A vida de uma garota de 30 anos

Festa de gala II

É, gente, a farra não pode parar! Segue a parte II da nossa festa de gala.


Recepção

No segundo jogo da França, Mbappé parecia ainda mais faminto. Contra o Iraque, marcou 2. Segue à caça por Lionel Messi na lista dos maiores marcadores dessa edição da Copa do Mundo, após deixar para trás Ronaldo Fenômeno (com 15 gols) na história da artilharia das copas. Mbappé, aos 27 anos, já marcou 16 vezes no maior palco do mundo da bola e alcançou o terceiro lugar da artilharia de todos os tempos, empatado com o alemão Miroslav Klose. Só está atrás do próprio Lionel, que faz, ao que tudo indica, sua última Copa. É muita vontade! Quem também disparou e abriu vantagem na corrida dos goleadores dessa edição foi Ousmane Dembélé, o então questionado bola de ouro da seleção francesa. Isso é um time ou um covil de cobras? Quem vai conseguir resistir a esse bote? O estonteante Démbéle marcou 3 só no jogo contra a Noruega, dos felizardos Haaland e Ødegaard. França (4) x (1) Noruega, com os 3 mais 1 do jovem Désiré Doué.


Mbappe
Mbappé, “o ditador”, carrega Démbéle nos braços.


Com base em muito trabalho e escorados em uma estratégia ousada, os jogadores da Noruega alcançaram feito incrível para a seleção do país gelado: não só conquistaram a vaga para disputar o mundial depois de 28 anos distantes como avançaram para a fase mata-mata da competição. Enfatizo a palavra “felizardos” quando falo sobre a Noruega por dois motivos. Primeiro, modéstia à parte, porque Haaland deu uma entrevista que confirma a leitura que fiz anteriormente sobre a sua estrela, escrita durante a primeira rodada da fase de grupos. Diz ele, depois do segundo jogo: “sou simplesmente muito bom em marcar gols e tenho bastante sorte. Não sei o que estou a fazer [...] é assim mesmo.”1 Eles são “os felizardos”, os mais sortudos.

O segundo motivo é pela felicidade que a torcida, os jogadores, o técnico e os auxiliares expressam só por vivenciarem um momento como esse na história do país e do seu futebol. Tendo nascido em Leeds, na Inglaterra, Haaland poderia ter jogado pela seleção inglesa. Escolheu a Noruega, pela sua identificação com as tradições familiares. Ficou fora da Copa de 2018, ainda no início de sua carreira que já era meteórica – em 2020 ganhou o prêmio Golden Boy. Em 2022, jogou pela Noruega, mas não conquistou a classificação. Em 2026, se tornou Braut Haaland, adicionando o sobrenome da mãe na camisa, e levou junto com ele os vikings para dentro dos campos. Eles são “os felizardos”, os mais felizes.



Quer recepção melhor do que essa?


Novos convidados

O jovem Lamine Yamal chegou na festa. Com aquela cara de quem carrega um RG falso para passar pelos seguranças, os dentes com aparelhos fixos e as espinhas no rosto revelam que ainda não abandonou por completo a sua meninice. Marcou o seu primeiro aos 10 minutos do jogo que garantiu a primeira vitória da Espanha, contra a Arábia Saudita. E Cabo Verde, que empatou com gostinho de vitória com a Espanha na primeira rodada, passou a empilhar feitos históricos: marcou não só o seu primeiro, mas também o segundo gol na história das Copas. Fez 2 x 2 contra o Uruguai, complicando os nossos vizinhos da América do Sul na conquista do segundo lugar da chave. Na terceira rodada, em meio a uma pelada histórica entre Uruguai e Espanha, a seleção de Cabo Verde se classificou para a fase mata-mata. Agora enfrentará a atual campeã, a Argentina. Há limite para o sonho?

E a lista de convidados só cresce!

Os goleiros impossíveis. As defesas de Alireza Beiranvand, do Irã, e Eloy Room, de Curaçao, brilharam debaixo das traves.

Japão e Holanda: as máquinas incansáveis.

E o Brasil? Ganhou novos ares. Jogando em coletivo, mostrou que é possível ir mais longe.

Gana (0) x (0) Inglaterra. Senegal (2) x (3) Noruega. No passado, dois países africanos assolados pela história mais violenta que já foi escrita. No futebol, jogam de igual para igual contra os europeus, pra valer. Não são inferiores na bola e nem em qualquer outra coisa, como pretende muita gente que mantém até hoje uma mentalidade colonial.

Ainda na África: as seleções da África do Sul, mais ao sul do continente, e da Costa do Marfim, vizinha de Gana, se classificaram para a fase mata-mata pela primeira vez na história, causando assombro ao deixar para trás Coréia do Sul e Equador, duas seleções que têm mais tradição no campeonato mundial. Os egípcios, nobreza milenar, também se classificaram ao empatar com a seleção iraniana no último jogo. Também vão estrear na fase mata-mata, liderados pelo Faraó Mohamad Salah. Que mundo maravilhoso é o futebol. Ele nos permite, ao menos dentro do campo, sonhar com uma nova disposição das forças ao redor do planeta.

Mas não pense você que a América do Sul ia ficar de fora! O Equador encarnou a nossa garra, ao contrário do bagunçado Uruguai do “el loco” Bielsa. Como nessa edição teremos 8 vagas pra os melhores terceiros colocados de cada grupo, o Equador se agarrou à esperança, mesmo depois do frustrante empate com Curaçao, estreante na Copa, durante a segunda rodada. Sí, se puede! No terceiro jogo, sua última chance, venceu a Alemanha em uma partida dramática. 2 x 1 para o Equador, que se uniu ao Brasil e à Argentina no rol das seleções sul-americanas que já derrotaram a rival europeia em copas. Uma comemoração com sabor de final, regada a muitas lágrimas e muitos beijos. Desbunde!


