Páginas do meu sketchbook #2
Bom dia, gente!! O BEDA está a todo vapor! Estou amando acompanhar tudo por aqui.
Enquanto digito essas palavras, uma maritaca verdinha se aproxima de uma árvore, bem na minha frente, e se aconchega nos galhos mais altos. Vou interpretar isso como um abraço de boa sorte para todos nós durante essa semana.
A página de hoje é composta de 5 estudos, sendo 4 deles do Velázquez e um do van Gogh.
Bora lá!

O objetivo do estudo do van Gogh não era, na realidade, fazer algo muito parecido com o original, estudar anatomia ou analisar proporções – vejam como ele ficou totalmente diferente do quadro do pintor holandês. O que era preciso, nesse momento, era testar duas coisas: a quantidade de sobreposições que eu conseguiria fazer nesse papel e a capacidade de utilizar o giz pastel oleoso para atingir algum tipo de resultado que evocasse as características tão únicas das pinceladas amadas mundo afora.
Para os curiosos: esse meu sketchbook é um A4 da Canson, com papel 100 mg/m². Em geral, ele é muito bom dentro dos limites que esse tipo de papel pode proporcionar. Funciona maravilhosamente para o dia a dia, experimentações e, principalmente, mídias secas. Não recomendo muito para marcadores, por ser uma folha um pouco porosa que absorve relativamente bem as tintas.
Voltando ao van Gogh: acho que deixei a expressão dele um pouco engraçada, como se estivesse assustado (se bem que van Gogh vivia a vida relativamente assustado mesmo). Ficou parecendo mais um espantalho, tadinho! No entanto, gostei bastante do resultado do chapéu, mesmo com as limitações que vou descrever abaixo. Para vocês verem como não é preciso que tudo fique perfeito para que a gente goste de alguma coisa.
Sobre os testes que pretendia fazer com esse desenho: esse papel permite poucas sobreposições – ou quase nenhuma – como era de se esperar. O giz da Pentel também não favorece a sobreposição, porque contém muita cera em sua composição e, em determinado momento, o giz para de sobrepor e começa a arrancar as camadas de baixo. Mas, nesse caso, a culpa não foi totalmente do giz. Porque, para lidar com giz pastel oleoso, temos que contar mesmo com papeis grossos e muito mais porosos do que esse. Vejam o resultado que consegui em tecido, com o mesmo giz da Pentel, para vocês verem que é possível obter coisas melhores mesmo com material mais barato.
Acho que o giz pastel oleoso não é ainda a minha mídia favorita para fazer meus estudos da obra de van Gogh. Por mais estranho que isso possa parecer, até agora, eu sinto que o lápis de cor é o meio que mais me favoreceu para fazer os meus estudos de suas criações. Dia desses trago aqui para vocês.
Agora, vamos aos estudos de Diego Velázquez.
Alguns deles ficaram bem parecidos com os originais – claro que ainda na forma de releitura. Mas digo que são parecidos porque você bate o olho e enxerga que o estudo foi feito em cima daquela obra.
É difícil atingir esse nível de similaridade. É claro que vocês reconhecem que todos esses desenhos são de homens, com olhos, boca, nariz etc e tal. Mas, além disso, elas são imagens de homens, olhos, bocas e narizes específicos. E essa é a dificuldade.
Sinto, no entanto, que já estou melhorando com a prática. Ontem de noite, meio que motivada também pelo blog, fiz outro desenho de Velázquez que achei que ficou bastante parecido. Amanhã trago para vocês verificarem.
No final das contas, as proporções são muito mais importantes do que elas parecem à primeira vista. Basta saber demarcá-las (e, é claro que “saber”, nesse caso, implica muito erro, muito treino, muita tentativa, muita mão) e a similaridade começa a dar o ar das graças.
Por fim, umas poucas palavras sobre esse deus Hermes (o segundo desenho da página, de chapéu), criado pelos gregos antigos e conhecido até hoje como deus mensageiro.
Na primeira aula do curso sobre a deusa Ártemis, que fiz no sábado, aprendi que pouquíssimas divindades podiam adentrar o Hades, o submundo. Seriam elas o próprio Hades, deus desse lugar, Perséfone, sua esposa, e Hermes, o mensageiro. Ele precisa circular livremente por todos os lugares, entre todos os mundos.
Ontem de noite, eu li o hino homérico a Afrodite1 e descobri que também nesse texto Hermes representa papel importante. Além de mensageiro das comunicações entre a deusa e Zeus, Hermes aparece como alguém que habita os bosques umbrosos, junto das ninfas e dos silenos (ou sátiros). O deus mensageiro faz parte desse imaginário em torno do bosque, seus carvalhos e pinheiros, suas grutas de amor, habitadas por esses seres que não são nem humanos nem deuses. Eles são seres do meio do caminho. E Hermes é aquele que circula por todos os caminhos.

Mercúrio e Argos, de Diego Velázquez. 1659. Museu Nacional do Prado, Madri, Espanha.
Incrível o fato de Velázquez ter transformado o pétaso, chapéu que indica os viajantes na Grécia Antiga, em um chapéu de malandro, de sedutor. Porque Hermes é, também, um deus “trickster”, ou seja, as suas mensagens não são necessariamente diretas. Ele gosta de brincar, de confundir, é um embusteiro.
Ah! Vejam há quantos e quantos anos nós fazemos as mais belas releituras dessas histórias!
Na minha versão, eu diria que Hermes ganhou olhos puxados e cavanhaque de japonês, meio que sem querer mesmo, por falta de técnica ou de cuidado da minha parte. O inconsciente ficou livre e criou isso aí. E, agora, percebo o quanto o velhaco é importante também na cultura do Japão: figura cultural amplamente vivida por meio, por exemplo, dos tanukis, desenhados com tanto amor também em Pompoko: a grande batalha dos guaxinins (1994), do Studio Ghibli.
Enfim, Hermes é o meu preferido dessa página, apesar do desenho do aguadeiro de Sevilla ser muito mais fiel ao original.
Uau! Não é sempre a criação a melhor parte da arte?
Segue a lista com as obras utilizadas para referência.
Retrato de Juan de Pareja (1650), de Diego Velázquez.
Mercúrio e Argos (c. 1659), de Diego Velázquez.
Adoração dos reis magos (1619), de Diego Velázquez.
O aguadeiro de Sevilla (c. 1620), de Diego Velázquez.
Autorretrato com chapéu de palha (1887-1888), de Vincent van Gogh.
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Hino homérico a Afrodite (nº 5). Hinos homéricos. Tradução de Edvanda Bonavina da Rosa et.al. São Paulo: Editora Unesp, 2010.↩