O gigantismo de Clarice
Como vocês já estão cansados de saber, a minha vida em comunhão com outros seres humanos sempre é um pouco complicada. Eu nunca consigo me decidir o quanto quero mesmo ter gente à minha volta, o quanto essa mesma gente acaba com o meu humor e me nega a companhia da minha própria solidão. Hoje acordei meio Clarice Lispector das ideias, querendo mais ou menos que tudo vá para o Inferno. Nem por isso acredito que Clarice era uma pessoa amargurada, como seus detratores nos querem fazer crer.
O tópico geral do meu mau humor vem da necessidade que as pessoas têm de cuidar da vida alheia – o que é irônico, porque recentemente escrevi aqui no blog que eu queria ser incomodada (por gente boa, também é importante essa ressalva).
Passei os últimos dias a imaginar que eu gostaria muito de viver imersa em um senso de comunidade que não temos mais. Me peguei amando ao próximo quase como o fazem os cristãos. Mas não é que eu seja ou não seja cristã, isso no fundo nem importa tanto assim, mas que eu seja um tanto Clarice. Não acredito que essa mulher não gostaria de “ser incomodada”, mas que ela tinha, talvez como eu, certo senso de “gente boa”. Alguns dizem: senso exigente o seu, vai acabar ficando sempre sozinha. Mas fazer o quê? De vez em quando a solidão é mais sincera.
Me pego pensando nessas palavras de Clarice e não consigo imaginar que alguém consiga ser mais cristalino do que isso.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.1
As interações sociais, para mim, se tornam rapidamente um enfado e um eterno cuidar da vida alheia. Prescrutar com o seu binóculo o que o outro faz para, então, menosprezar, ainda que seja “de brincadeira”. Na maioria dos casos, deixo estar. Faço, como comenta Clarice, o que não se deve fazer: sorrio em público daquilo que eu não sorriria quando ficasse sozinha. Mas de vez em quando não caibo em mim, e solto algumas frases constrangedoras. A de hoje foi: “você e Fulano amam cuidar da vida dos outros mesmo, hein?”. “É porque a Ciclana, de quem estamos falando, já fez isso em tal e tal circunstância.” “E...? O que vocês têm a ver com isso?”
Silêncio no ambiente.
A verdade é que eu não suporto que cuidem da vida dos outros e me contem. Meus amigos, eu realmente não poderia estar mais nem aí. Eu não consigo nem conceber a dimensão do meu gigantismo de nem aí. E imaginem só vocês quando eu percebo que alguém está a fim de cuidar da minha vida? É uma ojeriza sem igual!!
Não podemos mais ser tolos e ingênuos. Vivemos no tempo dos que se acham muito espertos, mas que são somente incapazes de amar. E, por isso, falar no que realmente importa é uma gafe. Quantas e quantas vezes já vivi esse tipo de situação? Quando finalmente penso que consegui dizer o que eu queria: silêncio, incômodo – ou, o que é pior, alguém vem me ajudar a dizer o que eu “queria ter dito”. Mas eu queria ter dito exatamente o que eu disse... Esse é o gigantismo de Clarice que se impõe na minha vida.
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Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p.45.↩