A vida de uma garota de 30 anos

Off-line

Nos últimos dias, tenho sentido uma vontade absurda de ficar off-line. Off-line de tudo. Vocês já sabem que eu não tenho redes sociais há muitos e muitos anos, mas de vez em quando me dá vontade até de parar de responder no WhatsApp. Que me perdoem as pessoas, mas tem hora que nem esse “simples aplicativo” eu aguento.

Quem tem intimidade comigo sabe que eu, como os incas, adoro o bom e velho telefone. Quem tem intimidade comigo sabe que pode me ligar e eu não ficarei incomodada com essa atitude. Agora, ficar pendurada no WhatsApp para conversar por horas a fio? Me apetece vez ou outra. Acompanho, durante certo período, os grupos animados de colegas do trabalho. Converso um pouco, dou minha parca contribuição de memes durante a semana, mas não é algo que é constante na minha vontade. Logo me desinteresso.

Durante essa semana toda, chove desesperadamente em São Paulo. Ruas e túneis alagados, enchentes para todo lado. Uma coisa horrível. Quem diria que um planejamento urbano voltado quase exclusivamente para o mercado imobiliário daria em uma coisa dessas?

Há também, e sejamos sinceros, aquela sensação de viver entre turnos de eleição nesse mês de outubro. Não acredito que esse período seja o ideal para tirar de qualquer pessoa a sua “melhor versão”. Todos ficamos um tanto obcecados, monotemáticos, à espera.

Eu, no entanto, e na medida do possível, não quero atrelar a minha saúde de forma completa a esse movimento geral das sociedades contemporâneas, e tento, na medida do possível, continuar a vida em outras direções.


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Por exemplo: estou a estudar Antropologia como nos meus velhos tempos. O meu querido Estruturas elementares do parentesco chegou, via correios, no meio dessa semana, e já comecei a ler as primeiras páginas. Também estou fazendo resumos para que eu me recorde do assunto depois, bem como na época das temidas provas. A gente lê uma coisa e acha que vai se lembrar dela pra sempre, mas, quando o momento posterior chega, sempre nos arrependemos de não ter anotado uma coisa ou outra. Enquanto começo essa nova leitura, estou finalizando o meu resumo de “As organizações dualistas existem?”, do livro Antropologia Estrutural, também de Lévi-Strauss. Perguntinha interessante para esse período eleitoral, né não?


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Ah, e ainda sobre Antropologia: estou empenhada nos meus cursos, que são, sim, on-line, mas que não me drenam as energias, então não conta como “estar on-line”. A internet, nesse campo dos estudos, me fortalece. Apesar disso, acredito piamente que nada substitui a intimidade da sala de aula presencial.

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Outra coisa que tenho feito é pintar. Mais para esvaziar a mente do que para fazer uma pintura perfeita ou um projeto final. Por isso, peguei uma fanart que eu amei do Sasuke e resolvi copiar para pintar em giz pastel. Queria testar esse fundo rosa bem vibrante e, por enquanto, estou achando que o resultado está ótimo. Para mim, pintura é tudo sobre a famosa confiança no processo. No começo, parece que não tem como dar certo. Conforme as coisas caminham, tudo vai se encaixando. Essa pintura ainda está nesse estágio da foto, e até que caminhou a passos rápidos. Fiz tudo isso em um dia só. O papel é tamanho A3, então ela não é tão pequena assim. Isso, evidentemente, toma mais tempo.


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Quando a gente pinta, não necessariamente interpreta o tempo da pintura como uma coisa a ser levada em conta. O que eu quero dizer com isso? Que eu acho, verdadeiramente, que a gente só sabe o quanto demora para finalizar uma pintura depois que a gente finalmente bota a mão na massa. No plano da ideia, parece natural pegar uma folha de A2, uma tela enorme para fazer uma pintura grandiosa. Na prática, meus amigos, a coisa é outra! Basta fazer um estudo de cor ou um breve rascunho em escala reduzida e depois compará-lo com o tempo gasto na pintura final. É uma coisa insana o tamanho dessa multiplicação!


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Ontem, a plataforma que eu preciso usar para trabalhar caiu, por volta do horário do almoço. Pude aproveitar para pegar um cineminha enquanto o problema não era resolvido. Dizer “cineminha”, aliás, é sacanagem, pois fui assistir a um dos filmes mais grandiosos de todos os tempos: Ran, de Akira Kurosawa. Pretendo falar mais sobre ele em outro momento.

E, por fim, mas não menos importante, estou fazendo outras coisas manuais e corriqueiras nessa minha incessante busca por ficar off-line. Tentei até fazer leite de aveia em casa, acreditam? Mas não deu certo. Não ficou nem um pouco parecido com os leites que a gente compra por aí embalados em caixinhas e tão deliciosos. Talvez funcione para fazer receitas, bolos, biscoitos, mas para beber ainda não ficou bom.

Hoje vou dar uma pesquisada nos tipos de linha que posso comprar para fazer bordado russo e, juntando essa pesquisa com o restante da lista de materiais que fiz ao longo da semana, vou para o centro da cidade comprar tudo o que preciso. Acho que começarei a fazer o meu primeiro bordado durante o final de semana. Estou super animada.

Também comprei uns pijamas bem fofinhos esses dias em uma loja que está fazendo bota-fora de tudo, bem naquela vibe “deu a louca no gerente”, sabem? Há muito tempo que eu queria esses conjuntinhos super tradicionais, com camisa de botão e tudo mais. Fiquei mais velha e passei a achar isso uma coisa lindinha. Mas, durante toda a minha vida, pijama pra mim foi toda aquela roupa velha que não dá mais pra usar pra sair. Algumas ficam até rasgando e eu continuo usando para ficar em casa. Minha filosofia de moda tem a ver com Henry David Thoreau, e quem sabe outro dia eu falo mais sobre isso aqui também.

Ahh! E dei a grande sorte de comprar alguns livros usados que parecem novos por preços ótimos, como esse Estruturas elementares do parentesco, da primeira foto desse texto.

Enfim, quantos assuntos! Uma coisa nada a ver com a outra! Na verdade, o que as une é essa minha busca por ficar off-line. Acho que, em certa medida, todo mundo se sente um pouco assim na vida, meio desconectado das coisas que estão ao redor. Mas, vez por outra, essa desconexão vem também da gente não se sentir em casa dentro de si. Quando começo com isso, já vou me arrumando, pensando nas coisas que eu gosto de fazer e botando pra fazer acontecer. E, com isso, resolvo que é hora de ficar off-line. Mas não tenham medo, eu não abandonarei o blog. Afinal, ele também me mostrou que o mundo on-line pode ter outro ritmo.


Uma sexta-feira maravilhosa (e off-line, se você quiser) para todos nós!



Com amor,


Uma garota de 30 anos



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