A vida de uma garota de 30 anos

Pressa

Dizem que a pressa é inimiga da perfeição. Será?

Nas últimas semanas, como vocês sabem, consegui um trabalho novo em uma editora. Diariamente, estou em contato incessante com a revisão de livros didáticos e, como em todo lugar que compõe a produção desse tipo de material, tudo é feito às pressas. Por quê? Só Deus sabe. O fato é que é sempre uma correria danada. A esteira está sempre atrasada, os prazos são sempre “pra ontem”. Realmente, com esse cenário, podemos pensar que a pressa é inimiga da perfeição: afinal, quem consegue fazer uma boa revisão de não sei quantas páginas com esse prazo em cima da cabeça? Como toda a produção sempre começa atrasada (Como? Só Deus sabe!!), os autores também já escreveram o conteúdo com esse prazo na cabeça e, também por isso, cometem erros, muitas vezes, conceituais.

Mas seria isso, no final das contas, um problema de perfeição? Se tivéssemos todos mais tempo, não conseguiríamos chegar mais próximos da estimada perfeição?

Isso tudo me leva a crer que, na realidade, tudo está perfeitamente normal. A não ser o fato de precisar que os revisores trabalhem no feriado, os coordenadores não tenham nem uma noite de sono tranquila, pois trabalham de segunda a segunda, podemos pensar que tudo está em paz, em perfeita paz. Os prazos serão cumpridos, em uma agenda que só Deus fez funcionar. Tudo será entregue, afinal, estamos atrasados para finalizar o livro que será lançado (se preparem!!!) em 2028. Sim, é uma correria danada, caso de vida ou morte.

A pressa não é inimiga da perfeição, pois a perfeição é estabelecida pelo relógio do neoliberalismo (e também de Deus). Produz aí um livro perfeito em 60 dias. O que sair daí, saiu. E será vendido. Quer mais o quê? Está perfeito!



Eu, no entanto, tenho um problema com isso – aliás, como quase sempre, eu tenho um problema com as coisas. Não consigo simplesmente deixar isso acontecer. Fico imaginando as crianças que aprenderão com esse tipo de material nas escolas e me entristeço. Já é difícil fazer com que elas tenham interesse em muitas dessas coisas. Mas e se uma delas se interessar? Não seria o meu papel deixar a vida dela mais agradável? Não seria o meu papel escolher belas imagens para ilustrar os tesouros encontrados pelos arqueólogos no Egito? Não seria o meu papel fazer com que ela aprenda a efetuar contas matemáticas de um jeito que ela se sinta mais capaz, e não desmotivada?

Não sei se esse é o meu papel, mas, de vez em quando, tomo como meu. E aí perco um dia de feriado revisando 20 páginas de um livro de História sobre Grécia Antiga – coisa que, sinceramente, não digo que foi tão ruim assim, uma vez que tenho um amor por esse tema desde os meus 12 anos, quando eu, ainda muito pequenina, descobri que existia essa coisa maravilhosa também por meio de um livro didático e de uma professora incrível, apaixonada, a Stelita.

Stelita não tinha pressa. Eram outros tempos. Me lembro de ter passado meses, quase o ano inteiro, aprendendo Grécia e Roma, na companhia de Stelita. Eu tinha verdadeiro encanto por aquelas aulas. Ficava vidrada nas palavras que ela dizia, na lousa, nas imagens, nos livros. Não sei se meus colegas também ficavam assim, porque eu sequer olhava para os lados. Minha vida era Stelita, e Grécia, e Roma. Amei, desde muito menina, a coragem de Aquiles, o oráculo de Delfos, Alexandre, o Grande, o Panteão romano, Otávio Augusto, Marco Aurélio e Espártaco. Viajava total naquela coisa toda. Sonhava em conhecer aqueles lugares, o Coliseu, a Acrópole de Atenas. Um dia, fiquei muito doente, precisei faltar por algumas semanas no colégio e nas aulas de Stelita. Quando retornei, estavam estudando feudalismo, e eu, ainda perdida no meio do Império Romano, me vi desolada.

Nenhum dos meus colegas era tão apaixonado quanto eu por História Antiga, e, para ser bem sincera, aos 12 anos eu não tinha a menor ideia do que era um feudo. Fui mal na prova de Idade Média e Stelita se preocupou muito comigo. Disse que não entendia aquela nota, já que eu tinha ido tão bem nas outras provas. Eu perguntava desesperada para os meus colegas: mas o que é, afinal, um feudo??? O que aconteceu com o Império? Acabou da noite pro dia? E eles me respondiam, sem entender a minha pergunta: ué, é simplesmente um feudo...

