Carta para o meu vizinho
Tenho visto pulular na vizinhança, por conta do clube do livro do Entreblogs, alguns textos sobre as Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski. Estou adorando acompanhar a reação das pessoas ao livro, que também me deixou, no mínimo, desconcertada. Sigo um pouco na linha do blog Fala, Catarina, no texto Juro, cavalheiros, que ser consciente demais é uma doença.
Quando li esse livro, lá pelo início do ano passado, fiquei com um mal-estar, uma impressão confusa toda guardada dentro de mim. Não consegui lê-lo em uma tacada só, fiz pausas por conta de indigestão mesmo. Mas insisti. Dostoiévski é um gênio do entendimento humano. E, aqui, não tomo a humanidade como uma coisa “gloriosa”, como o nosso destino máximo, mas falo do “bicho-homem” mesmo. Ele vira as nossas entranhas do avesso. Muitos dizem que é o único que alcançou esse patamar tão elevado na literatura – e eu acrescento: ao lado, talvez, de Machado de Assis1. Nietzsche o intitulou “psicólogo”. “Dostoiévski, o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte da minha vida [...]”2.
Depois de alguns meses vivendo com todas aquelas caraminholas de Memórias do subsolo na minha cabeça e no meu estômago, encontrei com o meu vizinho em um churrasco do nosso prédio. Nunca fui fã de literatura russa – sempre tive maior afeto pelos meus ingleses, franceses e estadunidenses. Meu vizinho, ao contrário, lê todos os calhamaços russos, e ainda fica feliz com isso. Garante que só gosta dos livros enormes, que sente prazer em absorver a atmosfera que se desenrola nos inúmeros capítulos, que só consegue dormir assim. Disse para ele que li o pequeno Memórias do subsolo e fiquei revirando aquilo ali por meses. Ele se espantou com a densidade com que encarei esse livro – mas, no momento, deixo para escrever sobre ela em uma outra oportunidade.
Hoje, pensei que seria interessante trazer para cá, uma vez que Dostoiévski está circulando entre os blogs vizinhos, a indicação que o meu próprio vizinho me deu depois de receber as minhas impressões sobre o mestre do realismo russo. Esse outro autor é o seu russo preferido. Meu vizinho me disse que ele dá uma balanceada no impacto de Dostoiévski. De certa forma, faz sentido enxergá-los assim, em uma balança (ainda que o preferido do meu vizinho também nos traga perturbações, elas são mesmo de outra qualidade). Afinal, esse autor era também profeta e acreditava piamente na humanidade, como um santo. E Dostoiévski era... bom, qualquer outra coisa. O autor misterioso, que será revelado nas linhas seguintes, também era meio vizinho de infância de Dostoiévski, ou ao menos nos parece que os 220 km que separam Moscou de Yasnaya Polyana ficaram pequenos perto desses dois gigantes da literatura.
Segue a carta que escrevi para o meu vizinho depois da leitura que fiz de A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói3. Li no exemplar dele, que foi devolvido em um embrulho junto com a carta e com um pacote de biscoitos orientais de arroz doce que adorávamos quando crianças. Vamos unir o útil ao agradável. Vejam a magia acontecer e fiquem agora com o meu eu do passado, pois o meu eu de hoje está a corrigir capítulos de Matemática.
Vizinho,4
Para mim, o livro terminaria na página 75, quando entra em cena a questão da pena. Tudo o que segue depois dessa cena me soou como excessivo em relação à história, porque ela mesma não parece pedir por isso – ou seja, é vontade do próprio Tolstói que as coisas sejam assim.
A tragédia seria: Ivan Ilitch reflete sobre a sua vida no leito de morte e ali descobre que não viveu verdadeiramente (foi levado, mas também sem oferecer oposição ferrenha, para uma vida ditada pela sociedade; uma vida que, agora, lhe parece falsa). Nesse momento, toda a pena que sentia de si pela sua condição de moribundo se transforma em pena da sociedade, representada, naquele momento, pela esposa e pelo filho. Pena da sociedade que não sabe o que é uma vida verdadeira, que vive de desejos e relações falsas, que sufoca ou desvia a verdade das pessoas. É assim que Ivan Ilitch descobre que passou a sua vida toda. Agindo de tal maneira e cercado de pessoas que vivem de tal maneira. Criando filhos com tal filosofia, gerindo seu casamento com tal filosofia.
Nesse momento, a culpa desaparece, pois Ivan Ilitch não tem mais pena de si (não culpa o mundo pela sua infelicidade), mas tem pena do outro. Essa pena do outro difere da culpa, porque ele não vê a sociedade por meio de um olhar julgador, mas por meio de um olhar que inocenta. Quase como se dissesse: “vocês, ah, seus bobos! Vejam como vivem! Não esperem se tornar moribundos como eu para perceber este erro!” É um olhar risonho, não o olhar do juiz (que ele mesmo foi durante toda a vida). Uma exaltação da inocência humana, e não da culpa. E esta é a tragédia: quando Ivan Ilitch começaria a viver verdadeiramente, morre.
