Sobre falar demais
Acho que todos nós, de vez em quando, temos aquela sensação de “falei demais”. Alguns podem ter isso depois de estar em uma roda de conversa, entender alguma coisa de forma equivocada e sair por aí discursando. Depois de um tempo, percebe que falou demais. Outros sentem isso depois de contar sem querer a confidência que uma pessoa lhe fez para outra. Falou demais. E ainda há quem sofra depois de inventar uma mentira como desculpa para não ir a um compromisso e, depois, esquecidamente, revelar seus verdadeiros motivos. Puts... falou demais mesmo.
Eu, e imagino que muitos de vocês também, sinto que falo demais quando imagino que “me expus” de forma excessiva diante do outro, que falei muito sobre a minha vida, que deixei aquela pessoa saber sobre “as minhas coisas”. Acredito que essa é uma das piores formas de sentir que “falamos demais”, porque esse sentimento, nesses casos, não vem de uma gafe, mas de algo mais intenso. E por que, afinal, sentimos essa coisa horrível especialmente nesses momentos? Acho que a resposta pode variar de caso para caso. Vou contar o que acontece comigo.
Quando não estou nos meus “dias ansiosos”, sou uma pessoa muito atenta com tudo. Isso significa que eu presto atenção em tudo o que acontece? Não, mas que eu faço as coisas prestando atenção naquilo que eu faço. Então, se eu vou almoçar, eu vou almoçar almoçando. Se eu vou lavar louças, vou lavá-las lavando. Se eu vou falar com você, vou falar com você falando com você. Isso significa que eu não estou fazendo outras coisas enquanto eu faço essas que listei aqui. Estou comendo em silêncio, comendo a comida, mastigando e só. Se eu estou andando na rua, estou andando e só. Não estou de fones e não estou no celular. É claro que isso tudo é na grande maioria dos casos. De vez em quando, sim, eu limpo a casa ouvindo um podcast, ando na rua com uma música de fundo – mas nunca com aqueles fones que vedam 100% o som externo. Especialmente com a pintura, ouvir música até me ajuda, e gosto de fazer essas duas coisas ao mesmo tempo.
Mas o que eu tenho pavor, e aqui é pavor mesmo, é quando você está falando com alguém e a pessoa está fazendo outra coisa. E, por outra coisa, não digo coisas normais como tarefas manuais, coisas do dia a dia. Estou dizendo coisas que dividem o cérebro dela em dois: um que conversa com você e outro que pensa em outra coisa. Vocês sabem: é comum nos dias de hoje conversar com alguém e mexer no celular ao mesmo tempo, ler alguma coisa de canto de olho, continuar a digitar no computador um relatório. Isso me enfurece, mas também me deixa triste. Como eu não gosto de conversar assim com as pessoas, prefiro aguardar o momento em que elas não estarão ocupadas. E, pasmem, isso quase nunca acontece.
Então sinto que o mundo todo está caminhando em ruas tipo as de Nova York, naqueles filmes em que as garotas lindíssimas saem com vários cafés nas mãos rumo aos escritórios, e eu estou lá também, mas não sou essas garotas. Talvez em algum dia tenha sido o meu desejo ser como elas. Mas hoje sei que sou uma segunda garota, que estou ao lado dessa, tentando conversar com ela sobre as minhas coisas e as coisas dela. E ela está lá, correndo atrás de mundos e fundos. O que eu devo fazer? Devo ajudá-la a carregar aquilo tudo para que então tenhamos tempo de ir tomar o nosso café, dar uma volta por aí, papear sobre a vida, dar risada, se divertir? Mas é aí que eu descubro que, mesmo se eu ajudá-la, não faz tanta diferença assim. Afinal, quando é que acaba o horário dela de carregar o café dos outros?
Por isso, quando falo sobre mim, sinto que estou falando sozinha. Não é que eu espere uma comoção geral e pública diante das minhas questões. Mas eu espero alguma coisa a mais do que um “hã...” murmurado pelo telefone – e, nesse “hã...” você percebe que a pessoa está pendurada no bocal para conseguir “te escutar” e continuar respondendo aos e-mails, às mensagens do WhatsApp, ao chefe que pede alguma coisa, à demanda doméstica que acabou de chegar.
Todos nós estamos ocupados – inclusive eu! Mas eu sou meio à moda antiga. Não tenho costume de redes sociais, não tenho perfis ativos há mais de dez anos. Não assisto a vídeos rápidos e curtos. Eu gosto é do papo por telefone, daqueles em que a gente se enrolava nos fios de tanta conversa que tinha para pôr pra fora. Na ausência disso, sou uma pessoa dos áudios longos no WhatsApp. Me conta, sim, sobre a sua vida, sobre como você se sente, sobre o que você fez hoje. Ou, melhor ainda, me liga no meio do dia, sem avisar. Vamos bater um papo enquanto tomamos sol no horário de almoço, cozinhamos o jantar, rolamos na cama antes de dormir. Mas ninguém para nem por 5 minutos para ouvir e mandar um áudio, imagina ligar para falar no telefone! Isso acaba se tornando algo que precisa ser encaixado na agenda.
