que está acontecendo lá dentro? Os funcionários estão felizes, na maior festa, sem clientes para atender? Dançando ao redor dos caixas, se enrolando nos fios de telefone (nem existe mais isso!), correndo loucamente pelos corredores?! Seria isso apenas uma fantasia louca de quem não conhece na pele a realidade dura do trabalho nesses lugares? Provavelmente. Eu sou meio fantasiosa mesmo... grandes são as chances dos desventurados trabalharem muito mais do que em um dia “normal”, empilhando e contando inúmeras caixas do estoque, fazendo bater as contas de compras e vendas, arrastando tudo pra lá e pra cá.

Decidi fazer uma lista aqui sobre os meus textos das duas primeiras semanas (24.05 a 06.06), tanto para o pessoal que chegou aqui recentemente (essa é a sua chance de ler os textos mais antigos!) como para o pessoal que já leu e quer entender um pouco mais sobre o que acontece por trás do texto. Eu tenho que admitir que gosto de todos eles, não igualmente, mas à sua maneira. Cada um deles fez parte de um dia específico, em um momento específico, e possui sentimentos específicos. É isso que faz deles coisas especiais. No entanto, mesmo com essa garantia de paridade, é claro que eu tenho os meus preferidos! E também sei que alguns me deram um trabalhão, muito maior do que parecia à primeira vista. Quando percebi, já estava envolta de livros, buscando as referências que eu tinha de cabeça, revisitando o meu acervo mental. Isso também faz parte dos prazeres de escrever para o blog. Organizo, aos poucos, toda essa infinidade de pensamentos que eu guardo aqui no meu espaço limitado. "Me desovo”.

Esse é o meu balanço: muito mais simples do que aqueles feitos nos mercados. Lá vai!

Lista de preferidos (do mais antigo para o mais recente)

  1. Professora de Filosofia
  2. O nosso mal
  3. O valor da cólica

Lista dos mais trabalhosos (do mais antigo para o mais recente)

  1. Arar a terra, amar a terra
  2. Minorias versus maiorias na democracia contemporânea
  3. O que van Gogh viu? – Parte 1: infância



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  1. "Com o homem sucede o mesmo que com a árvore. Quanto mais quer alcançar as alturas e a claridade, tanto mais suas raízes se inclinam para a terra, para baixo, penetram na escuridão, na profundeza – no mal." Friedrich Nietzsche. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018. P. 40.

  2. Friedrich Nietzsche. Crepúsculo dos ídolos (ou como se filosofa com o martelo). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017. P. 9.

  3. Possível resposta para a pergunta final de um dos queridinhos de vocês aqui no blog: Não consigo parar de escrever. Por favor, não me ajude.