Na verdade, esta seria a tragédia. Mas, como não se trata disso, Tolstói insere o perdão – um perdão que Ivan Ilitch pede a seus familiares, mas que não é compreendido, pois ele está fraco demais para pronunciar as palavras corretamente. Logo depois de sentir pena, não de si, mas dos outros, ele pede perdão. E, algumas horas depois, morre. E morre alegre, por encontrar a morte. Porque a morte aparece como aquilo que o liberta da vida e da dor. Nesse sentido, parece que, para Tolstói, a morte se torna um corolário desse saber verdadeiro sobre a vida – é só no leito de morte que Ilitch chega a descobrir a vida verdadeira, e é só na passagem da vida para a morte que ele realiza essa vida verdadeira.
Não sabemos o que existe depois da morte, mas “Tolstói sabe”, porque ele é, além de escritor, um profeta. E é aí que tudo se torna um pouco estranho para mim. É confortável pensar que viveremos de acordo com a verdade depois da morte, em um “plano superior” (é assim que a morte é vista por Tolstói aqui, como um “plano superior” que nos liberta da dor e do que é falso). No entanto, requer muita coragem para viver a vida de forma verdadeira ainda em vida. Por que não podemos passar a viver de outro modo ainda em vida?
É claro que, na novela, essa possibilidade não existe, uma vez que Ivan Ilitch está no seu leito de morte e, de todo modo, não poderia passar a viver de outra maneira. É também claro que toda essa inversão que Tolstói faz nos valores de vida e de morte, de juízo e de culpa, tornam o homem um “bicho interessante”. No entanto, toda essa inversão não é também capaz de nos deixar tontos, a ponto de pensarmos que a morte é o que nos libertará, que a morte é o que nos fará viver a vida que queremos? Tudo isso não seria uma covardia sem fim diante de nós mesmos?
Enfim, o que eu adorei:
A forma pela qual Tolstói aborda e descreve a doença. A forma pela qual a relação com os médicos aparece na novela. A oscilação entre a esperança de se curar e o mal sem fim. O ar de superioridade com que os médicos tratam os doentes, como se seus desejos fossem frutos de “crendice”, cuja ajuda para o tratamento é nula (Para o médico, não faz diferença se Ilitch fica com os pés para cima; para Ilitch, o único bem-estar que ele pode garantir para si depende dos seus pés “pendurados”). A forma pela qual Tolstói atrela o sofrimento moral de Ivan Ilitch com o sofrimento físico: a relação direta entre a crescente dúvida sobre a qualidade da sua vida, da sua família, do seu desejo, da sua carreira e o aumento do sofrimento físico.
O fato de Ivan Ilitch “esquecer do mundo” por meio do jogo. Até aprendi a jogar Copas e por um momento fiquei viciada.
Guerássim. Absolutamente tudo sobre ele. Até mesmo as escolhas de Tolstói para representá-lo como representou.
A escrita e a linguagem de Tolstói – direta, simples. Chamar as coisas pelo que elas são. Por isso o final parece tão destoante, tão “devaneio”. Analisando de forma direta, qual seria o nome que daríamos para essa atitude enunciada por Tolstói como “derradeira”? Negação da vida como ela é?
Beijos,
Uma garota de 30 anos5
São Paulo, 30.09.2025.
P.S. (para vocês mesmo, e não para o meu vizinho da carta): adoro a ideia de ter vizinhos, tanto na vida real quanto aqui no blog! Ao longo da vida, tive muitos vizinhos. Esse, em específico, conheço desde que me tenho por gente, e hoje não nos falamos tanto quanto antes. Ainda assim, de vez em quando nos encontramos nos churrascos e conversamos sobre tudo, até literatura russa!! Mas esse papo com ele, por melhor que seja, fica como uma coisa que ocorre uma vez por ano. É como eu digo... São Paulo é uma cidade meio desalmada mesmo. Aqui, com vocês, adoro esse contato mais próximo, a nossa troca de cartas e as possíveis convergências entre os textos. Como uma longa conversa, tomando um café, conversando fiado, como disse o th. Adoro essa intimidade da convivência que só os vizinhos nos permitem sentir.
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Sobre essa característica de Machado, recomendo o texto fresquinho do meu vizinho de Bear Blog, th: Bentinho é um vacilão. Tem também esse, que fiz há alguns dias, em que trago alguns elementos que abordam esse tema em Memórias póstumas de Brás Cubas: [Re: th.blog e mikahgosto] De onde vem o meu amor pelos livros?↩
Friedrich Nietzsche. Aforismo 45 de “Incursões de um extemporâneo”. Crepúsculo dos ídolos (ou como se filosofa com o martelo). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017. P. 9.↩
Liev Tolstói. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2025.↩
Aqui, evidentemente, consta o nome verdadeiro dele no texto original.↩
E, novamente, o original está assinado com qualquer outra coisa. Apenas mantenho aqui o meu imbróglio da “não-identidade”.↩