Eu entendi, sim, com o passar do tempo e a dedicação de Stelita, toda a organização social do feudo, os vassalos, os suseranos, a Igreja, os senhores feudais, os reis. A corveia, a talha, as banalidades. A produção alimentar, a vida comum e as guerras. Mas, no meu íntimo, continuou sendo muito estranho aquilo tudo ter acontecido só algumas semanas depois de eu ter pegado uma febre. Por onde andaria o glorioso Júlio César?

Vejam que esse estudo durou quase um ano da minha vida. Um ano de completa paixão, de descobertas loucas, de poder imaginar um mundo que eu nunca conseguiria construir da minha própria cabeça. Uma coisa incrível.

Ontem, estava eu aqui a revisar o capítulo de Grécia Antiga, como vocês sabem. E qual foi o meu espanto quando notei que 20 páginas abarcariam 2.700 anos de história? Fomos dos minoicos, povo que habitava a ilha de Creta e precedeu a civilização micênica, que serviria de base para “os gregos”, até Alexandre, o Grande. Em 20 páginas! Uau!! É o que eu disse para vocês: o material não está imperfeito, só precisa de alguns retoques. Aliás, está muito bem escrito, com imagens interessantes, atividades que convocam o estudante etc. e tal. Mas como alguém conseguirá estudar tudo isso em apenas um capítulo?


Parênteses: eu realmente não me recordo se o livro que eu li aos meus 12 anos era assim tão resumido ou se esses episódios eram mais prolongados. Se eu descobrir, por meio de pesquisa que pretendo fazer (porque eu não me dou sossego com essas coisas), que o livro era todo resumido, Stelita se tornará ainda maior na minha vida. Ficará tudo na conta dela: as aulas intermináveis, prolongadas e deliciosas seriam todas proposta dela. Stelita faleceu quando eu ainda era uma adolescente, mas ela nunca mais saiu de mim.


Voltando: como eu disse anteriormente, mesmo que o livro seja finalizado de forma “perfeita”, o próprio autor comete alguns erros conceituais porque, acredito eu, também escreveu tudo aquilo na pressa. Ao final do capítulo de ontem, depois de horas de leitura e de confirmação de informações, peguei o livro no pulo. Na última página, ele afirmava que Péricles, famoso político do período glorioso de Atenas, teria se inspirado no período Helenístico para realizar suas obras. No entanto, o período Helenístico ocorreu justamente por conta da derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso e do domínio macedônico, com Alexandre, que se deu depois disso. Cerca de 100 anos separam Péricles do período Helenístico.

Agora, pergunto para vocês: se eu tivesse lido tudo isso com muita pressa, será que eu me daria conta desse erro? Acredito que não. E, talvez, muitas crianças, professores, diretores, editores, pais, analistas de produção, analistas de qualidade, analistas de sei lá mais o que também não se deem conta desse erro porque estão todos com muita pressa. Mas e se uma criança de 12 anos, totalmente apaixonada, como eu, por Grécia Antiga, pegasse esse livro nas mãos com calma... será que isso não geraria nessa cabecinha uma dúvida tamanha? Os livros têm que nos servir!!! E, para isso, eles têm de ser feitos com calma, com paciência, com amor.

Por isso, hoje penso que a pressa não é inimiga da perfeição, mas da presença. Ninguém aprende nada sobre Grécia Antiga em um capítulo com não sei quantas atividades que devem ser feitas em 50 minutos. Alguém vai ter alguma recordação disso? Vai marcar a memória? Vai gravar no espírito? Duvido muito. Talvez só fique a recordação: tive, sim, uma aula de História sobre isso... tá, mas e aí? O que você estudou? O que você leu? O que você pensou? O que você sentiu? Provavelmente nada.



E como a pressa é inimiga da presença, venho também dizer para vocês que quero fazer muitas outras coisas aqui para o blog, mas que, no momento, estou sendo exigida demais, como vocês viram. Empresto o meu cérebro para todas essas coisas do trabalho, mas a minha cabeça ainda não parou de fervilhar de ideias para o blog. Aqui vai uma listinha do que vem por aí, um dia... quando a pressa dos outros me deixar em perfeitas condições de presença.


Listinha boa! Vai sair, gente. Só precisamos de um pouquinho de paciência.


Com amor,

Uma garota de 30 anos



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