E aí eu me pego pensando que eu “falei demais”. Falei demais porque criei um compromisso na agenda de alguém ao mandar um áudio de 5 minutos falando que fui ali na padaria e comi um bolo gostoso e encontrei uma pessoa do meu passado que me deu dor de barriga e agora eu não sei como estou me sentindo. Ela vai ouvir esse áudio daqui a sei lá quantos dias... e a dor de barriga (ainda bem!) já vai ter passado.
O engraçado é que aqui no blog, onde falo pelos cotovelos, não sinto tanto essa sensação de “falei demais”. No entanto, confesso que senti um pouco quando escrevi a sessão vomitório, e falei sobre coisas da minha vida que não são tão agradáveis assim. Também quando escrevo sobre o trabalho, de vez em quando tenho a sensação de estar “falando mal dos outros”. E vocês sabem que eu tenho pavor de fofoca.
Acontece que essas coisas não são, na realidade, bem uma fofoca, porque para mim pouco importa o que vocês acham sobre essas pessoas de quem eu falo. Demorei para perceber que as “coisas dos outros” também fazem parte das minhas experiências e, sobre elas, eu conto para quem eu quiser. Até para o blog. Então, mesmo quando eu sinto que “falei demais” por aqui, penso que é uma sensação diferente dessa que relatei acima. Porque vocês mesmos nunca me disseram que não se interessam pelo que eu digo – ao contrário, recebo sempre mensagens incríveis me dizendo que gostam de ler o que eu escrevo.
Então aí me esforço um pouquinho para falar mais sobre mim, para deixar que o outro “me descubra”, para deixar que vocês vejam também que eu, além de coisas boas, tenho inúmeros problemas – na família, no trabalho, nas amizades, no meu modo de ser. Aí me esforço para não me fechar demais, não ficar encolhida achando que ninguém quer saber sobre mim... Talvez eu tenha experimentado isso poucas vezes, e por isso há tanto estranhamento. Por muitos e muitos anos, vivi todas essas coisas sobre as quais agora escrevo achando que, se eu falasse para alguém, eu estaria “falando mal” dos outros. Porque, afinal, era assim que as pessoas recebiam o que eu falava. Se eu quisesse conversar sobre as minhas coisas, as pessoas liam como se eu estivesse trazendo uma fofoca sobre a vida alheia. E, na realidade, eu queria só falar sobre o que eu sinto. Mas foram poucos os ouvidos que eu encontrei nesses meus 30 anos.
Por isso me esforço para falar aqui com vocês sobre todas essas coisas – e muitas outras que ainda virão. Me abrir de pouco em pouco. E sei que eu disse para vocês que a melhor atitude sobre o livro de Ágota Kristóf é ir sem saber de nada, mas preciso dizer algumas palavrinhas breves sobre ele, que não chegam a ser spoiler nem nada do tipo, porque isso já está escrito na contracapa (que eu também não li, e recomendo que vocês não leiam. Ai, agora fiquei confusa sobre o que recomendar. Se você preferir, pule o restinho desse parágrafo que também funcionará). Kristóf relata a história de dois irmãos gêmeos que vivem atravessados pela guerra. E, para “treinar” viver nesse mundo da guerra, eles se obrigam a passar por exercícios diários em que eles têm de suportar as piores coisas do mundo. Eles vão treinando seus corpos, suas mentes e seus corações para o mundo da guerra. Os dois têm uma natureza muito doce, que vai, aos poucos, sendo moldada por aquela situação.
Essas poucas páginas que li da Trilogia dos gêmeos já me botaram pra pensar pra caramba. Do ponto de vista filosófico, sociológico, político, antropológico, já disse aqui para vocês de forma breve1, quando falei sobre o livro de Wisława Szymborska, que toda a nossa experiência é marcada pela Segunda Guerra Mundial e seus efeitos. Não há uma esfera da vida que passou ilesa a esse acontecimento. É porque nós vimos o horror que nós mesmos podemos ser. E, a partir daí, passamos a conviver em um mundo que em parte busca se desvencilhar disso e em parte está erguido sobre isso. Mas do ponto de vista psicológico, individual, solitário: não é também isso que fazemos com nós mesmos? Moldamos os nossos corpos, as nossas mentes e os nossos corações para a guerra. E, quando nos pegamos precisando amar, sentimos que é algo que temos que nos esforçar, reaprender, exercitar.
Então, o que fazer quando sentimos que “falamos demais”? Se esse sentimento vier do fato de você achar que merece atenção melhor, sim, de fato, você merece atenção melhor! Aí, precisaremos de encontrar melhores interlocutores. Agora, quando a pessoa realmente quer saber e, ainda assim, você se sente acanhado em se abrir, tente. Aos pouquinhos. Vai se revelando, e deixando que o outro se revele também. Vai ver estamos todos nós com os nossos corpos preparados para a guerra, só desejando que o amor transforme essa armadura em uma miríade de cacos que não valem mais a pena.
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Digo de forma breve porque estudei isso por cerca de 4 anos durante a faculdade e cerca de mais 4 anos durante a pesquisa. Gente, é coisa, viu? Um dia, se eu me inspirar, faço um texto maior explicando tudo isso com mais calma. Mas é preciso estômago, muito estômago mesmo.↩