A vida de uma garota de 30 anos

Eu amo índice onomástico e caderno sem pauta

Eu amo índice onomástico. Acho que o ato de compor um índice onomástico é um ato de amor pelo seu eu futuro. Você lê um livro cheio de coisas interessantes, marca as páginas que adora, escreve nas laterais. Passam-se anos. Você retorna para aquelas marcações e anotações, mas não compreende muito bem o que se passou. Mas você sabe que leu aquele trecho marcante, que fulano falou sobre ciclano em tal contexto. Você folheia o livro até a última página e aí você descobre que alguém teve o trabalho minucioso e árduo de compor um índice onomástico. Que alívio!

É um prazer ver uma lista toda organizadinha, com nomes e indicações para tudo o que você quer encontrar. Tem vezes que lemos o índice antes mesmo de começar a ler o livro. Por vezes, o índice contém até temas, como nas edições de Nietzsche, da Companhia das Letras. Esses são os meus preferidos. Por exemplo, vejamos o que Nietzsche diz, em A gaia ciência, sobre o tema “dizer sim”.


Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!1


Vejam com que facilidade eu reencontrei essas palavras, apenas ao folhear o índice onomástico. Esse aforismo chama-se “Para o Ano-Novo” e, por muitos anos ele foi uma espécie de prece (Nietzsche que não me perturbe. Prece é um “modo de dizer” nesse caso) para o meu início de ano. Eu lia essas palavras toda virada de ano, desejando aquilo com todas as minhas forças.

Uma vez o filósofo Gilles Deleuze disse que Nietzsche era o seu copiloto. Quando ele se encontrava em situações complicadas, ele se perguntava: o que Nietzsche faria nessa situação? Eu adoro Deleuze, sinto que poderíamos ter sido amigos. Ele tinha um jeito tranquilo de ser no mundo. Tinha pavor de aviões e de viagens, não saia do quarteirão de sua residência. E, ainda assim, falava sobre o mundo. Deleuze tinha lá os seus 60 e poucos anos quando disse isso sobre Nietzsche. Com essa idade, deve ser mais fácil colocá-lo no banco do passageiro. Eu, ao contrário, devo admitir que de vez em quando deixo que ele assuma o lugar do próprio piloto. Viro pra ele e falo: senta aí e dirige essa bagaça!!

Enfim, voltando para o assunto principal: eu amo os índices onomásticos. E, por isso, organizo aqui no blog uma série de pages que até funcionam para vocês, creio, mas funcionam mais para mim e, ainda mais, para o meu eu do futuro. Imagino esse blog daqui a alguns meses: quantos textos eu terei escrito? E se, por acaso, eu quiser me recordar de uma coisa que eu escrevi sobre algum autor? Ver um quadro de determinado artista que eu tenha feito algum comentário? Reler alguma opinião que eu tinha no passado sobre determinado filme?2 Bastará clicar nos links que eu mesma organizei com tanto trabalho e dedicação.

No começo, dá um certo trabalho, sim. Mas depois que a lista está organizada, é só preencher com o texto do dia no local do índice que eu penso que ele se encaixa. E está feito. Sei que, em algum momento, a coisa pode desandar. Afinal, quem cataloga tudo acaba tendo que fazer um catálogo da grandeza do mundo. É aquela coisa: um mapa do tamanho do próprio território não serve pra nada. Enfim, espero não cair na escala 1:1.

No momento, inaugurei mais uma page aqui no blog sobre os assuntos de artes, pintores e... futebol! Quer entender essa junção de ideias? É só clicar no link abaixo pra conhecer o novo espaço, que ficará disponível no menu principal.


Agora, quem me vê assim toda dividida em listas deve imaginar que eu sou o suprassumo da organização e do capricho. Até parece!! Acontece que o mesmo amor que eu tenho pelos índices onomásticos eu tenho também pelos cadernos sem pauta. Desde a época da faculdade, gostava muito desse tipo de caderno. Eles permitem todo o tipo de intervenção: escrever em linhas tortas, destacar as partes importantes com mais vigor, reproduzir esquemas, fazer desenhos pelos cantos, desenhar coraçõeszinhos nas bordas... Com o passar dos anos, me esqueci que eu poderia comprar um caderno assim para realizar as minhas anotações. E fiquei, por muito tempo, realizando anotações minuciosas, em cadernos com pautas espremidas, de letra miúda. Vejam, por exemplo, esse meu caderno separado para estudos de Arqueologia. É lindo, sim, mas haja mão!


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O blog tem sido uma coisa tão boa na minha vida que tem feito eu voltar para os meus antigos amores, para as coisas que eu tinha um gosto genuíno, meu mesmo, de uma forma totalmente diferente. Por conta do blog, quase todo dia antes de dormir eu começava a pensar (involuntariamente) sobre tudo o que eu gostaria de escrever, e tinha que anotar em papeis soltos que ficavam ao lado da cama, descolados uns dos outros, totalmente fora de ordem ao amanhecer do dia (parece até que eles se mexiam enquanto eu dormia). Foi então que, por acaso, me lembrei da garota que ficava no Starbucks, com seu caderninho sem pauta, lendo e escrevendo pra caramba (sonhando que ia escritora!). Não demorei para comprar um caderninho no mesmo estilo para anotar as coisas do blog. E, agora, não é que eu já me sinto mesmo “meio” escritora? O meu eu de 20 anos se alegraria muitíssimo com os textos que escrevo por aqui.


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Vejam vocês essas anotações que tenho feito: como o nosso pensamento é solto, segue em um fluxo rápido, com comentários e interpelações que ele faz sobre coisas que ele mesmo planejou. Não dá para encaixá-lo tão rapidamente em cadernos pautados e índices onomásticos. Isso seria fruto de trabalho, calma e paciência. O caderno sem pauta é amigo da velocidade, da paixão, da letra garranchada que nem você mesmo consegue entender depois de alguns dias.


Essa combinação se tornou meu “equilíbrio” perfeito: liberdade total para o que vem. Depois de alguns dias, assentamento das ideias, construção de arranjos, identificação de harmonias e contrastes. Uma coisa alimenta a outra. É aquele ditado: nem melhor, nem pior, apenas diferente. Trata-se mais de construir, com as duas coisas, uma obra: este blog (sim!), mas também a si mesmo. Com a palavra, o piloto:


Uma coisa é necessária. — “Dar estilo” a seu caráter — uma arte grande e rara! É praticada por quem avista tudo o que sua natureza tem de forças e fraquezas e o ajusta a um plano artístico, até que cada uma delas aparece como arte e razão, e também a fraqueza delicia o olhar. [...] Por fim, quando a obra está consumada, torna-se evidente como foi a coação de um só gosto que predominou e deu forma, nas coisas pequenas com nas grandes: se o gosto era bom ou ruim não é algo tão importante como se pensa — basta que tenha sido um só gosto!3



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  1. Friedrich Nietzsche. Para o Ano-Novo. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. P. 166

  2. Todas essas frases soaram um pouco egocêntricas à primeira vista. Mas não é porque importa muito a minha própria opinião. Acho que vocês, a essa altura, já perceberam que eu também pesquiso bastante para escrever para o blog e que, muitas vezes, ele serve como “repositório” de pesquisas anteriores que eu já realizei e que estão, até então, na minha cabeça. Isso é o que eu quero dizer quando penso que preciso retomar o que “eu pensava” sobre as coisas.

  3. Friedrich Nietzsche. Uma coisa é necessária. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. P. 173.