Sobre a arte de escrever
Sentir é coisa de pele
Amor é tudo que move.1
Hoje venho aqui cumprir promessa antiga. Há algumas semanas, escrevi um texto sobre a leitura no começo da minha vida, e prometi para a Mikah que o texto teria a ver também com ela. Acabou que não teve tanto a ver assim, porque eu mantive de fora o papo da escrita. No momento, era suficiente falar da leitura. Hoje, venho aqui para trazer esse texto, inicialmente pensado há quase 1 mês, que dialogava com ela e com outros textos que estavam rolando no Discover do Bear Blog na época.
De antemão, me desculpo pelo atraso. Ainda assim, acho que vocês vão entender que ele tem também o seu motivo e a sua utilidade. É o que diz a escritora: “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”2.
Então, bora para o texto de hoje!
Na realidade, o título de hoje deveria ser “Sobre a arte de escrever todos os dias (ou quase todos os dias?) para um blog”. Mas aí a coisa ficaria imensa. Ainda assim, tenho em mente que aqui falo sobre como escrever para um blog, e não sobre como escrever um livro, uma coluna no jornal, uma pesquisa acadêmica. Essas coisas precisariam, talvez, de uma solidez maior do que a que eu vou abordar aqui.
Mas, de toda forma, escrever para um blog também é uma arte, e, por isso, também possui o estilo, a rotina, a dificuldade e o prazer próprios dessa arte.
Ao contrário de meus amigos blogueiros, eu não tenho rascunhos escritos e não publicados por qualquer motivo que seja (e, na maioria das vezes, esse motivo é o perfeccionismo, nas palavras dos próprios detentores da questão). Tenho, sim, ideias anotadas por aí e que ainda não estão desenvolvidas. Elas são dispostas em formatos de tópicos que, muitas vezes, acabo nem me recordando do seu significado quando retorno alguns dias depois. Mas esses rascunhos estão longe de se constituir como texto.
Pensar é uma coisa e escrever é coisa diversa.
Essas minhas ideias anotadas às pressas são atropeladas, no dia a dia, por outras novas, e, assim, acabo escrevendo quase sempre sobre a ideia nova, deixando as atropeladas para trás. É por isso que as coisas aqui acabam sempre um pouco “atrasadas”.
O meu fluxo de escrita para o blog funciona sempre na direção do meu apetite do dia. Não me privo e não tenho amarras quanto a isso. Nunca passou pela minha cabeça: puts, eu deveria escrever aquele texto lá sobre como escrever todos os dias... Eu simplesmente anoto a ideia, sei que ela está lá. Quando eu quero, quando estou sem ideias em um dia, abro o caderno como um cardápio, e escolho o que mais me dá vontade de comer.
Isso faz com que eu sempre consiga publicar uma coisa ou outra por aqui, vocês são testemunha. É porque esse desprendimento com o resultado, aliado ao deixar-ser da vontade, pode nos conduzir a essa constância. Em suma, sempre que estou aqui – e estou aqui quase sempre – estou bem com o fato de estar aqui e também com o que quer que eu esteja fazendo aqui. É meio como diz o poeta: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”3.
Antes de ter o blog, escrevi incontáveis diários que, evidentemente, nunca ninguém leu. Eles eram mais ou menos como as coisas que eu escrevo por aqui, mas, como eram feitos à mão, o texto ficava disposto de maneira mais resumida – e haja mão! Além disso, pelo contexto da vida, acredito que eles eram escritos de uma forma mais desesperada. Eu ainda mantenho esse tipo de diário, embora agora eu o utilize muito menos, justamente por conta desse blog. Aqui escrevo muito livremente, como vocês viram, então a ideia meio que se mantém.
Desde pequena tive diários, e os guardo até hoje. Tenho ainda meus registros de mudança de colégio, de conflituosas amizades, de errâncias e angústias do período em que eu acreditava que tinha que escolher uma profissão definitiva aos 16, 17 anos.
Também nessa mesma época, dos meus 17 aos 20 e poucos, tive o delírio que eu seria uma escritora. Conhecia, pela primeira vez, as escritoras mulheres, e queria devorar todas elas. Digo pela primeira vez porque, até então, meu universo dos livros – que já era relativamente vasto para um ser daquela idade – era recheado de homens. Maravilhosos, sim, mas homens. Com as mulheres, era diferente. Para mim, eu descobria uma forma totalmente nova de escrever, e, lendo aquelas palavras, sentia que poderia ser como elas. Virginia Woolf, Sylvia Plath e Hilda Hilst me botaram na cabeça que eu ia ser escritora.
