Doutor Estranho: tempo e eterno retorno
Doutor Estranho (2016) é um super filme de super-herói. Nele, lidamos com os vilões que precisam ser derrotados e com o herói que deve passar por uma transformação a partir de uma revisão de si mesmo. Somos apresentados à mocinha amada pelo herói, aos mestres e aos discípulos, aos elementos mágicos necessários, à oposição entre o bem e o mal etc. e tal. Mas e se eu te disser que Doutor Estranho é também um dos filmes por meio do qual podemos apreender da maneira mais simples um conceito complexo da filosofia de Friedrich Nietzsche? Você acreditaria?
Talvez você já tenha ouvido falar da ideia de eterno retorno por aí, não necessariamente por meio da filosofia de Nietzsche. Talvez você goste muito de Nietzsche e ainda não tenha lido sobre a ideia do eterno retorno. Para mim, esse conceito é tão central na sua filosofia quanto na minha vida. Ele se encontra, evidentemente, presente no livro que sempre chamo de “guia da minha vida”, o glorioso A gaia ciência. Entrei em contato com a ideia de eterno retorno pela primeira vez lá pelos meus 18 anos e nunca mais a esqueci. Eis o que diz o famoso filósofo no famoso aforismo, intitulado “O maior dos pesos”:
E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem [...]” — Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou?1
Perguntinha capciosa. Vejamos o que Doutor Estranho pode nos ensinar sobre isso.
Breve contexto: antes de ser Doutor Estranho, Stephen Strange era um médico muito dos exibidos e, digamos, um tanto intragável. Ele sofre um acidente de carro, motivado também pela sua arrogância e por acreditar ser um suprassumo de ser humano, capaz de dirigir e usar o celular ao mesmo tempo. Sua arrogância também não lhe permite ver o amor que aqueles que estão ao seu redor sentem por ele. Depois do acidente, o médico infalível fica sem o movimento das mãos e passa a viver o seu maior pesadelo, já que está afastado de seu instrumento de trabalho que lhe garantia toda a glória.
Se lhe aparecesse, como propõe Nietzsche, um demônio para dizer que ele viveria inúmeras vezes essa mesma vida, essa mesma dor, ele certamente o amaldiçoaria.
Mas eis que o nosso herói tem de avançar na história e Stephen Strange recorre a um templo chamado Kamar-Taj para se recuperar. Ali, aprende que deve disciplinar primeiramente seu espírito e sua mente para, em seguida, conseguir retomar o controle sobre o seu corpo físico.
Enquanto estuda no templo, Stephen Strange se torna aos poucos o Doutor Estranho (Doctor Strange) e descobre, entre outras coisas, a possibilidade de criar dimensões de tempo-espaço paralelas. Inteligente que é, descobre também que a origem dessas dimensões está em uma certa “magia obscura”. O vilão do filme, Kaecilius, é um fanático ex-estudante do templo que busca entregar a Terra e as vidas humanas para essa magia obscura em troca da vida eterna, uma vez que nessa outra dimensão o tempo não passa.
A batalha final se dá entre essas duas posições: entregar-se para Dormammu nessa dimensão obscura e viver a vida eterna ou defender a Terra da aniquilação do tempo, pois atingir a vida eterna imediatamente nos conectaria a uma dimensão atemporal.
É aí que Doutor Estranho se torna, também, um filme de filosofia. O médico agora super-herói se dá conta do tipo de trabalho que tem diante de si quando seu inimigo informa que, na outra dimensão, todos nós estaríamos situados “além do tempo”. Stephen se encaminha diretamente para o centro da dimensão obscura para negociar com Dormammu, deus da dimensão obscura e atemporal. Utilizando seus poderes, Stephen faz com que seu diálogo com Dormammu entre em um looping, ou seja, em um eterno retorno. Nesse diálogo, Stephen busca negociar, infinitas vezes, o afastamento dessa dimensão atemporal do planeta Terra.
Dormammu se enfurece. Nunca viu algo assim acontecer. Mata Stephen inúmeras vezes, mas ele sempre retorna com a mesma proposta: eu vim para negociar.
Nesse momento, é como se o demônio nietzscheano tivesse tomado corpo em forma de cena de cinema: é o eterno retorno se repetindo ali. E, em todas as repetições, acontece exatamente a mesma coisa, assim como proposto por Nietzsche.
Dormammu compreende essa repetição e questiona: você não vai se cansar de vir aqui inúmeras vezes propor a mesma coisa, ter o mesmo diálogo e, enfim, morrer? Stephen responde que não. É para isso que ele veio: para negociar.
A atitude de Doutor Estranho diante de Dormammu segue a filosofia de Nietzsche em um outro caminho, proposto no final do aforismo citado. O filósofo diz que poderíamos amaldiçoar o demônio que nos impõe o eterno retorno ou que poderíamos ter experimentado na vida um momento tão intenso que, por conta dele, lhes responderíamos: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”2. Abraçaríamos, com alegria, o eterno retorno. Seríamos como Stephen: não há nada a fazer de diferente, só viemos aqui para negociar.
Se lembram que no começo do texto eu disse que Stephen era um médico arrogante que não via o amor daqueles que estavam ao seu redor? Pois é... diferentemente de filmes de herói tradicionais, Doutor Estranho não tem, ao menos no primeiro filme, um final feliz em relação ao amor. Mas vejam o presente que amada de Stephen lhe deu, ainda quando médico. O relógio foi a única coisa que ele preservou de toda a sua riqueza ao gastar tudo o que tinha para tentar se “consertar” e ser o que era antes do acidente, ou seja, na sua tentativa de “voltar no tempo”.

Essa é, portanto, a questão do tempo e do eterno retorno em Doutor Estranho. O vilão nega a passagem do tempo, por meio da vida eterna. O herói afasta esse mal do planeta, impedindo que tudo se aniquile em uma dimensão atemporal. O enfretamento vem justamente por meio da afirmação do tempo. Mas não o tempo de uma maneira simples, porque esse tempo não é linear, cronológico, “normal”. É um tempo do eterno retorno. É, também, uma forma de amor ao tempo, que só pode se afirmar quando caminha junto de uma afirmação de si, ou seja, das suas escolhas, do seu caminho, enfim, do seu destino... Não teria como fazer diferente. Tudo o que há é uma infinita repetição de “eu vim para negociar”.
Se um demônio perguntasse ao Doutor Estranho “você viveria essa vida inúmeras vezes?”, acredito que ele mostraria para nós, como um bom nieztscheano, que aprendeu a ser “apenas alguém que diz Sim”3.
Não pensem vocês que a coisa acaba aqui. Como nos filmes da Marvel, esse texto também possui uma “cena após os créditos”. Afinal, por que esse famoso aforismo se chama “o mais pesado dos pesos”? Porque, para Nietzsche, toda essa reflexão não poderia estar mais próxima, também, da sua eterna perspectiva de balança e da sua visão de destino. Mas esse já é um papo para outro texto.
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