A vida de uma garota de 30 anos

Mulher-urso

Por enquanto, tenho que cortar, radicalmente: vou para as montanhas, quero ar, ausência de obstáculos para olhar, frio, gelo, silêncio, vazio e contingência, sobretudo sem mais destino, e muito menos signos.1



Gente, estou acabando o livro Escute as feras, da Nastassja Martin, e estou embasbacada. Esse texto não é um resumo ou uma ideia definitiva sobre o livro. Só quis deixar registrado o meu assombro diante das quase últimas páginas dessa história. Acho que nunca li algo que ressoasse tanto comigo, mesmo quando o ambiente e a história apresentam um tipo de acontecimento tão distante da minha realidade.

Nastassja, a autora, se encontrou com um urso nas montanhas. Vejam que eu descrevi isso como um encontro – e a autora também propõe assim. Ela e o urso se engalfinham em uma luta, um tira pedaços do outro. Os dois saem vivos. Ela, com o rosto todo marcado. Ele, mancando em direção ao lado oposto.

O livro discorre sobre como é a vida de Nastassja depois desse encontro. Como ela foi resgatada, os tratamentos médicos, as internações hospitalares e, por fim, como passa a ser a vida depois da recuperação total. Antropóloga, atenta aos signos, significados, significantes, Nastassja nota e sente que ela ganhou outro estatuto depois desse encontro.

Em todo lugar que vá, na França, nos Estados Unidos, na Rússia, em meio às montanhas do povo even: tudo agora é diferente. Seja porque ela mesma se vê como diferente, seja porque os outros passam a interpretá-la de outro modo. Afinal, a cicatriz no seu rosto não deixa escapar que algo aconteceu.


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Nas páginas que eu li ontem, Nastassja discorre sobre como é para ela se sentir “significada” pelos outros. Afinal, de todos aqueles seres engravatados, habitantes das grandes cidades, indígenas, xamãs, médicos, parentes, amigos, antropólogos, de todos eles, só ela viveu o encontro com o urso. Só ela. E ela estava a sós com ele. A partir da sua história, alguns vão considerá-la abençoada, um ser de muita sorte. Outros, amaldiçoada, alguém de quem se deve manter distância para não atrair os maus espíritos.

Ela recorre ao estudo que o historiador Jean Pierre Vernant fez sobre o encontro do homem com a Medusa, em A morte nos olhos. Lá ele afirma que ver a Medusa é deixar de ser você, ser projetado no além, tornar-se outro. Essa afirmação, no início, foi interpretada por Nastassja como o fascínio diante da morte, como o momento de ultrapassar um limite que pode ser sem retorno. Nos seus estudos antropológicos, ela demonstra que o caçador sai do seu local de abrigo para caçar e voltar vitorioso, ou, ao contrário, morrer.

Mas, depois do encontro com o urso, ela pensa: estou viva, e o urso também. Mas estou viva de que forma?

Não da forma que me interpretam os médicos, os psicólogos, os xamãs, o povo comum de Paris, do Alasca, das florestas de Tvaián. E começa a se irritar com os títulos que lhes conferem, tanto os de glória como os de coitada.

Como antropóloga, Nastasja é muito sensível ao mundo das significações – e essa sensibilidade é real, posso atestar por experiência própria. Nós, antropólogos, passamos a ser assim depois de ficar tantos anos imersos em diferentes culturas, sistemas de parentesco, linguagens, ritos e mitos. Meio que passamos a ter uma antena afiadíssima para captar nuances na voz, nos gestos, no mundo.2 Quando nos tornamos estudiosos ou familiares a uma cultura, captamos que aquele sorriso é de nojo, aquele elogio é sarcástico, aquele desprezo é sincero. São os signos, dos quais Martin quer fugir.

E eu também. Eu também me pego aqui querendo fugir dos signos, dos significados, do destino. Não sou mulher-urso, como Martin, mas poderia sê-lo, do ponto de vista metafórico. Também vivi um processo de doença e, dentro dele, de perdas, e perdas, e perdas, e perdas tão inúmeras e variadas que nem ouso falar sobre isso agora. Também vivi esse processo só. Depois que descobri que estou viva, também sinto esse descompasso entre o que eu sou, o que eu vivi, e o que as pessoas veem de mim.

Também me pergunto: mas estou viva de que forma?



Em certa medida, acredito que todos nós vivemos esse descompasso. Todos nós também vemos os outros como uma versão reduzida deles mesmos – e os outros também nos veem assim. Mas, em alguns momentos, me sinto sufocada com isso em níveis que eu ainda não conhecia. Saio escrevendo por aqui que sou falsa com as pessoas em geral – e de fato sou, porque, de uma forma que ainda não sei se é a correta ou boa para mim3, passei a esconder de todos essa minha “experiência com o urso”.

Martin não teve escolha: ficou marcado no seu rosto. Eu ainda uso as minhas máscaras. Simplesmente não aguentaria ouvir, ver, sentir, pela enésima vez, que o que aconteceu comigo foi “mulher atacada por urso” ou “urso atacado por mulher”, e não “mulher e urso se encontram”.

Quem é capaz de entender esse tipo de encontro?

E aí, nesses momentos, me pego como Nastassja, querendo ir para as montanhas, ar puro, gelo, silêncio, um mundo sem signos...





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  1. Nastassja Martin. Escute as feras. Tradução de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann. São Paulo: Editora 34, 2021. p. 95-96.

  2. E cada cultura possui os seus significados, significantes e signos diversos. Não é em todo lugar que sorrir significa a mesma coisa. Ou que “ser mãe” significa a mesma coisa. Ou, ainda, que “bem” e “mal” significam o que a gente entende por bem e mal. Em algumas culturas, esses signos estão no corpo: as pessoas se pintam e fazem escoriações para indicar que passam por determinados momentos da vida, como o luto, a transição para a vida adulta, o casamento.

  3. Sim, inúmeras vezes nós somos capazes de coisas que não são boas para nós.