Eq
O técnico do Equador, Sebastián Beccacece, abraça a família ao final do jogo.


Please, don’t stop the music

Já que os semideuses, como Hércules, tinham o seu papel nos jogos olímpicos na Grécia Antiga, temos, na Copa do Mundo, também os nossos exemplares. Lionel Messi bate recorde atrás de recorde, e parece não se importar com os números e as estatísticas. Ao menos é o que ele diz, e nós acreditamos. Não se duvida da palavra de um craque. No segundo jogo da Argentina da fase de grupos, Lionel perdeu o pênalti que poderia ter aberto o placar e entrado para a história: seria o seu gol de número 17 em copas – feito que o tornaria o maior artilheiro de todos os tempos. Não foi daquela vez. Alexander Schlager, o goleiro austríaco, disse: eu vou pegar! E pegou. Foi exato na bola, não esteve fora dela nem por um segundo.

O inabalável Messi, aquele que não se importa com as estatísticas e os recordes, ficou nervoso antes de bater um pênalti? É o que parecia. E, assim, quebrou outro recorde: foi o primeiro jogador da história a perder 3 pênaltis, com a bola rolando, na Copa do Mundo. É sina. Onde quer que ele vá, é recordista. E a Argentina? Tremeu na base. Toda a adoração que o time tem por Messi caminha também no sentido contrário: se o sol oscila, aqui em baixo ficamos sob a sombra. Os primeiros minutos do time em campo foram ansiosos. Mas como esses jogadores se conhecem bem, não somente em campo, mas na vida, não demorou para se encontrarem ali na próxima esquina. Messi, brilhante, marcou mais 2. E agora, sim, bateu o recorde de maior goleador da história de todas as copas. A seleção argentina fez 5 gols nessa edição. Até o momento, todos dele.

E por falar em recordista, estava ficando de fora, até a segunda rodada, um dos maiores nomes da lista VIP do futebol de todos os tempos. Por onde andava o “rei do camarote” de Portugal? Pelos corredores, se recusando a responder os repórteres que perguntavam para ele sobre o seu amigo-rival: e aí? Só dá Lionel Messi! Vai fazer o quê?

Irritado, entrou em campo contra o Uzbequistão. Marcou o seu primeiro gol aos 6 minutos do primeiro tempo. Quase 7. CR7 abriu a porteira para Portugal com o seu estilo de sempre: matador, sem espaço para falhas, frio, cerebral. Quase não comemorou com alegria, se tratava mais de extravasar a raiva, sacudir a uruca pra fora do corpo.


Cr7
Ira do semideus.


E parece que tudo foi mesmo expurgado. 9 minutos depois, lá estava ele na boca da área para cobrar uma falta. Tiro direto para o gol. O estádio inteiro virou uma panela de pressão. A torcida gritava o seu nome. O juiz queria participar do espetáculo: demorou para autorizar a cobrança, voltou não sei quantas vezes para “corrigir a barreira”. Todas as câmeras apontavam para Cristiano. Todas os olhares vidrados nele. Toda a expectativa em cima dele. Depois de quase 20 anos do maior duelo que o futebol mundial já viu entre dois amigos-rivais, o estádio ressoava aquela atmosfera dos inoportunos repórteres (E aí? Só dá Lionel Messi! Vai fazer o quê?). E Cristiano, no seu melhor gesto, não fez nada. Deixou para Nuno Mendes balançar as redes, marcando o segundo de Portugal. Na comemoração, mais leve, abriu um sorriso. Apontou para as têmporas, mirando o cérebro, em tom brincalhão, como quem diz: está tudo aqui!

Aos 39 minutos, CR7 marcou o terceiro de Portugal. Sorrindo ainda mais, murmurou “ele está de volta”. Falou com a gente? Falou com ele mesmo? O fato é que Cristiano se apresenta em terceira pessoa, como se ele mesmo fosse seu duplo, a versão “robô” de si mesmo. Não é à toa que conquistou o planeta. Nunca vimos tamanho desprendimento de si, tamanho descolamento de uma versão “humana” com um resultado tão encantador. Seria o eterno “robozão” uma máquina enfeitiçada?

E de que jeito ficamos nós, os adoradores da bola? Ao som de Don’t stop the music, música lançada pela Rihanna lá em 2007, quando Messi e Ronaldo começavam a trilhar esse caminho que nos levaria, junto com eles, em direção à glória. Tempos mais simples. Estamos, sim, em boas mãos com os nossos jovens, seus erros e acertos. O futebol não vai parar, ele é infinito. Mas, ao mesmo tempo, já começa a dar aquela pontinha de saudade, aquele nó na garganta. Começamos a sentir o salão se esvaziar enquanto ficamos aqui, entorpecidos, olheiras no rosto, pálpebras colando umas nas outras. Começamos a cair na real: a festa acabou, todo mundo foi embora. Ficamos somente nós nesse chão imundo, grudento, o lixo acumulado ao redor das lixeiras lotadas. O vento frio já bate nas janelas em uma bela manhã fresca que nasce de forma suave. A luz começa a nos invadir. E nós (pobres e tontos!) começamos a pedir: não nos deixe, Lionel; não nos deixe, Cristiano... Dj, please, don’t stop the music.



Quer comentar esse texto? Dê um alô no Guestbook do blog.


<Anterior | Próximo>


  1. A bola. Haaland e os golos: «Tenho muita sorte, não sei o que estou a fazer». Disponível em: https://www.abola.pt/video/haaland-e-os-golos-tenho-muita-sorte-nao-sei-o-que-estou-a-fazer-2026062310032204453