A vida de uma garota de 30 anos

No ritmo da paixão, nas linhas da história

São Paulo Futebol Clube e Club Atlético Boca Juniors. Duas das maiores camisas do futebol sul-americano e (por que não?) do futebol mundial em campo. 9 títulos da Libertadores da América, 6 títulos mundiais. Ah! Os tempos de glória. Agora, os dois clubes se enfrentam nas quartas de final da Copa Sul-americana, conhecida popularmente como “Libertadores série B”. Tanto são-paulinos como xeneizes sabem muito bem que vivem “a época das vacas magras”. Cenário para um jogo cheio de paixão e de história.


Paixão argentina

Fanfarra e cantoria ininterruptas. Essa é a Bombonera de ontem e de hoje. Vendo de longe, pela televisão, parece que atrás dos gol não cabe sequer um alfinete. É ali que a torcida realiza a sua famosa avalanche. Por ali, seguimos sempre no ritmo dessa loucura. Como é também típico das paixões, as coisas se exageram. No jogo de ontem, teve confusão entre a própria torcida do Boca, enquanto são-paulinos, em pequeno número, tentavam fazer algum barulho para fazer valer a sua presença. Difícil. A Bombonera é assim, uma coisa que engole tudo que está diante dela. É muito raro conseguir um resultado positivo como adversário do clube das cores azul e ouro.


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Levados pelo ritmo da paixão, São Paulo e Boca fizeram um jogo “sem faltas”, contabilizando apenas 12 no total. Número impressionante para o confronto entre brasileiros e argentinos. Mas engana-se quem crê em estatísticas, pois a quantidade de faltas que o juiz chileno Piero Maza considerou “lance normal” foi abismal. Em resumo, era cotovelada para todo lado.

No centro do ringue, o argentino Jonathan Calleri, ex-Boca, jogador e amante declarado do São Paulo Futebol Clube. Foi o Boca quem lhe deu os primeiros passos e a projeção na carreira. Foi o São Paulo quem lhe deu a adoração dos ídolos, mesmo que ainda seja questionada por parte da torcida.

Dividido entre dois mundos, falante das duas línguas, Calleri é o que muitos brasileiros consideram impossível: um argentino gente boa, um cara tranquilo. Ao lado de seu companheiro de ataque, o briguento Luciano, Calleri ganha contornos de bom moço. Mas não foi o que aconteceu na noite de ontem. Tudo estava demasiadamente à flor da pele. Diante das catimbas dos argentinos, aquelas que Calleri conhece e sabe praticar desde a sua infância, cedeu e caiu na pilha. Deu uma cabeçada no rival, mas de leve, porque ele é um bom moço no final das contas. O jogador xeneize se jogou no chão como se tivesse levado uma surra. Chegamos até a achar graça ao vê-lo procurando sangue respingado na mão para mostrar para o juiz em uma cena que ganha contornos de artimanha de moleque: um olho aberto, para verificar a situação, o outro fechado, para fingir sofrimento. Ah, o futebol nos rende essas cenas maravilhosas!!


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Calleri acabou amarelado. Sim, pelo mesmo juiz que deixou de tudo acontecer durante toda a partida. É, isso também acontece.

Os comentaristas relembravam, minutos antes da briga de Calleri com Belmonte1, da vida passada do jogador enquanto defensor da camisa do Boca Juniors. Relembraram que, em meio a uma partida histórica entre Boca e River que acabou em uma enorme confusão com direito a gás de pimenta, Calleri telefonou para a sua mãe dizendo que gostaria de comer uma milanesa.

Pior que eu te entendo, Calleri. A milanesa napolitana feita na Argentina é um prato que não existe igual no mundo todo. É também o prato preferido de outro jogador argentino que vocês já sabem que eu amo. Ele mesmo, Lionel Messi.