E, guardadas as proporções, será que, de certa forma, me tornei uma delas?
Nessa época, eu rondava os cafés de São Paulo procurando um sofá para me aninhar com livros e cadernos. Ficava lá o dia inteirinho, entre os estudos para as provas e as delícias das mulheres. O Starbucks era o meu café preferido, porque era grande e ninguém se incomodava com o fato de eu comprar apenas um café e ficar sentada por horas naquelas poltronas quentinhas.
Imaginem o tamanho da minha emoção quando, ao começar a escrever este blog, eu descobri, por conta de uma caminhada ao acaso, que abriu um Starbucks pertinho da minha casa. Toda aquela fantasia de escritora retornou, mais de 10 anos depois! É o destino?
Como a Mikah, também já tive a experiência de escrever em grupo. Essa experiência foi igualmente finalizada com brigas, divergências, rumos da vida que levaram cada um para um lado. Escrever coletivamente significa que o resultado será também coletivo. Significa que a criação não será somente vontade do seu gosto. E, naquela época, talvez nenhum de nós estivesse muito disposto a abrir mão de determinadas coisas.
Hoje, vejo que os trabalhos coletivos imprimem um pouco da cara de cada um. E isso é lindo: a disposição de ceder. Talvez a gente aprenda isso com o tempo. Mas também não gosto de menosprezar as minhas motivações e as dos meus amigos quando éramos jovens demais. Nós estávamos certos naquele momento. Fizemos o que podíamos com as nossas capacidades, inteligências, forças. E valeu o que tinha que valer.
Hoje, penso que se a gente tivesse um lugar para desaguar o nosso trabalho individual de forma autêntica, talvez tivéssemos durado mais enquanto grupo. Mas eu estava longe de conhecer esse blog, a escrita como algo fácil e agradável para mim, e, também, a minha “voz de autora”, que fui criando aos poucos aqui com vocês e, antes, nos meus diários – desesperados ou não.
Já escrevi para me salvar de mim e dos outros. Para desafogar o meu desespero. Muitas e muitas páginas foram escritas e rasgadas na sequência. Eu queria só me livrar daquelas palavras. Hoje escrevo mais calma. Sinto o ar entrando em meus pulmões enquanto digito aqui para vocês. Hoje escrevo como quem conversa com alguém interessado, com alguém que faz as objeções (no meu juízo) corretas, as perguntas precisas, os comentários entusiasmados.
Já se tonou aquilo que chamam de “hábito”, mas não dessa forma absurda na qual a pessoa tem de fazer todo um malabarismo da vida para que aquela prática se torne cotidiana. Foi meio que involuntário. Em tão pouco tempo, isso aqui já faz parte do meu “caos da vida adulta”.
Imagino que escrevo, como disse o th, cartas, que eventualmente entram em convergência com outras. E, assim, tecemos também a nossa boa conversa.
E, finalmente, você, leitor, que sabe fazer a pergunta precisa, pode ficar com essa aqui na cabeça: e agora? Como escrever todos os dias, então? Pois eu tenho uma dica que até hoje não me falhou. Talvez com você também funcione. Adicione essa dica aos ingredientes anteriores (não se preocupar com o resultado, escolher aquilo que lhe apetece).
O que eu faço é: nunca poupo, escrevo sempre a minha melhor ideia. Penso que sou como Kylian Mbappé. Ele, no mundo da bola. Eu, no mundo dos textos. Acredito que todo texto é possibilidade de gol. Mas, e isso é ainda mais importante, acredito também em todas as chances futuras. Elas virão. Podemos ficar tranquilos. Ideias melhores sempre virão. Chances mais claras de gol sempre virão. Por isso, esbanjemos! Gastemos o nosso melhor hoje! Afinal, amanhã será melhor ainda.
É preciso escrever com abundância.
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Gilberto Gil. Aqui e agora. Refavela, 1977.↩
Clarice Lispector. Carta para a irmã Tania Kauffman, 1948. Disponível em: https://www.revistaprosaversoearte.com/uma-bela-e-instigante-carta-de-clarice-lispector-para-a-sua-irma-tania-kaufmann/#goog_rewarded↩
Gilberto Gil. Aqui e agora. Refavela, 1977.↩