Dizem que aquelas feitas pelas mães argentinas são as melhores. Nunca comi a milanesa de uma mãe argentina, mas já comi várias vezes em alguns restaurantes ao longo da minha vida. Aquelas delícias se transformaram em memórias que me marcaram para sempre. Barriga cheia depois de caminhar sem rumo em uma noite fria em Buenos Aires, madrugada a dentro, com as mãos dentro dos bolsos do casaco, a toca enfiada na cabeça, aquela fumaça branca saindo da boca enquanto falávamos bobeiras e gargalhávamos. Andando por aí em estacionamentos gigantescos, cassinos, centros comerciais e à beira do Rio da Prata. Foi ali que vi, bem próximo ao estádio do Boca Juniors, alguns campos de futebol menores, com seus holofotes e seus jogadores amadores e amantes da bola, brilhantes contra o céu escuro. A Bombonera e seus arredores. É, o futebol sempre foi a minha paixão...


Jogo de história

Contra todas as dificuldades, o São Paulo fez um primeiro tempo muito bem organizado e dominante. Faltou só o gol par coroar. Viemos de uma pequena maré de sorte, vencendo o Bolívar (pela mesma Copa Sul-americana), o Bragantino e o Atlético Mineiro (pelo Campeonato Brasileiro). São Paulo melhor no primeiro tempo. Mas não tardou para que a maldição do segundo tempo entrasse em campo contra o tricolor. Gol do Boca Juniors, após linda jogada de Paredes e Merentiel, aos 6 minutos.

Seria tudo normal, não fosse a magia do futebol. Eu disse que esse é também um jogo de história.

O lance que originou o gol teve início em um lateral que o juiz, Piero Maza, deu para o Boca Juniors. No entanto, a repetição do vídeo deixou claro que o lateral favorecia o tricolor paulista. Juiz apressado e nem aí pra nada, vida que segue. O banco do São Paulo ficou atordoado e pediu para o quarto árbitro que ajudasse o juiz a marcar corretamente os lances da partida. Eis o nome do cidadão: Diego.

No banco do São Paulo, ficou pairando aquela repetição, berrada a plenos pulmões: “ajuda ele, Diego! Ajuda ele! Diego! Ajuda ele!!”. O narrador, que não sabia quem era Diego, perguntou, ao vivo: “o que eles estão dizendo? Quem é Diego?”. A comentarista explica a situação: estão pedindo para que o auxiliar “ajude” o juiz, ou seja, estão chamando o juiz de burro de maneira delicada.

Eis que talvez um outro Diego, sim, esse mesmo que vocês pensaram, o Maradona, enfim, deve ter “ajudado ele”, no caso, o Merentiel ou o Paredes e, minutos depois, saiu o gol do Boca Juniors.

Ali se joga assim.


Amor

Vocês já conhecem a minha paixão pelo futebol argentino, e podem me achar um tanto desequilibrada, exagerada, sem razão. Mas paixão é assim mesmo. Muitas vezes o que nos move não tem explicação. Agora, amor, amor mesmo, é só São Paulo.

A Bombonera exige sempre contato. É a força da paixão. A torcida empilhada, o jogo cheio de safanões e verborragia. O calor que sobe mesmo nas noites muito frias. Aquele famoso estádio deve ser um dos que mais pede pelo toque físico no mundo inteiro. Não é à toa que se chama “la Bombonera”, a caixa de bombons. Todos ali, espremidinhos.

No Morumbi é diferente. Gostamos de ostentar a nossa amplitude, os nossos gestos largos, o nosso ar fresco em um lugar também muito frio – O Morumbi é sempre frio. Gostamos de ouvir o nosso som subir e extrapolar as paredes que nos circundam. O Morumbi não é uma arena concentrada, com ou sem tecnologia acústica para fazer reverberar todo o som ali dentro. É uma bacia aberta que reflete para o céu todo o nosso amor. O Morumbi também enche, e, quando lota, é assustador. Treme tanto quanto a Bombonera, em uma escala, um estilo, um gosto, um amor diferente.

Que na semana que vem a sorte esteja com o meu amor.


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  1. Ah! A ironia dos nomes! Belmonte é também um dirigente são-paulino caçado pela torcida pelos seus “mandos atrapalhados”, para dizer o mínimo.